Capixaba encontra duas cópias de álbum raríssimo de Roberto Carlos; disco é renegado pelo cantor


O colecionador Bernardo Fonseca, que mora em Cachoeiro de Itapemirim (ES), guarda duas cópias raras do LP “Louco por Você” (1961), de Roberto Carlos. O disco teve baixa tiragem e repercussão limitada, tornando-se item valorizado entre colecionadores. Hoje, exemplares podem alcançar cerca de R$ 8 mil, mas o dono afirma que não pretende vendê-los. O álbum reflete um início de carreira ainda indefinido, com mistura de estilos e recepção discreta. Renegado pelo cantor e nunca relançado, o trabalho permanece à margem de sua discografia oficial. No dia 19 de abril deste ano, data do aniversário de Roberto Carlos, é previsto o retorno do Rei à sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim. Para Bernardo que guarda as duas cópias do disco, a expectativa é encontrar o cantor e, talvez, falar sobre o LP

*por Vítor Antunes

Em Cachoeiro de Itapemirim (ES), um colecionador mantém guardadas duas cópias de um disco que raramente aparece à venda. Trata-se de Louco por Você, primeiro LP de Roberto Carlos, lançado em 1961 pela Columbia Records. Não há dados precisos sobre a tiragem original, mas a estimativa mais recorrente aponta para cerca de 600 cópias vendidas. O número é citado pelo pesquisador e jornalista Paulo César de Araújo. Na época, o disco teve pouca repercussão e acabou se tornando um título marginal dentro da discografia do cantor. O dono das duas cópias é Bernardo Freitas Fonseca, 33 anos, responsável pela loja Legião do Vinil, também em Cachoeiro, cerca de 130 km de Vitória. A cidade é a mesma onde nasceu Roberto Carlos e onde a música “Meu Pequeno Cachoeiro”, de Raul Sampaio, se tornou o hino oficial da cidade. No bairro do Recanto, está instalada a Casa de Cultura Roberto Carlos.

Bernardo afirma que não pretende vender os exemplares, mesmo com a valorização do disco no mercado de colecionadores. Em plataformas especializadas, uma cópia pode chegar a cerca de 8 mil reais. Ele começou a se interessar por vinil ainda jovem, influenciado pelo ambiente familiar. “Na minha casa sempre teve esse costume de ouvir música em disco. Fui garimpando aos poucos”, diz.

Todos os álbuns de estúdio lançados por RC compõem a coleção de Bernardo e o acervo da sua loja (Foto: Acervo Pessoal)

Hoje, ele mantém um acervo de cerca de 40 mil títulos entre itens à venda e coleção própria. Só de Roberto Carlos, são mais de 300 discos, incluindo edições nacionais, internacionais e exemplares repetidos — estes, em geral, destinados à revenda. As cópias de Louco por Você, no entanto, ficam fora desse circuito.

Capixaba Bernardo Freitas Fonseca encontra duas cópias de álbum raríssimo de Roberto Carlos; disco é renegado pelo cantor (Foto: Acervo Pessoal)

O DISCO

Em 1960, Roberto Carlos ainda se apresentava como crooner de boate, interpretando repertório alheio enquanto tentava encontrar um caminho próprio. Foi nesse período que, segundo a Revista Radiolândia, foi contratado pela Columbia Records. O responsável foi Roberto Corte Real (1921-1988), então superintendente da gravadora, após uma apresentação na casa de Carlos Imperial (1935-1992), onde Roberto cantava bossa nova — uma das vertentes que experimentava naquele início de carreira, versão porém refutada pelo biógrafo de Roberto Carlos. “Ele fracassou com o primeiro disco, o compacto de 1959. Carlos Imperial levou ele para diversas gravadoras, e ele foi recusado em todas. E aí faltava uma, a Columbia (CBS), onde ele conseguiu gravar. O Roberto até lembra que correu lá para buscar um paletó para ser recebido, já que a apresentação dele à gravadora foi marcada meio de improviso, e na época, Roberto era crooner de boate”.

Depois da gravação de “Louco por Você“, que também não foi bem sucedido, por pouco o cantor não foi dispensado da gravadora. Quando Sérgio Murilo, um cantor de rock da época, sai da gravadora, os olhares se voltam para Roberto Carlos, que começa a ter repercussão já com os próximos singles: “Malena“, “Splish Splash” e a primeira parceria com Erasmo, “Parei na Contramão“.

