*por Vítor Antunes
Uma história consolidada ao longo de décadas. Um acervo volumoso, composto por fotografias, recortes de jornal, faixas e troféus. Às vésperas das homenagens aos 109 anos que Dalva de Oliveira (1917-1972) faria, uma das vozes centrais da chamada Era de Ouro do rádio, o destino de parte de seu patrimônio material tornou-se objeto de disputa.O conjunto de itens ligados à cantora, que integrou por anos a coleção particular do fã Nacib Farah, falecido em 2015, hoje está no centro de controvérsias. Morador de Nova Iguaçu, Nacib reunia em casa uma parcela significativa desse acervo: quadros, fotografias antigas, figurinos de palco, faixas de Rainha do Rádio e pastas com recortes de imprensa. Parte desses materiais, inclusive, foi utilizada na série “Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor”, exibida pela Globo em 2010. Após sua morte, os itens foram doados à Fundação Amélia Dias, instituição voltada ao atendimento de crianças e adolescentes com condições como TDAH e autismo. Desde então, no entanto, surgiram relatos sobre a guarda e a circulação desse material.

Nacib e os itens que hoje foram extraviados (Foto: Mazé Mixo/Reprodução/Extra)
Duas fontes ouvidas pela reportagem afirmam que itens do acervo teriam sido extraviados e, posteriormente, colocados à venda na internet. Segundo esses relatos, parte dos objetos teria chegado às mãos de dois menores de idade, residentes em Mato Grosso e Santa Catarina, e alguns itens estariam sendo comercializados em plataformas digitais. Há também a informação de que admiradores da cantora vêm adquirindo essas peças com o objetivo de devolvê-las à família.

Acervo de Dalva sendo vendido numa plataforma da internet (Foto: Reprodução)
Paula Martins, neta da cantora, relata dificuldades de acesso ao material. Segundo ela, a família tentou obter a cessão de parte do acervo para uma homenagem no centenário de Dalva, em 2017, mas não obteve êxito. “Não é um material disponível, pelo contrário. Ele fica numa salinha dentro de uma clínica. Este foi um questionamento: qual a razão de manter o acervo da Dalva numa salinha a qual ninguém tem acesso, material este que sempre foi bem cuidado pelo Nacib?”

Paula Martins e seu pai, Pery Ribeiro (Foto: Acervo Pessoal)
Ainda de acordo com Paula, havia a expectativa de que uma exposição fosse realizada no Museu da República naquele ano, mas os itens sob guarda da fundação não foram cedidos. Ela afirma também que o acervo reunido por Nacib era, em alguns aspectos, mais abrangente do que o conjunto mantido pela própria família. Ela também aponta da possibilidade de que documentos pessoais da cantora, como diários, tenham integrado esse acervo e acabado vendidos. Há relatos de que algumas fotografias teriam sido danificadas ou rasgadas.

Registro da mesma foto, rasgada após extravio (Foto: Reprodução)

Foto de Dalva de Oliveira dedicada ao seu filho, Ubiratã (Foto: Reprodução)
Desde o ano passado, fãs e pesquisadores vêm monitorando a circulação dessas peças, adquirindo itens quando possível e encaminhando-os de volta à família. O percurso do acervo — entre a preservação, a dispersão e a tentativa de recomposição — permanece em aberto.
Emprestei a faixa vermelha para o programa. Não quero fazer um museu, porque tenho medo que não cuidem bem das coisas dela – Nacib Farah, em entrevista para o Jornal Extra em 2013
Um dos responsáveis pela Fundação Amélia Dias (FAMAD) é o pediatra Marcos Antônio Violento, que criou a instituição em 2005, em homenagem à sua mãe, Amélia Dias Violento. Na sede da entidade, localizada em Jacarepaguá, há uma sala destinada à guarda desse material, além de um auditório denominado Teatro Dalva de Oliveira. Procurada pela reportagem, a FAMAD negou que o arquivo de Dalva tenha sido extraviado. Ainda de acordo com a instituição, o material dado como extravido era parte de um arquivo pessoal que não compunha o da FAMAD, e que este está preservado e catalogado. A nota na íntegra pode ser consultada no fim desta reportagem.

