Beth Carvalho faria 80 anos e a filha Luana aposta em videocast com histórias inéditas da ‘madrinha do samba’


Luana Carvalho dedica-se a preservar o legado da mãe, Beth Carvalho (1946-2019), com projetos que incluem um videocast e o resgate de registros históricos, como o show de Montreux, em 1987. A iniciativa amplia a discussão sobre memória, política e o papel do samba na formação cultural do país, destacando a atuação firme e ideológica da artista. Luana também lembra o compromisso da mãe com o gênero, mesmo diante de limitações físicas, e o pacto que manteve com o público. Além da homenagem, ela propõe refletir sobre o lugar das mulheres no samba e a necessidade de reconhecimento aos compositores e famílias que sustentam o gênero. Entre curadoria, pesquisa e comunicação, Luana transforma a herança artística em um projeto contínuo de preservação histórica

*por Vítor Antunes

Ela tinha um nome que não designava apenas uma mulher, mas uma entidade. Não à toa, quando a Unidos do Cabuçu decidiu homenageá-la, em 1984, batizou o enredo de “Beth Carvalho, a enamorada do samba”. E a filha, Luana Carvalho, dedica-se a manter aceso o legado da mãe, Beth Carvalho (1946-2019), a “madrinha do samba”, que completaria 80 anos neste 2026. No fim do ano passado, Luana lançou um videocast que promovia encontros entre sambistas tendo a própria Beth como fio condutor. Para este ano, planeja resgatar gravações históricas, como a do show em Montreux, em 1987.

Luana lança luz sobre a personalidade de Beth e a forma como ela encarava o mundo e suas complexidades: com princípios inegociáveis. “Minha mãe era radical, era declaradamente comunista, socialista. Era amiga do Fidel Castro, muito brizolista, devota de Darcy Ribeiro, de Paulo Freire. Minha mãe nunca foi Lula antes de o Brizola morrer. Mas, a partir do momento que o Brizola morreu e que o Lula era a representação da esquerda, votou nele para presidente. Inclusive, Lula mandou uma carta para minha mãe quando ele estava na cadeia, que é a coisa mais linda do mundo. Ela estaria agora, eu tenho certeza, rezando para o Lula se reeleger e voltar”.

A personalidade de Beth era firme, ainda que sua voz alternasse entre a doçura e a contundência. “Minha mãe era muito decidida em suas opiniões. Suas músicas tocaram muito no Japão, mas ela nunca foi lá, por convicção política. Assim como não ia ao Leste Europeu quando o país não estava em uma situação com a qual ela concordasse.”

Eu faço questão de chamar a minha mãe de Beth muitas vezes, porque de fato, tem hora que não é minha mãe. Quando você  é filha de uma Beth Carvalho e está na está na barriga dela, que se apresentava até os nove meses de gestação,  essa pessoa nunca foi “apenas” a sua mãe, mas a mãe do Brasil, do samba, e do povo. Eu nunca me senti nada menos do que absolutamente amada. Minha mãe era alucinada por mim, até demais. Mas o pacto de vida dela era com samba – Luana Carvalho

Beth Carvalho em Montreux (Foto: Reprodução/Ronca Ronca/Foto tratada e recuperada por iA)

Como separar Beth Carvalho, a “madrinha do samba”, da Beth, a mãe? Para Luana, trata-se de um contraste que alimenta a mística materna. “Minha mãe tinha uma frase engraçada quando eu a chamava pelo nome, Elizabeth: ‘Não me chama de Elizabeth, que eu não lhe dou essas intimidades’. E eu achava isso hilário, porque era tanto pior se eu a chamasse de Beth, seu apelido. Mas, realmente, aos 16 anos, acredito ter redescoberto a minha mãe, quando olhei para todos aqueles vinis na minha frente e falei assim: ‘Vou ouvir’. E fiquei chocada por saber cantar todas as músicas de cabo a rabo, bem como perceber ali o jeito que ela dizia, sendo tão rítmica no cantar, fazendo percussão na voz. Ela falava a palavra como você precisa ouvir, sem floreio, sem vibrato, sem extensão de nota. fazia apenas o que é preciso ser dito, que é como a crônica do cotidiano. Eu fui entender a Beth depois. Entendê-la como uma mãe que tinha muito pouco tempo para ser mãe”.

