Moda & Beleza

SPFWTRANSN42 #day 2: Viagens, músicas e pluralidades criativas compõem o segundo dia de desfiles que ocupou diferentes endereços da capital paulistana

No line-up, À La Garçonne, de Fabio Souza, que tem Alexandre Herchcovitch como diretor criativo, começou o dia de apresentações que ainda teve Reinaldo Lourenço, Patrícia Viera e a estreante LAB, marca de moda criada pelo rapper Emicida. Fique por dentro!

Publicado em 25/10/2016 | Por Leonardo Rocha

*Com Julia Pimentel e Marcos Eduardo Altoé

De “Somewhere over the rainbow” ao rap tradicional paulista, passando pelos hits pop’s que fazem história, o segundo dia de SPFWTRANSN42 se destacou também pela música. A segunda etapa da semana de moda mais importante do país começou no MASP, Museu de Arte de São Paulo, onde a dupla Alexandre Herchcovitch e Fabio Souza apresentou a nova coleção da À La Garçonne. Seguindo o line-up, Reinaldo Lourenço encantou jornalistas e convidados com suas criações no Teatro Santander. Por fim, no Parque Ibirapuera com os desfiles de Patrícia Viera e da grife Lab, do músico Emicida. Por lá, a carioca que tem o couro como sua marca registrada, nos levou para uma viagem na Ilha de Páscoa. Enquanto Emicida estreou sua marca de moda nas passarelas ao som de rap e presenças ilustres na catwalk. Vem que a gente conta tudo!

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À La Garçonne

Embalada pelos clássicos do pop internacional, a grife À La Garçonne abriu o segundo dia de desfiles do SPFWTRANSN42. Na coleção que reafirma o DNA da marca de Fabio Souza, o diretor criativo Alexandre Herchcovitch apostou no reuso de peças de temporadas passadas e na consolidação da matéria-prima sustentável. “Nós buscamos inspiração na própria marca, que já existe há dez anos. Ou seja, aplicamos a ideia de upcycling e trouxemos para essa coleção peças que já tínhamos no estoque, por exemplo”, explicou Herchcovitch que fez questão de destacar que a consciência ecológica não é mais uma tendência de estação no cenário fashion internacional. “Não é mais em prol da natureza. Eu acho que este é um assunto que a moda demorou muito para entrar. E, como uma das bases da À La Garçonne é comercializar sem descartar nada que seja antigo ou usado, a gente fez isso também na roupa. Então não é algo para essa coleção. A vida inteira será assim”, avaliou.

Fique por dentro: Transformação, transgressão, transição: SPFWTRANSN42 movimenta o calendário da moda com apresentações por toda São Paulo

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Porém, embora o conceito norteador fosse a ideia de reuso, a À La Garçonne apresentou novidades e belas peças. Segundo o diretor criativo da grife, apesar do DNA da marca seguir a tendência de reutilização, novas apostas e produções são sempre bem-vindas. “Obviamente que tem um ponto ou outro de novidades que partiram de referências esportivas e um pouco de motocross, que são facilmente perceptíveis. Porém, eu acho que essa inspiração das peças novas se destaca menos quando comparada à ideia de reuso”, disse Herchcovitch sobre a coleção que apresentou um contraponto entre os conceitos criativos para o desenvolvimento da coleção. “A gente quis misturar a questão e a inspiração Vitoriana com um contraponto extremo que seria o motocross. No entanto, no fim, vários esportes compuseram esse moadboard, como basquete, hockey e esportes coloridos”, explicou Fabio Souza.

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Além das belas peças, a trilha sonora do desfile da À La Garçonne foi um destaque à parte. Assinada por Max Blum, a playlist reuniu clássicos do pop internacional interpretados à capela. Ou seja, enquanto os looks da grife cruzavam a passarela montada no MASP, na capital paulistana, Beyoncé, Lady Gaga e muitas outras divas do cenário musical animavam os convidados. Como contou Alexandre Herchcovitch, a apresentação musical foi uma combinação de duas situações. “O Fabio queria uma trilha animada e, tecnicamente, nós chegamos à ideia de fazer as músicas à capela. A gente achou que, com o instrumental, o áudio fosse ser melhor distribuído no local que não possui uma acústica para esse tipo de proposta”, detalhou.

