Autor do hit “P do pecado”, Henrique Casttro lança feat com Menos é Mais e relembra parceria com Marília Mendonça


Fenômeno musical, “P do Pecado” ultrapassou o sertanejo e virou hit também no pagode, impulsionada pelo sucesso com o Menos é Mais e Simone Mendes. Autor da faixa, Henrique Casttro vive agora um novo momento ao assumir os vocais em “Nem Pagando”, parceria inédita com o grupo. O cantor afirma que o segredo de um sucesso está na verdade emocional das canções, sem fórmulas artificiais. Henrique também relembra os aprendizados com Marília Mendonça, de quem era amigo próximo e parceiro musical. Entre desabafos amorosos e letras confessionais, ele aposta em músicas que funcionam como espelho afetivo do público

*por Vítor Antunes

Um dos grandes fenômenos musicais de 2025, “P do Pecado” já ultrapassou qualquer fronteira de gênero. Basta entrar em uma roda de samba, um pagode de bar ou até em festas sertanejas para perceber que o refrão virou patrimônio coletivo da sofrência brasileira. A canção, assinada por Ricardo, Ronael, Elvis Elan e Henrique Casttro, nasceu no sertanejo, mas encontrou no pagode uma segunda combustão. Viralizou, atravessou públicos e se transformou num daqueles raros casos em que a música parece escapar do controle da própria indústria para ganhar vida nas ruas, nos stories e no coro espontâneo de quem canta como se a letra tivesse sido escrita para si.
Segundo Henrique Casttro, o impacto da faixa foi além do que ele imaginava quando entrou em estúdio. “P do Pecado” nasceu de um sentimento muito real. Eu sempre acreditei que música boa não tem cerca, ela atravessa estilo, atravessa público. Quando a gente fez, já veio com uma verdade muito forte, uma melodia que gruda e uma história que qualquer pessoa sente. Mas sendo bem sincero, eu sabia que era especial, só não tinha noção do tamanho. Quando vi o povo do pagode abraçando, cantando com verdade, aí eu entendi que ela tinha virado algo maior que um gênero. Virou sentimento de geral”.

A faixa ganhou força nacional no encontro entre o grupo Menos é Mais e Simone Mendes, combinação que ajudou a transformar “P do Pecado” em um hit onipresente nas plataformas e nos palcos. Agora, é a vez de Henrique inverter os papéis e assumir o protagonismo em uma parceria direta com o grupo de pagode em “Nem Pagando”, música que marca um novo capítulo em sua trajetória artística. Mais do que apenas um lançamento estratégico, a canção funciona como um divisor de águas na carreira do artista. Reconhecido nos bastidores como um dos compositores mais requisitados do mercado, Henrique Casttro começa a consolidar também sua identidade como intérprete, sustentado por uma assinatura emocional que mistura vulnerabilidade, romantismo ferido e a linguagem popular que conversa sem filtro com o público.

Henrique Casttro é um dos autores da música campeã do Troféu Imprensa de 2026 (Foto: Divulgação)

E, curiosamente, “Nem Pagando” nasceu longe de qualquer cálculo comercial. A música surgiu de maneira espontânea, em uma roda de amigos atravessada por confidências amorosas, cerveja na mesa e aquelas conversas que começam em tom de brincadeira e terminam em catarse coletiva. Ao lado de Márcia Araújo, Elvis Elan, Thiago Alves, Samuel Alves e Marcos Buzzo, Henrique transformou histórias reais em versos confessionais que carregam identificação imediata. “A gente nem ia escrever naquele dia. Estávamos em um dos nossos inúmeros desabafos sobre a vida e o amor, e a música simplesmente saiu. Ela é inspirada em histórias reais, na vivência de uns amigos aí “, conta Henrique, que divide os vocais da faixa com o Menos é Mais.

Nunca recebi tantas mensagens por uma música. Tenho amigos me ligando o tempo todo dizendo que ‘o meu momento chegou’. Ter esse reconhecimento por uma faixa que ainda nem lançou é algo incrível e mostra a força dessa verdade que colocamos na letra – Henrique Casttro

Henrique Casttro não acredita que haja uma fórmula para se atingir o sucesso, mas que este é ordenado pela verdade artística (Foto: Divulgação)

Existe fórmula para criar um hit? Em uma indústria que frequentemente tenta transformar emoção em algoritmo, Henrique Casttro acredita que o caminho ainda passa por algo menos calculável: verdade. Para o cantor e compositor, músicas que atravessam o público costumam nascer de sentimentos reconhecíveis, daqueles que dispensam explicação sofisticada porque chegam primeiro ao peito e só depois à razão. “Verdade. Pra mim, se não for verdade, não bate. Pode ter estratégia, pode ter tudo, mas se não conectar de verdade, não fica. E além disso, tem que ser simples de sentir. Às vezes a gente complica demais, mas o hit é direto no coração. Uma frase forte, uma melodia que gruda e um sentimento que a pessoa se sente representada”.

A fala ajuda a explicar não apenas o êxito recente de Henrique nas plataformas e nos bastidores da música sertaneja, mas também sua forma de enxergar o mercado. Em tempos de canções desenhadas para cortes de quinze segundos e refrões fabricados para viralizar no TikTok, ele aposta justamente no movimento contrário: músicas que parecem conversa íntima, confissão de madrugada ou mensagem nunca enviada. É nessa camada de identificação quase instantânea que seus sucessos têm encontrado força.

Henrique Casttro e Marília Mendonça eram parceiros (Foto: Divulgação)

E foi justamente essa autenticidade que, segundo Henrique, transformou Marília Mendonça (1995-2021) em um fenômeno raro da música brasileira. Parceiros e amigos próximos, os dois construíram uma relação criativa marcada por troca emocional genuína, sem personagens ou blindagens artísticas. Para ele, a cantora possuía uma habilidade quase brutal de transformar vulnerabilidade em canção popular. “A Marília Mendonça foi uma das pessoas mais verdadeiras que eu conheci dentro da música. A nossa troca era muito sincera, sem filtro. A gente falava de dor, de amor, da vida real… E isso virava música. O maior aprendizado que ela me deixou foi esse: coragem de falar a verdade e de não ter medo de expor o sentimento. Até hoje, quando eu vou compor, eu lembro muito disso, de não maquiar a emoção”.

Talvez seja justamente isso que explique por que Henrique Casttro tem encontrado eco tão forte em tempos de músicas consumidas na velocidade de um deslizar de tela: suas canções ainda carregam cheiro de conversa atravessada pela madrugada, de mesa cheia de copos vazios e sentimentos transbordando antes mesmo do refrão chegar. Entre o sertanejo e o pagode, entre a dor escancarada e o romantismo sem verniz, ele parece entender que o público procura num hit um lugar onde possa se reconhecer. E quando uma música consegue transformar desabafo em espelho coletivo, ela deixa de pertencer ao artista. Vira memória afetiva cantada em coro, dessas que sobrevivem muito depois de o algoritmo mudar de assunto.