Música & Badalo

Baia lança álbum com verve política e questiona: “O que gerou esse recorde de delações? Dá a entender que a prisão está servindo para pressionar”

Em "Fúria do Mar", “cada música tem um universo próprio e com a mesma banda fomos buscando a sonoridade de cada uma delas”. Uma homenagem à pequena Dora, filha de Baia, equilibra o clima do álbum: “Mudou o meu lugar no mundo. O sol deslocou-se! A rotina se reverteu em função dela”

Publicado em 02/03/2016 | Por Lucas Rezende

É “Suíte Bourbon 1407”, sem dúvida, a faixa mais comentada de “A Fúria do Mar”, novo álbum do baiano radicado no Rio de Janeiro, Baia. Para quem ainda não ligou a missa ao padre, é uma referência ao hotel curitibano onde se hospedam os advogados dos presos na Operação Lava Jato, maior investigação sobre corrupção que se tem notícia na história do Brasil. Em entrevista exclusiva ao HT, Baia diz que esses “temas chegam de diferentes formas” e que, “talvez por causa do momento atual, essas músicas chamaram mais atenção, inclusive de colunas políticas, do que outras músicas do mesmo teor”. E foi o que realmente aconteceu. “Me impressionou a rapidez com que as revistas ‘Veja’ e ‘Exame’ furaram nossa divulgação para os cadernos de cultura, ao publicarem notas sobre ‘Suíte Bourbon 1407’, em suas colunas de política. A primeira colocou a carapuça de “inquisidor” no juiz Sergio Moro (responsável pelas ações da Lava Jato) e isso não está claro na letra da música”, reclama.

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Na entrevista a seguir, Baia fala do álbum (“Cada música tem um universo próprio e com a mesma banda fomos buscando a sonoridade de cada uma delas”), do momento paternidade que inspirou uma das faixas (“Mudou o meu lugar no mundo. O sol deslocou-se! A rotina se reverteu em função dela”) e, claro, como não poderia ser diferente, de política. “O que gerou esse recorde de delações (premiadas, onde, por entrega de informações, acusados têm redução de pena – daí o ‘prêmio’)? O criminoso que oferece perigo e precisa permanecer preso, a partir do momento em que cede ao acordo, deixa de ser perigoso e vai pra casa? Quem mais cometeu crimes e mais sabe dos detalhes, terá maior benefício?”, questiona. Perguntas que ele prefere usar seus próprios versos musicais para responder. Esperto. Bem mais, aliás, que quem circulava pelos corredores da Petrobras e hoje treme ao ver o japonês da Federal. Aos fatos – antes dele lançar “A Fúria do Mar” em show marcado para 4 de março no Circo Voador, no Rio.

HT: Ok que o disco não é monotemático, mas por que apostar em temas polêmicos? Jogar para fora uma insatisfação ou para provocar burburinho – como já conseguiu?

B: Os temas são livres e nos chegam de diferentes formas. Uma tsunami de informação inunda as redes sociais, revistas, TVs e jornais. Muitos artistas, como Gabriel O Pensador, que lançou “Chega” e “Cacimba de Mágoa” mais ou menos no mesmo período, fizeram canções carregadas de insatisfação e espírito reflexivo. Talvez por causa do momento atual, essas músicas chamaram mais atenção, inclusive de colunas políticas, do que outras músicas do mesmo teor, em épocas passadas, como “Bicho Homem” e “Do Romantismo à Roma Antiga”.

HT: Li uma reportagem da Revista Exame onde você disse: “Sérgio Moro virou um herói para as pessoas, mas é importante levantar algumas questões”. Quais serão elas? Poderia explaná-las?

B: Me impressionou a rapidez com que as revistas Veja e Exame furaram nossa divulgação para os cadernos de cultura, ao publicarem notas sobre a música “Suíte Bourbon 1407”, em suas colunas de política. A primeira colocou a carapuça de “inquisidor” no juiz Sergio Moro e isso não está claro na letra da música. “O Inquisidor pergunta ao preso / se ele quer sair ileso / E lhe empurra um acordo / Que endurece os seus dez dedos”. Quem promove os acordos de delação premiada não é o juiz, mas assim foi entendido e divulgado o trecho. Essa é a questão: se cabe ao juiz ser imparcial e sendo Moro um juiz internacionalmente premiado, por que estão entendendo e publicando que ele é o “inquisidor” da música?

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HT: Melhor uma delação premiada com pena reduzida ou uma prisão sem descontos, mas também sem revelações maiores? Por quê?