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Sucesso nas passarelas, a dupla Herchcovitch e Fabio Souza já pode se considerar adepta ao conceito do “see now buy now”. Depois do desfile que ocorreu na parte da manhã desta segunda-feira, a marca já se preparava para iniciar a comercialização das peças. “Parte desta coleção será vendida a partir das 13h no e-commerce e na loja física. E, a partir de quarta-feira, toda a coleção estará disponível nas lojas”, adiantou Alexandre Herchcovitch.

Na passarela

Na marca de Fabio Souza, o velho vira novo; tecidos antigos convivem em harmonia com novos materiais, em uma mistura fina e cheia de atitude. Acima de tudo, a A La Garçonne vende um estilo de vida, perfeito para quem busca algo além de roupas e acessórios para vestir sua personalidade cosmopolita. Sob a direção criativa de Alexandre Herchcovitch, a ALG continuou o belo exercício de moda contemporânea com forte perfume vintage. Mas o DNA da marca vai mais além, imprimindo referências atemporais, como  em peças que já nascem hit. O querido militarismo marcou presença, tanto em parkas e jaquetas militares dignas de uma nova atitude punk até em uma releitura própria do print camuflado. O couro pontuou algumas peças, como jaquetas e shorts masculinos e femininos, ricamente trabalhados com pinturas feitas à mão.

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A assinatura da marca também está presente nas peças “remixadas” ou reformadas, algo que muito vem a calhar em tempos de slow fashion e reuso de materiais pautados pela cartilha da sustentabilidade. Vestidos longos pautados por fluidez e transparências sutis evidenciaram o novo desejo romântico da moda, valorizando uma modelagem impecável. Ícones da estética esportiva permearam toda a coleção a partir de um trabalho de estamparia localizada em moletons e jaquetas, além de t-shirts, essas que flertavam com uniformes e trajes esportivos. Uma moda que vai a fundo no movimento “genderless”, sem gênero, já que o mix comprovadamente veste (e muito bem) homens e mulheres. Outra estética que deu as caras foi a dos letreiros estampados com tipografia heavy metal, vista e revista na última temporada internacional, tanto nas ruas quantos nas passarelas. A modelagem elegeu a alfaiataria como último recurso, em camisas bem cortadas e calças inventivas, de comprimento cropped para eles. Um floral ingênuo azul em fundo branco ensaiou um retorno, um contraponto idílico ao mood mais pesado do restante da coleção.

Beleza

Sem destoar do estilo e conceito da marca, a beleza criada por ninguém menos do que Celso Kamura foi inspirada em jovens das grandes metrópoles, que buscam alternativas de vida sustentável. Para o desfile, Celso e a equipe CKamura buscaram valorizar a beleza natural e manter as características de cada modelo, respeitando a diversidade reproduzida no casting. A ideia inicial, era fazer com que os manequins desfilassem com a pele e o cabelo mais naturais possíveis. “É uma beleza customizada para cada pessoa. O que me encomendaram era que é para ser uma beleza supernatural e ao mesmo tempo bonita”, afirmou o profissional.

Celso Kamura assina a beleza de À La Garçonne (Foto: (Patricia Canola/Divulgação)

Celso Kamura assina a beleza de À La Garçonne (Foto: (Patricia Canola/Divulgação)

A pele foi corrigida e ganhou luminosidade com a linha Lightful C e nos lábios, foi aplicado com os dedos o batom Barbeque, ambos da MAC Cosmetics. Já os cabelos, a ideia foi respeitar a estrutura dos fios de cada modelo, mantendo o mais natural possível. Foram finalizados com Sugar Lift e o shampoo a seco Dry Me, da linha EIME, da Wella Professionals, para ficar com aparência opaca.

