Antes de mega turnê, Diogo Nogueira falou sobre curas e recomeços; após fim com Paolla, palavras ganharam novo sentido


Ao lançar a turnê de ‘Infinito Samba’, que percorre 10 estados e termina com a gravação de um DVD no Parque Madureira, Diogo Nogueira transforma 20 anos de carreira em um gesto de continuidade, memória e responsabilidade histórica — “existe um passado que pavimentou um país e alguém precisa dar sequência”. Enquanto anuncia o fim do relacionamento de cinco anos com Paolla Oliveira, ele reafirma sua relação vital com a música: “O samba é a célula-mãe de tudo” (…), “ele movimenta, cria, faz tudo acontecer”. O cantor relembra que o caminho profissional não foi um processo exatamente natural. “Tentei fugir até os 25 anos. Queria ser jogador de futebol. Só que chegou um momento em que eu precisei ir para uma roda de samba. E ali eu comecei a me curar. O samba cura”. Mais do que celebrar a própria carreira, ele quer ampliar o acesso ao espetáculo, reforçando a dimensão social do projeto e a compreensão do samba como bem coletivo, não como produto restrito: “Quero levar o ‘biscoito fino’ (e não é a gravadora…risos) para a população que não tem condição de pagar caro para sentar em uma grande casa de shows. O povo precisa comer esse ‘biscoito’. Então eu vou dar esse ‘biscoito’”

*Por Brunna Condini

Pouquíssimos dias antes do anúncio do término da relação com Paolla Oliveira, estivemos com Diogo Nogueira para conversar sobre os 20 anos de carreira o o anúncio sobre  a turnê nacional do show ‘Infinito Samba’, que percorrerá 10 estados brasileiros, começando pelo Rio de Janeiro, na Farmasi Arena, em 1º de março de 2026; e terminando também em solo cariocas com a gravação do DVD no Parque Madureira, em 20 de junho.

A ausência de Paolla Oliveira foi sentida neste lançamento. Em entrevista exclusiva, na ocasião, ao ser perguntado se sentiria saudade ao não vê-la à frente da bateria da Grande Rio no Carnaval, ele respondeu: “Aí você tem que conversar com ela. Na verdade, ela vai estar na Avenida, só não à frente da bateria”. A pergunta surge porque falamos da parceria que os unia, e ele sintetizou: “Somos muito parceiros, sim. Nos acompanhamos de perto”.

No projeto o sambista transforma a própria trajetória em plataforma de continuidade: um espetáculo que costura ancestralidade, memória afetiva, inovação musical e responsabilidade histórica. “Acredito muito que esse momento é para celebrar essa continuidade e essa transição do passado com o presente”, afirma. “Existe um passado que pavimentou um país, e alguém precisa dar sequência a essa pavimentação”.

A entrevista foi realizada quando ele apresentou a nova empreitada tendo como cenário o Teatro Rival, espaço simbólico onde realizou seu primeiro show estruturado e assinou o primeiro contrato com uma gravadora multinacional ‘Infinito Samba’ marca um novo ciclo na carreira de um artista que entende o gênero como herança, missão e força viva da cultura brasileira. “O samba é a célula-mãe de tudo. É ele que movimenta, que cria, que faz tudo acontecer. Vivo o samba assim. Ele está entranhado em mim”, frisa.

Diogo Nogueira celebra 20 anos e lança a turnê 'Infinito Samba', unindo ancestralidade, memória e futuro do samba (Foto: Priscila Prade)

Diogo Nogueira celebra 20 anos e lança a turnê ‘Infinito Samba’, unindo ancestralidade, memória e futuro do samba (Foto: Priscila Prade)

Só para lembrar: Diogo e Paolla, estavam juntos desde 2021 e o casal era admirado publicamente ao compartilhar registros da convivência. Mantendo o clima de parceria e respeito mútuo, fizeram um post no Instagram nesta segunda-feira, dia 22, em conjunto para informar a decisão. “Foram quase cinco anos de uma história que agora chega a um final feliz, não como nos contos, mas como foi tudo na nossa vida: real, intenso e cheio de amor. As relações se transformam e, portanto, não houve um único motivo, nem um rompimento brusco, o que existiu foi conversa, respeito e maturidade. Com gratidão pela história que construímos e em paz com a decisão que tomamos, seguiremos caminhos separados, guardando profundo carinho um pelo outro. Neste momento, pedimos sensibilidade e privacidade. Com amor, Paolla e Diogo”.

Legado e identidade

O estilo do comunicado do casal nas redes dialoga com a postura que Diogo pretende levar sempre para a música: ocupar apenas os espaços que lhe cabem, sem apagar histórias nem atravessar narrativas. Ao falar sobre o samba hoje, o cantor faz um alerta sobre o risco do esquecimento. “Existe um apagamento de figuras fundamentais. De Tia Ciata (1854-1924), de Donga (1889 – 1974), de João da Baiana (1887-1974), de Jacob do Bandolim (1918-1969). Isso não deveria existir. Tento trazer tudo isso para o meu trabalho de uma forma moderna, mas sem deixar a tradição se perder.”

