*Por Brunna Condini
Pouquíssimos dias antes do anúncio do término da relação com Paolla Oliveira, estivemos com Diogo Nogueira para conversar sobre os 20 anos de carreira o o anúncio sobre a turnê nacional do show ‘Infinito Samba’, que percorrerá 10 estados brasileiros, começando pelo Rio de Janeiro, na Farmasi Arena, em 1º de março de 2026; e terminando também em solo cariocas com a gravação do DVD no Parque Madureira, em 20 de junho.
A ausência de Paolla Oliveira foi sentida neste lançamento. Em entrevista exclusiva, na ocasião, ao ser perguntado se sentiria saudade ao não vê-la à frente da bateria da Grande Rio no Carnaval, ele respondeu: “Aí você tem que conversar com ela. Na verdade, ela vai estar na Avenida, só não à frente da bateria”. A pergunta surge porque falamos da parceria que os unia, e ele sintetizou: “Somos muito parceiros, sim. Nos acompanhamos de perto”.
No projeto o sambista transforma a própria trajetória em plataforma de continuidade: um espetáculo que costura ancestralidade, memória afetiva, inovação musical e responsabilidade histórica. “Acredito muito que esse momento é para celebrar essa continuidade e essa transição do passado com o presente”, afirma. “Existe um passado que pavimentou um país, e alguém precisa dar sequência a essa pavimentação”.
A entrevista foi realizada quando ele apresentou a nova empreitada tendo como cenário o Teatro Rival, espaço simbólico onde realizou seu primeiro show estruturado e assinou o primeiro contrato com uma gravadora multinacional ‘Infinito Samba’ marca um novo ciclo na carreira de um artista que entende o gênero como herança, missão e força viva da cultura brasileira. “O samba é a célula-mãe de tudo. É ele que movimenta, que cria, que faz tudo acontecer. Vivo o samba assim. Ele está entranhado em mim”, frisa.

Diogo Nogueira celebra 20 anos e lança a turnê ‘Infinito Samba’, unindo ancestralidade, memória e futuro do samba (Foto: Priscila Prade)
Só para lembrar: Diogo e Paolla, estavam juntos desde 2021 e o casal era admirado publicamente ao compartilhar registros da convivência. Mantendo o clima de parceria e respeito mútuo, fizeram um post no Instagram nesta segunda-feira, dia 22, em conjunto para informar a decisão. “Foram quase cinco anos de uma história que agora chega a um final feliz, não como nos contos, mas como foi tudo na nossa vida: real, intenso e cheio de amor. As relações se transformam e, portanto, não houve um único motivo, nem um rompimento brusco, o que existiu foi conversa, respeito e maturidade. Com gratidão pela história que construímos e em paz com a decisão que tomamos, seguiremos caminhos separados, guardando profundo carinho um pelo outro. Neste momento, pedimos sensibilidade e privacidade. Com amor, Paolla e Diogo”.
Legado e identidade
O estilo do comunicado do casal nas redes dialoga com a postura que Diogo pretende levar sempre para a música: ocupar apenas os espaços que lhe cabem, sem apagar histórias nem atravessar narrativas. Ao falar sobre o samba hoje, o cantor faz um alerta sobre o risco do esquecimento. “Existe um apagamento de figuras fundamentais. De Tia Ciata (1854-1924), de Donga (1889 – 1974), de João da Baiana (1887-1974), de Jacob do Bandolim (1918-1969). Isso não deveria existir. Tento trazer tudo isso para o meu trabalho de uma forma moderna, mas sem deixar a tradição se perder.”

Diogo Nogueira celebra nova turnê: “O samba cura” (Foto: Priscila Prade)
Filho de João Nogueira (1941-2000), neto de João Batista Nogueira, músico que tocou com Noel Rosa (1910-1937) e Pixinguinha (1897-1973), Diogo cresceu em meio a rodas, serestas e encontros que moldaram não só sua formação artística, mas sua visão de mundo. “Essa história familiar é muito forte. Cresci ouvindo essas histórias dentro de casa. O samba sempre esteve ali, antes mesmo de eu entender que aquilo seria meu ofício”. E frisa, que ainda assim, o caminho não foi imediato:
Tentei fugir até os 25 anos. Queria ser jogador de futebol. Só que chegou um momento em que eu precisei ir para uma roda de samba. E ali eu comecei a me curar. O samba cura – Diogo Nogueira
É dessa vivência que nasce a ideia do ‘Infinito Samba’ como algo maior que um espetáculo. Diogo diz tratar-se de um gesto de responsabilidade com o tempo: passado, presente e futuro. “Eu só quero fazer música, homenagear quem tem que ser homenageado e lembrar que essa força gigantesca que é o samba precisa ser conhecida pelos jovens”, afirma. “Quem chega precisa conhecer o passado primeiro, para depois entender o presente”.

“O samba é a célula-mãe de tudo. É ele que movimenta, que cria, que faz tudo acontecer. Vivo o samba assim” (Foto: Priscila Prade)
Não à toa, o desfecho do novo show acontece onde, para Diogo, o samba pulsa em estado bruto. A gravação do DVD, marcada para junho no Parque Madureira, foi uma escolha afetiva, territorial e política. “É um lugar importante para mim. Ali estão a Serrinha, a Portela, o Império Serrano, o subúrbio onde fui criado, onde está a minha família”, explica. “A essência do samba está ali. O chão daquele lugar tem força”. Mais do que celebrar a própria carreira, o cantor quer ampliar o acesso ao espetáculo, reforçando a dimensão social do projeto e a compreensão do samba como bem coletivo, não como produto restrito:
Quero levar o ‘biscoito fino’ (e não é a gravadora…risos) para a população que não tem condição de pagar caro para sentar em uma grande casa de shows. O povo precisa comer esse ‘biscoito’. Então eu vou dar esse ‘biscoito’ – Diogo Nogueira

“Hoje só quero fazer música, cantar, homenagear quem tem que ser homenageado. E fazer com que os jovens entendam a importância do samba” (Foto: Divulgação)
O repertório da turnê e do DVD também reflete essa ideia de travessia entre tempos e referências. Além dos sucessos que marcaram sua trajetória, Diogo costura influências que atravessam o samba e a música popular brasileira. “Tem João Nogueira, Clara Nunes (1942-1983), Alcione, Emílio Santiago (1946-2013), Roberto Carlos. É um mundo. Vivi dentro desse mundo”. Entre os encontros que simbolizam esse percurso, um episódio permanece como divisor de águas: quando recebeu de Chico Buarque a canção ‘Sou Eu’: “Chico me ligou para gravar essa música e quase não acreditei. Um compositor desse gabarito não se recusa. É reverência, é gratidão”.
Ao olhar para trás, Diogo não fala em peso, mas em responsabilidade. A lembrança do pai, João Nogueira, e de tantos artistas que só foram celebrados após a morte moldou sua ética artística desde cedo. “Muitas vezes esperam o artista morrer para homenageá-lo. Isso sempre me incomodou. Minha preocupação desde o início foi mostrar que existe um passado que construiu um país, e que é preciso dar continuidade”, reforça. É por isso que, ao completar 20 anos de estrada, ele não fala em consagração, mas em permanência. “Hoje só quero fazer música, cantar, homenagear quem tem que ser homenageado. E fazer com que entendam a importância do samba para o país”. E assim, ele segue pavimentando o caminho, consciente de que, enquanto houver memória, afeto e partilha, o samba não vai morrer.

“O samba sempre esteve ali, antes mesmo de eu entender que aquilo seria meu ofício” (Foto: Divulgação)
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