Claudia Leitte fala sobre saúde mental, axé intimista e pressões: ‘Aos 45, não preciso da aprovação de ninguém!’


Nos últimos anos, tentaram colar na cantora rótulo de polêmica: ‘Eu sei quem eu sou e isso basta’. Ela inaugura nova fase apostando em um axé intimista com o show ‘Intemporal’. Longe da busca por aprovação, reflete sobre saúde mental e amadurecimento. “O projeto nasceu em momento de pausa e reflexão, em que saúde mental teve que virar prioridade. A música, como sempre, foi alicerce. É através dela que eu expresso pensamentos e faço desabafos”

*por Vítor Antunes

Ela dispensa apresentações – mas se apresenta, sempre, e com alma inteira. Claudia Leitte não chega sozinha: seu carisma entra antes, ocupa os espaços com leveza. A quem a acusa de contradição, ela responde com a serenidade de quem se sabe humana. “Vejo a mim sempre diante da necessidade de um constante amadurecimento, de reforço à saúde mental e no amparo que a arte me traz”. Em tempos em que os julgamentos correm mais rápidos que os afetos, Claudia caminha com a firmeza de quem conhecer a própria trajetória:

Eu sei quem eu sou e isso basta: sou uma mulher de 45 anos, que não precisa da aprovação de ninguém” – Claudia Leitte

Nos últimos anos, tentaram colar nela o rótulo da polêmica. Mas o que Claudia vem oferecendo é algo mais difícil de sustentar: autenticidade. Não aquela moldada por marketing ou redes sociais, mas a orgânica, às vezes desconcertante, de quem ousa ser plural num mundo que cobra coerência rasa. Ela escolhe, agora, fazer barulho de outro jeito: baixando o volume. Investe em um axé mais acústico, contemplativo. “Fazer uma turnê intimista é um sonho de longa data. Durante esses anos de carreira, já fiz apresentações em teatros, gravei DVDs, estudei e me experienciei em diversos gêneros também para criar um ‘repertório lado B’ próprio. Sinto que agora é o momento ideal! É como um ‘chamado artístico’ de também expandir essa vertente intimista, que é complementar ao lado carnavalesco, elétrico, performático. O show foi redesenhado em alguns momentos com novidades que não foram apresentadas no audiovisual já lançado e tenho certeza que vai ser uma troca emocionante e inspiradora”, revela.

Claudia Leitte: “Tenho certeza que vai ser uma troca emocionante e inspiradora” (foto: Nara Fassi)

Essa nova Claudia — mais serena, mas não menos vibrante – escolheu ficar mais perto do Brasil. Neste momento, não há planos imediatos para uma turnê internacional, embora ela não descarte essa possibilidade. Seu foco, agora, é outro. “Tenho muitos sonhos e hoje oro e trabalho para realizá-los quietinha. Atualmente, o meu desejo é levar o “Intemporal” para os palcos desse Brasil. Quero compartilhar esse projeto com as pessoas que estão ali, sentindo minha música e meu som, como forma de conexão, de gratidão”. “Intemporal”, o novo show de Claudia Leitte, já está confirmado em pelo menos seis cidades – São Paulo, Rio, Curitiba, Belho Horizonte, Natal e Recife – e as pré-vendas para as apresentações abriram na última semana.

Nesta conversa, ela resgata memórias com afeto. Lembra, por exemplo, do momento em que dividiu os holofotes com Pitbull e Jennifer Lopez durante a Copa do Mundo, 11 anos atrás. Um feito global, mas que hoje repousa como lembrança suave no relicário de sua história. “Essa parceria foi uma experiência incrível, Pitbull e JLo são artistas que admiro muito!”.

Cladia Leitte estrela “Intemporal”, que vai fazer turnê pelo Brasil (Foto: Nara Fassi)

DESACELERA, ESPERA, CALMA, RESPIRA

Ainda que um de seus apelidos — justo e merecido — seja “Claudinha Bagunceira“, o novo projeto propõe revelar outras camadas. Tal como as palavras que abrem este segmento da reportagem e que compõem sua nova música: “Sobre Viver“. Surge agora a Claudia do silêncio, do intervalo entre os refrões, da voz que também sussurra. “Esse projeto nasceu num momento de pausa e reflexão, em que a saúde mental teve que virar prioridade. A música, como sempre, foi meu alicerce. É através dela que eu expresso meus sentimentos, meus pensamentos e faço meus desabafos. Às vezes, músicas minhas; às vezes, de outros artistas. Esta é a minha melhor linguagem, a forma de comunicação com o público com a qual me sinto mais à vontade, além de saber que me expressar através da música faz bem ao outro também”.

Claudia Leitte: “A música, como sempre, foi meu alicerce” (Foto: Nara Fassi)

É nesse tempo novo, entre pausas e melodias contidas, que Claudia Leitte reafirma sua presença, como quem compreendeu que amadurecer também é saber quando não dizer — e ainda assim ser ouvida. A “Claudinha Quietinha” toma a vez da “Bagunceira”, mas não a eclipsa – apenas o desloca para outra frequência, onde a intensidade se mede pelo afeto, e a presença se dá pelo acolhimento. Nesse compasso mais íntimo, ela nos lembra que existir também é saber sustentar o vazio entre as notas. E que, com ela, até o silêncio tem voz.