Música & Badalo

Através do “FEM Live Sessions”, Maria Gadú e o alemão Ingo Pohlmann mostram que música boa não conhece fronteiras

Sucesso total no Rio: show faz parte do Festival "FEM - Filme Encontra Música" e tem como objetivo aproximar artistas brasileiros e alemães

Publicado em 30/10/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

O “FEM – Filme Encontra Música” é um festival alemão que é realizado desde 2009 e, além do cinema, já cruzou arte, dança, teatro, arquitetura e até gastronomia com a música. Com o passar do tempo, brasileiros começaram a entrar na festa em 2011, se apresentando lado a lado com talentos germânicos, até que este ano foi criado  o “FEM Live Sessions”, um espetáculo que abandona as outras vertentes culturais e foca no som, com dois músicos, um de cada país, se apresentando lado a lado no palco. E é assim que os cariocas receberam na noite desta quarta-feira (29/10) Maria Gadú e Ingo Pohlmann no palco do Theatro NET Rio.

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A noite começa com o show de Ingo. Louro, alto, de cabelos compridos e riso fácil no melhor estilo deus nórdico, o alemão é quase um Thor que abandonou o Mjolnir, seu martelo mágico, pela guitarra e violão. E, além disso, é um dos grandes nomes na Alemanha, com uma carreira recente, que começou em 2006. Ao lado da banda integrada por um baterista e um guitarrista, ele apresenta um pop rock leve, com uma pegada meio surf music, mas completamente emocionante, até para quem não sabe falar nada do idioma. Entre piadas com a plateia e goles de uma long neck Stella Artois, o músico de 44 anos vai explicando suas composições, que têm desde os temas mais clichês até os mais inusitados: a vida na estrada e a saudade de casa; uma garota que se apaixona por um cara que não quer compromisso (pelo sorriso enviesado no rosto durante a explicação, parece que o tal sujeito é o próprio Ingo); uma outra chamada “Running Water”, uma homenagem a um homem que o cantor conheceu em um bar e que, em suas palavras, era tanto um alcoólatra quanto um filósofo; um rock sobre música; e outra faixa mais acústica sobre “peixes voadores”, que são na verdade uma metáfora para o conceito de liberdade.

A princípio, nem a plateia nem o cantor parecem se importar com a barreira linguística. Ele imerge nas músicas, balançava os cabelos e soltava gritos de alegria todas as vezes que é aplaudido e a audiência – principalmente sua parcela feminina – se divertia com o seu jeito brincalhão. “Desculpe se eu estou um pouco eufórico, mas não é sempre que um músico alemão é convidado para tocar em uma cidade tão bonita como o Rio”, conta, antes de soltar um dos vários “obrigado”. As histórias continuam, com Ingo contando que adora brigadeiro: “Outra coisa que eu sei falar em português é ‘brigadeiro'”, disse gargalhando enquanto batia na barriga. “Eu acho que já comi uns duzentos nesses últimos dias”, completou, soltando um palavrão que provavelmente ele não sabe o significado. Mas, mesmo com o entrosamento, ainda surge um engraçadinho que grita da plateia: “GADÚ!”. Após ser severamente repreendido pelo resto do teatro, o fulano se cala e o alemão segue com sua apresentação, que ainda tem cover de “Dancin’ In The Moonlight”, da britânica The Smashing  Pumpkins, e uma outra música que nasceu a partir de um quote do Mestre Yoda, – “Aprenda a se desprender de tudo o que você tem medo de perder” – “o carinha inteligente e verde de Guerra nas Estrelas“, como explica o próprio.

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Tudo vai de vento em popa e é hora de Maria Gadú aquietar seus fãs e subir ao palco. Claro, não antes de ela e Ingo – que já se apresentaram juntos por Colônia, Hamburgo e Berlim através do “FEM Live Sessions” – mostrarem total simbiose musical ao público. Ela chega com atabaque, violoncelo e pandeiro, além de seu próprio baterista, e ambas as bandas começam a improvisar um som contagiante que resume todo o objetivo do Festival: a união entre dois músicos de nacionalidades diferentes. É uma daquelas jam sessions que apenas os verdadeiros artistas são capazes de realizar, sem nenhuma batalha de ego e com um complementando o som do outro, nos vocais, na harmonia e no instrumental. Depois de se reverenciarem e trocarem elogios, o louro sai de cena e entra Gadú, ovacionada pelo público.

Trecho de Maria Gadú e Ingo Pohlmann se apresentando juntos na Alemanha

Entre os gritos de “Linda!”, “Volta para o Rio!” e “Sentimos saudades de você aqui!” que a plateia solta, Maria começa o show com “Encontro”, enquanto as pessoas a acompanham, estáticas e admiradas. Apesar de franzina e tímida sob os holofotes, vestida de maneira simples com uma calça estampada e uma camisa onde se lia os nomes dos Rolling Stones, a cantora compensa com o vozeirão que a deixou famosa e a impulsionou para o pódio dos maiores nomes atuais na cena musical brasileira. Quando recebe outro elogio berrante da plateia, ela agradece e emenda: “Eu falo pouco, mas sou educada”, diz enquanto empurra o óculos para mais perto do rosto.

Na setlist, ela continua cantando seus maiores sucessos para o deleite do público, com “Bela Flor”, “Tudo Diferente”, “Lounge”, “Dona Cila”, “Long Long Time” e por aí vai. Elogiar a voz de Maria Gadú pode ser redundante, mas é preciso ressaltar como ela confere sentimento e emoção a todos os versos, como consegue alcançar e segurar as notas mais altas e como o público se conecta com suas composições. Além da surpresa causada pelo cover da inescapável “I Follow Rivers”, de Lykke Li – que parece ter tomado o lugar de “Who Knew”, música da cantora pop Pink que a brasileira costumava apresentar durante seus shows – outro grande momento da noite foi durante a apresentação da sua banda. Tanto o baterista quanto o violoncelista executam sons incríveis, um complementando o set do outro, com Gadú também improvisando na guitarra, em algo similar ao que aconteceu com Ingo no palco, porém potencializado pela familiaridade com que os músicos têm uns com os outros. É nesses momentos espontâneos de criação artística que a cultura triunfa e o objetivo do Festival é alcançado: a música como forma livre de expressão.

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