Minha mãe dizia muito isso: “Luana, você tem que agradecer,  porque eu sempre posso te levar para o meu trabalho”. Eu entendo o que ela quis dizer, mas nem sempre eu queria ir. Por outro lado, era um privilégio absoluto viajar ao mundo cedo para ouvir o samba pelo mundo, com aquele bando de músico preto conhecendo tudo o que era canto – Luana Carvalho

Neste 2026, Beth completaria 80 anos. A celebração, no entanto, revela a afirmação de um pacto com o samba. “A minha mãe chegou a cantar deitada porque a lealdade, a gratidão e a alegria que ela tem por ter sido abraçada pelo povo cantando samba é a coisa mais importante. Foi esse pacto que ela fez.”

Elisa Lucinda, Luana Carvalho e Teresa Cristina, no videocast "Diz no Samba" ((Foto: Ricardo Nunes)

Elisa Lucinda, Luana Carvalho e Teresa Cristina, no videocast “Diz no Samba” (Foto: Ricardo Nunes)

No fim do ano passado, Luana conduziu um videocast para o projeto Sambabook, o Diz no Samba, tendo Beth como fio condutor. A ideia, agora, é expandir o conceito. “A ideia para este ano é voltar e fazer uma segunda temporada do videocast, e não com a Beth como fio condutor, mas talvez com o samba enquanto comportamento, o que não deixou de haver nessa primeira temporada também, por mais que tenha sido um dos componentes. Essa ideia eu já tinha. Acabei encaixando na proposta do pessoal do Samba Book”.

Entre as frentes que Luana assume está o resgate da memória do samba, frequentemente relegada às margens. No caso de Beth, há vasto material preservado — por iniciativa da própria artista. “A minha mãe era uma arquivista inata. Ela instituiu a selfie, praticamente, pois sabia a importância daqueles registros. Era uma pessoa viciada em registros, sempre foi, e muito por acreditar no quão negligente é o Brasil para a memória, com fraturas muito amplas. Fazer um videocast com a Beth como fio condutor vai muito além de ela ser minha mãe, mas ao fato de ela ser uma personagem na história do país. Muito da minha vida hoje é registrar um legado, e isso é trabalhar com memória 24 horas por dia. Memória como cifra, memória como importância, memória como moeda social, memória como moeda histórica”.

Ao falar do lugar da mulher no samba, Luana toca numa ferida ainda aberta. “Eu tentei puxar isso em quase todos os episódios do videocast. Procurei exaltar a memória delas. Eu procuro falar do fato de a mulher ser mais musa do que ativa dentro do fazer samba. São muitas as mulheres que foram fundamentais e não são conhecidas. O samba é muito machista, como o patriarcado no geral”. E há também a musicista — não apenas a cantora. “A minha mãe tocava muito bem violão, não só para compor mas para ter uma noção harmônica grande. Por isso ela era musicista e não só cantora. Isso fez com que os músicos a respeitassem de um outro jeito, porque também tem isso: cantora não é respeitada. Cantora só é respeitada se a cantora for ‘músico’. A mulher-músico não é respeitada como um músico homem.”

Luana Carvalho e Zeca Pagodinho, no videocast (Foto: W Possato)

COMUNICADORA

Nos últimos meses de 2025, Luana dedicou-se a resgatar a memória por meio do videocast — disponível no Spotify e em outras plataformas digitais. Ao reunir nomes de peso do gênero, enxergou no formato uma inversão deliberada de foco: menos a figura do entrevistador, mais a escuta. “No podcast, eu penso que é o lugar de fazer o entrevistador se ausentar, de fato. E  eram entrevistas com intimidade. Eu sou só uma anfitriã. Mas eu tenho vontade, realmente, de continuar, de preferência como um programa para além de videocast — talvez uma coisa de TV mesmo, de algum streaming — entendendo qual é a influência real, em termos comportamentais, do samba na cultura brasileira”.

A ambição extrapola o estúdio. “O samba, eu acho que é muito forte aqui no Sudeste, mas cada vez mais no Brasil inteiro. Então, quero fazer também essa conversa entre esses outros gêneros que se tornam cultura, que se tornam a identidade de uma região e de suas pessoas. Tenho uma vontade de que ele seja um projeto, inclusive, chamado “Canto de um Lugar“. Mas, seguindo nesse mesmo caminho do videocast, quero, para este ano, também fazer um trabalho que fale do Rio, sobre onde a história da cidade se cruza com o samba – com o samba da Bahia, com as regiões do Rio, do porto carioca, onde chegaram as pessoas que se diziam descobrindo a cidade”.