O Roberto foi melhorando como cantor. Ele acredita que não estava cantando bem nesse disco, que é meio híbrido, um disco muito singular. Na época, isso não era comum: os artistas gravavam discos de um único estilo — bolero, rock, ou então samba de gafieira, baião. Não tinha essa coisa de misturar. A ideia era que o disco funcionasse como uma espécie de laboratório. O Roberto recebeu e aceitou — não tinha muita escolha, era o primeiro álbum dele. Mas essa indefinição se reflete na forma de cantar, porque ele acaba não cantando bem. Ele também tem um trauma aqui porque sentiu que desafinou num trecho de ‘Não É Por Mim’. Ele quis corrigir na hora, mas ninguém achou nada demais — acharam que, colocando um pouco de eco, a coisa seria resolvida. Quando o disco saiu, ele viu que não foi, e o ouvido dele, que é muito bom, fez com que isso o marcasse bastante, o deixou traumatizado com esse disco – Paulo César de Araujo, jornalista

Capa do álbum “Louco por Você”, de 1961 (Foto: Reprodução)

Roberto também se desagradou com a capa: “Ele não queria de jeito nenhum. Preferia a própria foto na capa. Ele estava sonhando com o primeiro LP, e a maioria dos cantores tinha sua imagem estampada. Mas ele ainda não era muito fotogênico. Ou seja, ele não tinha definido a voz, não tinha definido a imagem, não tinha se definido como compositor — não há nenhuma música dele no disco. Ainda não existia o compositor Roberto Carlos como viria a existir depois. Roberto atirou para todo lado, não acertou em nenhuma e teve que começar novamente”. Paulo nega que o insucesso do disco tenha valido uma caça às bruxas e a coleta do álbum. “Nunca achei confirmação disso. Nunca encontrei confirmação de que mandaram recolher o disco. Isso nunca foi confirmado”.

Lançado em 1961, em formato mono, Louco por Você teve recepção discreta. Passou quase despercebido pela crítica e pela imprensa especializada, com menções pontuais e recomendações tímidas. Segundo Paulo César, o disco vendeu cerca de 514 cópias. “Esse número nunca será um número confiável”, segundo ele, na ocasião, os números eram restritos aos mercados de Rio e São Paulo. “Essa informação dada certa pela gravadora CBS para alguns jornalistas, que foram vendidas 514 cópias desse disco, circulou na mídia, foi contada nos anos 80, foi repetida nos anos 90. Tarik de Sousa, historiador musical, cita esse número numa matéria sobre Roberto Carlos. O fã-clube oficial de Roberto Carlos cita esse número numa vantagem especial. Outros falam em 700.  O que me fez me fixar nos 514 cópias, que é o que eu coloco no livro “roberto Carlos em detalhes”, foi do próprio Roberto Carlos, ele falando que o seu disco vendeu 500 e poucas cópias”, diz.

Divulgação da época em que Roberto Carlos se apresnetava como crooner de boate, em 1960 (Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional/Jornal do Brasil)

Em 1962, a colunista Célia Villela, da Revista Cinelândia, destacou a faixa “Linda” em sua coluna “Na Roda do Rock”. Em textos da época, ela não apenas comentava lançamentos, mas também se dedicava a explicar ao leitor o que era o rock — um gênero ainda em processo de assimilação no Brasil. Naquele mesmo ano, Célia apontava Roberto como uma aposta dentro desse universo e mencionava a existência de um fã-clube dedicado a ele e a Elvis Presley, localizado no bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

A jornalista tinha presença constante na mídia: mantinha programas na TV Continental e na Rádio Globo, além da coluna na revista. Ainda em 1962, Roberto lançou um novo compacto. Uma das faixas, “Malena”, teve boa execução na Rádio Globo e seria incluída no álbum seguinte, de 1963 — o disco que marca uma virada mais clara em sua trajetória e que inclui “Splish Splash”.

Roberto Carlos, aos 20 anos (Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional/Radiolândia)

Roberto Carlos em registros do primeiro álbum (Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional/Radiolândia)

Parte do repertório de Louco por Você leva a assinatura de Carlos Imperial, também natural de Cachoeiro de Itapemirim. O disco, embora renegado publicamente ao longo dos anos, integra o acervo pessoal do cantor, segundo sua equipe. O álbum apresenta um repertório que mistura bossa nova, bolero e influências do rock, distante do estilo que marcaria a carreira do cantor nos anos seguintes, especialmente a fase da Jovem Guarda e a produção romântica. Também por isso, acabou sendo deixado de lado pelo próprio artista.

 Segundo o jornalista Mauro Ferreira, Roberto Carlos vetou a inclusão do disco em relançamentos posteriores e pediu, em 2012, a retirada da versão digital que estava disponível no iTunes. Até hoje, o álbum nunca foi relançado oficialmente. Em análise publicada em 2021, Mauro Ferreira descreveu o disco como irregular, com repertório disperso entre diferentes estilos. Para ele, o trabalho reflete um momento inicial da carreira, em que o cantor ainda buscava uma identidade própria, com influências evidentes de João Gilberto.

Registro de Roberto Carlos gravando seu primeiro disco e ainda entitulado como “cantor bossa nova”. Jornais diziam que ele tinha 18 anos, quando na verdade era dois anos mais velho (Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional/Radiolândia)

No dia 19 de abril deste ano, Roberto Carlos tem retorno previsto à sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim. Para Bernardo, o colecionador que guarda duas cópias do disco, a expectativa é encontrar o artista e, talvez, falar sobre um LP que ficou à margem da história oficial — mas não desapareceu completamente. Procurada para comentar o álbum e a relação de Roberto Carlos com esse início de carreira, a assessoria do artista preferiu não se manifestar.