Nacib e Adriana Esteves durante a preparação para “Dalva e Herivelto” (Foto: reprodução/Arquivo pessoal)
QUEM FOI DALVA DE OLIVEIRA?
Dalva de Oliveira ocupa um lugar central na história da música brasileira, especialmente no período conhecido como a Era de Ouro do rádio. Dona de uma trajetória extensa, teve como um de seus últimos grandes sucessos “Bandeira Branca”, de 1970, além da marchinha “Máscara Negra” (“Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão”). Entre outras gravações marcantes estão “Ave Maria no Morro” (1942), o samba “Segredo” e, já nos anos 1950, a marcha “Estrela do Mar”.
Eleita Rainha do Rádio em 1951, Dalva também participou de um momento ainda incipiente da indústria de dublagem no Brasil, ao emprestar sua voz a uma das primeiras versões nacionais da animação “Branca de Neve e os Sete Anões”. Sua projeção extrapolava o meio artístico. “Villa-Lobos a considerava a maior cantora popular brasileira. Juscelino Kubitschek telefonou certa vez de Paris para o Hospital Miguel Couto, onde ela estava internada após um acidente de trânsito”, assinalou o Jornal do Brasil em 31/08/72.

Registro do velório de Dalva de Oliveira (Foto: Reprodução/IMS)
Na vida pessoal, foi casada com o compositor Herivelto Martins (1912–1992), com quem teve dois filhos, o cantor Pery Ribeiro (1937–2012) e Ubiratã Ribeiro, já falecido. Dalva foi homenageada como enredo da Imperatriz Leopoldinense em 1987, e sua trajetória inspirou a minissérie “Dalva & Herivelto: Uma Canção de Amor”, exibida em 2010, na qual foi interpretada por Adriana Esteves. Em 1953, apresentou-se na Inglaterra para a Rainha Elizabeth II, que, segundo registros da época, elogiou sua voz e interpretação.
NOTA DA FAMAD E DE SEUS REPRESENTANTES, NA ÍNTEGRA
A Fundação Amélia Dias (FAMAD), instituição filantrópica dedicada à assistência de crianças e adolescentes com necessidades especiais, vem a público esclarecer informações equivocadas que circulam em plataformas digitais acerca do acervo da cantora Dalva de Oliveira. Diante de interpretações imprecisas, a FAMAD estabelece os seguintes fatos:
- Integridade do Acervo: Todo o material histórico sob custódia do Centro Cultural
Dalva de Oliveira encontra-se preservado, catalogado e em segurança em nossas dependências. Não houve qualquer descarte, destruição ou comercialização de itens pertencentes ao patrimônio da artista. - Contexto do Incidente: Recentemente, o primo do fundador da instituição, Sr
Oswaldo, em um ato de incentivo à pesquisa e ao interesse cultural de um jovem colaborador, compartilhou material de seu arquivo pessoal. Tais registros não integram o acervo principal da Fundação. - Intervenções de Terceiros: A FAMAD esclarece que eventuais restaurações, manipulações digitais ou danos físicos ocorridos após o compartilhamento dessas cópias foram realizados de forma autônoma pelo receptor das imagens. Portanto qualquer alteração visual ou física nesses registros não reflete a política de conservação da instituição.
- Missão Institucional: Reafirmamos que a FAMAD é uma entidade sem fins lucrativos. A comercialização de acervos históricos é prática estritamente proibida por nossos estatutos e princípios éticos.
A Fundação Amélia Dias lamenta que uma iniciativa de compartilhamento de conhecimento tenha sido distorcida. Reiteramos nosso compromisso inegociável com a memória da
“Rainha da Voz” e convidamos a sociedade e a imprensa a conhecerem nosso trabalho de zelo e responsabilidade com o patrimônio cultural brasileiro.
A Fundação construiu o Centro Cultural Dalva de Oliveira para homenagear a cantora pela linda história e participação na promoção da cultura brasileira através da música. E diante disso, recebeu doações de fotos, artigos pessoais, documentos, faixas, vestidos e itens de uso exclusivo da cantora para a propagação dos feitos da cantora à Cultura Brasileira.
Diretoria de Comunicação Fundação Amélia Dias (FAMAD)
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