Luana Carvalho quer investigar as raízes do samba (Foto: W Possatto)

Se hoje o interesse está na investigação e na curadoria, houve um momento em que Luana flertou com outra vitrine. No início dos anos 2000, tentou carreira como atriz — experiência que não pretende revisitar. “Sou formada pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), fiz Letras também na PUC, mas comecei pela CAL. Fiz umas peças, fiz umas novelas. Na época, eu tinha um empresário e estava acreditando muito que era isso que eu queria. Acabei sendo patrocinada pela Diesel. Fiz vários trabalhos, movida também um pouco pelas circunstâncias. Eu vivi muita solidão da cantora, da intérprete solo. E acho que, no fundo, eu sempre quis escrever, mas tinha aquela coisa de ‘vai lá e faz alguma coisa que tenha público’. Mas eu não tenho essa vontade de voltar a trabalhar como atriz ou cantora, a não ser as canções que eu mesma compus. Acredito que por isso acabei fazendo alguns shows das minhas canções, porque aí parece que estou falando aquilo que eu tenho para dizer mesmo”.

Ela prossegue: “Trabalhei um tempo como atriz e rapidamente me dei conta de que não ia conseguir seguir naquilo. Eram muitos códigos que tinham a ver com a própria rede profissional e eu não tenho esse perfil. Eu sou muito reclusa. Preferi ficar sentada num escritório escrevendo sozinha. Esse prefil não combina com um Projac. São registros muito opostos. Tem que ter muita tranquilidade de se externar, muita sociabilidade.”

Luana Carvalho e os Golden Boys (Foto: W Possatto)

Eu acho que o filho do artista tem essa construção de que o futuro é uma grande plateia, coisa que eu nunca gostei. As pessoas falam que eu nasci eu no palco, mas eu nasci na coxia. A pessoa está lá se relacionando com aquilo que eu escrevi, mas eu não estou lá, presente imediatamente – Luana Carvalho

Luana observa, sem saudosismo automático, as transformações do samba nas últimas décadas. Entre jovens que se dedicam ao chamado samba de raiz e artistas que recorrem ao gênero em momentos de oscilação na carreira, ela enxerga um movimento ambivalente. “Eu acho que tem muita gente nova e boa, e eu tenho a sensação de que todo mundo, quando está num momento da carreira meio duvidoso, recorre ao samba. Vai existir uma camada da sociedade musical que vai crescer o suficiente para fazer nome. Agora, a quem usa o samba como trampolim, é duro. Essa é a camada de músicos mais prejudicada do país”.

Para ela, a questão central não é a pureza estética, mas a engrenagem social que sustenta o gênero. “Essa galera que compõe o samba precisa de reconhecimento, de remuneração. São famílias que geralmente têm origem pobre. São famílias que não têm nem condição de entender como é que funciona o mercado do direito autoral, por exemplo”.

Luana Carvalho, Teresa Cristina e Elisa Lucinda, convidadaas do Diz no Samba (Foto: Ricardo Nunes)

Luana reconhece que o samba tem fundamentos — quase uma ética interna. “O samba tem fundamento, tem cadência, pede determinados comportamentos e condutas — inclusive técnicas de usar a voz, o instrumento. O povo é esse o assunto do samba. O assunto do samba é o próprio Brasil, muitas vezes, assim como o amor — o amor do coração do Brasil. As carências do brasileiro”. Há, no entanto, um alerta geracional. “Os grandes músicos estão morrendo. Tem uma galera muito jovem fazendo samba tradicional e muitos deles não têm tanta repercussão.”

Oitenta anos depois de seu nascimento, Beth segue menos como lembrança e mais como presença — uma entidade que atravessa o tempo na cadência de um surdo. Entre arquivos organizados com obsessão, cartas guardadas, vinis redescobertos e episódios de videocast que transformam memória em método, Luana parece ter entendido que herdar Beth não é apenas carregar um sobrenome, mas sustentar um pacto. Um pacto que foi feito com o povo, com o samba e com essa ideia teimosa de Brasil que insiste em cantar a própria falta. Se a mãe tinha compromisso com o palco, a filha assume o bastidor como trincheira: registra, organiza, provoca, escuta. Talvez não haja separação possível entre a mãe e a madrinha. Há uma linhagem. E nela, o samba continua sendo menos um gênero musical do que uma forma de permanência.