B: Essas perguntas eu também me faço! O que gerou esse recorde de delações? O criminoso que oferece perigo e precisa permanecer preso, a partir do momento em que cede ao acordo, deixa de ser perigoso e vai para casa? Quem mais cometeu crimes e mais sabe dos detalhes, terá maior benefício? Dá a entender que a prisão está servindo para pressionar a delação. E quem não tem fatos relevantes, paga a pena sem descontos. “Uns dizem que é certo e outros dizem que é vesgo”. Judas também não foi premiado, com trinta moedas de prata, por sua delação? “Todos querem saber aonde acaba o fio desse novelo”.

HT: Você está mais para Michel Temer ou mais para Lobão? O Brasil vai melhorar ou é melhor carimbar o passaporte logo?

B: Eu sempre estou disposto a carimbar o passaporte e viajar para apresentar o meu trabalho em outros países e acho essas experiências maravilhosas, mas quando volto para casa, é em casa que me sinto! Não tenho como prever o futuro da nação, nem levantar bandeiras ou apontar caminhos. Vivemos num mundo de especulação. É difícil perceber o que é real e o que é ilusório. Você pode usar os óculos que vem com a TV e acreditar que o 3D é real, mas quando acaba a luz você tem que tira-los, pois eles atrapalham a visão multi-focal.

HT: O som das guitarras chamam atenção em certas faixas do novo álbum, bem como uma pegada folk e até country. Fala um pouco do que pensou para a musicalidade desse trabalho….

B: O disco “A Fúria do Mar” foi gravado pelos músicos que me acompanham nos shows. Entramos no estúdio “Montanha”, do produtor musical Shilon Zygiel e gravamos várias versões de cada música até chegarmos ao produto final. Algumas faixas foram compostas no próprio estúdio. Cada música tem um universo próprio e com a mesma banda fomos buscando a sonoridade de cada uma delas.

HT: Ao mesmo tempo, o disco também traz momentos de calmaria e um bom deles é com “Dora”, em homenagem a sua filha. O que mudou no Baia quando virou pai?

B: Esse disco foi fruto da minha “licença paternidade”. Passei uns meses em casa cuidando dela e vivenciando esse milagre. Recebi visitas de músicos e tocávamos enquanto ela ficava ali ouvindo. E acabei selecionando no repertório de parceiros e amigos, da minha geração, canções que haviam me marcado. Entrei no estúdio para gravá-las e acabamos produzindo um material novo ao longo das sessões e uma dessas faixas, “Ladrão Que Rouba Ladrão”, foi escolhida pela Som Livre para ser lançada em EP, em setembro de 2015, no Rock In Rio, antecipando três faixas do CD que saiu em dezembro. Foi a primeira vez que minha filha me viu no palco e a primeira vez que sua música foi tocada ao vivo. Apesar da fúria do mar e das massas, a produção desse disco teve mais a ver com o clima desta música, foi tranquila e em família.

HT: Mudou alguma opinião, algum comportamento, o jeito de enxergar a vida?

B: Mudou o meu lugar no mundo. O sol deslocou-se! A rotina se reverteu em função dela. Fiquei mais medroso e mais corajoso ao mesmo tempo. Passei a viver mais um dia após o outro e algumas preocupações sumiram, enquanto outras cresceram. Passei a viver o mundo infantil e entendi que minha vida estava ali, tendo um novo começo.

HT: Que mundo você acha que a Dora vai ter daqui 20 anos? E qual você gostaria que ela tivesse?

B: A música termina com o verso “que o tempo te aconselhe a ver o mundo com o olhar de quem namora”. Não sei como será o mundo daqui a 20 anos, mas gostaria que este fosse o seu olhar.

HT: Você fala, em uma das faixas, até das filas que o brasileiro enfrenta. Mas, em sua opinião, qual o mal tupiniquim do século?

B: As filas não são apenas dos brasileiros, “a fila é do indiano, ela é do americano, ela é do africano, ela é do cidadão…” como diz a letra. O mal é ver que além da fila, tem o fura-fila, tem a ultrapassagem pelo acostamento e tudo o que isso representa em nossa história.

HT: Seu novo trabalho caiu em peso nas plataformas digitais, seguindo uma tendência do mercado. Mas há uma forte discussão entre os serviços de streaming musical e os artistas, sobre o justo repasse dos direitos de execução. Como você se posiciona?

B: O repasse por música executada é igual a zero vírgula zero, depois disso aparecem alguns números. As músicas estão nas nuvens e a chuva é de centavos. Não estou por dentro dos argumentos dessa discussão, mas acredito que nada que valha 0,0… deva ser um repasse justo!

Serviço

Show de Baia no Circo Voador – Lançamento do álbum “A fúria do mar”

Data: 4 de março de 2016, sexta-feira
Abertura dos portões: 22h
Show de abertura com Rubel
Ingressos: www.ingresso.com e na bilheteria do Circo Voador (somente em dinheiro)

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