Diogo Nogueira celebra nova turnê: "O samba cura" (Foto: Priscila Prade)

Diogo Nogueira celebra nova turnê: “O samba cura” (Foto: Priscila Prade)

Filho de João Nogueira (1941-2000), neto de João Batista Nogueira, músico que tocou com Noel Rosa (1910-1937) e Pixinguinha (1897-1973), Diogo cresceu em meio a rodas, serestas e encontros que moldaram não só sua formação artística, mas sua visão de mundo. “Essa história familiar é muito forte. Cresci ouvindo essas histórias dentro de casa. O samba sempre esteve ali, antes mesmo de eu entender que aquilo seria meu ofício”. E frisa, que ainda assim, o caminho não foi imediato:

Tentei fugir até os 25 anos. Queria ser jogador de futebol. Só que chegou um momento em que eu precisei ir para uma roda de samba. E ali eu comecei a me curar. O samba cura – Diogo Nogueira

É dessa vivência que nasce a ideia do ‘Infinito Samba’ como algo maior que um espetáculo. Diogo diz tratar-se de um gesto de responsabilidade com o tempo: passado, presente e futuro. “Eu só quero fazer música, homenagear quem tem que ser homenageado e lembrar que essa força gigantesca que é o samba precisa ser conhecida pelos jovens”, afirma. “Quem chega precisa conhecer o passado primeiro, para depois entender o presente”.

“O samba é a célula-mãe de tudo. É ele que movimenta, que cria, que faz tudo acontecer. Vivo o samba assim" (Foto: Priscila Prade)

“O samba é a célula-mãe de tudo. É ele que movimenta, que cria, que faz tudo acontecer. Vivo o samba assim” (Foto: Priscila Prade)

Não à toa, o desfecho do novo show acontece onde, para Diogo, o samba pulsa em estado bruto. A gravação do DVD, marcada para junho no Parque Madureira, foi uma escolha afetiva, territorial e política. “É um lugar importante para mim. Ali estão a Serrinha, a Portela, o Império Serrano, o subúrbio onde fui criado, onde está a minha família”, explica. “A essência do samba está ali. O chão daquele lugar tem força”. Mais do que celebrar a própria carreira, o cantor quer ampliar o acesso ao espetáculo, reforçando a dimensão social do projeto e a compreensão do samba como bem coletivo, não como produto restrito:

Quero levar o ‘biscoito fino’ (e não é a gravadora…risos) para a população que não tem condição de pagar caro para sentar em uma grande casa de shows. O povo precisa comer esse ‘biscoito’. Então eu vou dar esse ‘biscoito’ – Diogo Nogueira

“Hoje só quero fazer música, cantar, homenagear quem tem que ser homenageado. E fazer com que os jovens entendam a importância do samba” (Foto: Divulgação)

“Hoje só quero fazer música, cantar, homenagear quem tem que ser homenageado. E fazer com que os jovens entendam a importância do samba” (Foto: Divulgação)

O repertório da turnê e do DVD também reflete essa ideia de travessia entre tempos e referências. Além dos sucessos que marcaram sua trajetória, Diogo costura influências que atravessam o samba e a música popular brasileira. “Tem João Nogueira, Clara Nunes (1942-1983), Alcione, Emílio Santiago (1946-2013), Roberto Carlos. É um mundo. Vivi dentro desse mundo”. Entre os encontros que simbolizam esse percurso, um episódio permanece como divisor de águas: quando recebeu de Chico Buarque a canção ‘Sou Eu’: “Chico me ligou para gravar essa música e quase não acreditei. Um compositor desse gabarito não se recusa. É reverência, é gratidão”.

Ao olhar para trás, Diogo não fala em peso, mas em responsabilidade. A lembrança do pai, João Nogueira, e de tantos artistas que só foram celebrados após a morte moldou sua ética artística desde cedo. “Muitas vezes esperam o artista morrer para homenageá-lo. Isso sempre me incomodou. Minha preocupação desde o início foi mostrar que existe um passado que construiu um país, e que é preciso dar continuidade”, reforça. É por isso que, ao completar 20 anos de estrada, ele não fala em consagração, mas em permanência. “Hoje só quero fazer música, cantar, homenagear quem tem que ser homenageado. E fazer com que entendam a importância do samba para o país”. E assim, ele segue pavimentando o caminho, consciente de que, enquanto houver memória, afeto e partilha, o samba não vai morrer.

"O samba sempre esteve ali, antes mesmo de eu entender que aquilo seria meu ofício" (Foto: Divulgação)

“O samba sempre esteve ali, antes mesmo de eu entender que aquilo seria meu ofício” (Foto: Divulgação)