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Reinaldo Lourenço

Um brinde à Suécia! Essa foi a proposta criativa que inspirou Reinaldo Lourenço em sua nova coleção outono-inverno 2017. No desfile que ocorreu nesta tarde no Teatro Santander, o estilista abusou de mangas bufantes e saias assimétricas transpassadas. Sobre suas inspirações para as criações da próxima temporada, Reinaldo foi breve em explicar: “A coleção é toda Sport Couture e eu fiz um passeio por toda a Suécia para beber desta fonte”.

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Neste passeio pelo país europeu, Reinaldo Lourenço aprofundou sua experiência fashionista para a coleção. Lá, o estilista ainda atribuiu às suas criações o folclore sueco, o estilo nas ruas de Estolcomo, a população Saami, o Nordic Museum e a própria alfaiataria. A tradução de todas essas referências europeias se deu, por exemplo, em fitas de cobre e veludo sobre o tule.

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E mais. Na paleta de cores, Reinaldo Lourenço apostou em uma variação que vai desde off-white ao preto, passando por cores fortes. Já nos acessórios desta coleção, o estilista optou em apresentar Camila Klein como designer de joias em adornos que completaram o brinde de Reinaldo à cultura sueca.

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Na passarela
Reinaldo Lourenço foi até a Suécia para elevar o rico street style escandinavo ao status de prêt-à-porter de luxo. O estilo cosmopolita das ruas da capital Estocolmo serviu como pano de fundo para o designer amarrar sua coleção, ele que, após 32 anos conquistando o closet de clientes exigentes, mais uma vez soube antecipar os desejos de uma mulher empoderada e segura de si, que usa e abusa de uma nova sensualidade. Em uma ode à cultura sueca, Reinaldo propõe a união entre elementos do campo e da cidade seguindo a cartilha da boa alfaiataria, aquela de corte perfeito, calculado para valorizar o corpo feminino. Em contrapartida, elementos do sportswear, tão em alta nas últimas temporadas, foram adaptados à costura requintada dos estilista.

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O país nórdico, ainda, é sinônimo de vodca premium. Sua fabricação atende a rigorosos padrões de qualidade, característica comum ao trabalho de Reinaldo Lourenço. Dos tonéis usados no processo artesanal de destilação da bebida sai o cobre, tom maior que amarra toda a coleção. Os elementos de estilo eleitos compõem a sinfonia dramática e ultra sofisticada do estilista, incluindo fitas em cobre e veludo aplicados sobre tule, laços manuais, mangas bufantes e saias assimétricas transpassadas. Entre as peças, destaque para o trench coat, simbolo eterno da elegância jet setter, além dos onoraques. Vestidos fluidos, tricôs com golas rolê e calças de comprimento 3/4 prometem conquistar o coração – e o closet – das mulheres brasileiras amantes do luxo. O folclore local também entrou em pauta, inspirando belíssimos prints de estética kitsch. Looks paetizados em preto, com recortes estratégicos, conferiram brilho e movimento à coleção. Mais um ponto para a carreira sólida do estilista.

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“A revolta das sobrancelhas”. Foi assim que Fabiana Gomes, manquiadora sênior da MAC no Brasil, definiu a beleza assinada para o desfile arrebatador de Reinaldo Lourenço. Com a pele crua, no estilo minimal foundation, as modelos desfilaram com pouca maquiagem, muita iluminação no rosto e cabelo minimamente trabalhados. A intenção de Fabi era dar destaque para o contorno do rosto e um olhar marcante. “A sobrancelha mais forte é para deixar a mulher com personalidade. E ela é mais boyish, reta e não perfeita”, explicou ela, que resume a beleza do desfile como a de uma mulher que “cansou de ser linda”.

Bastidores do desfile de Reinaldo Lourenço no SPFW (Foto: Divulgação)

Bastidores do desfile de Reinaldo Lourenço no SPFW (Foto: Divulgação)

Mais uma vez, a pele aparece super crua, com produtos que serviram apensas para limpar a pele das menias na passarela. “A ideia é passar pureza, leveza e o contraponto de força é a sobrancelha, que é um hit inegável de tendência. Ela é mais reta, com um ar mais masculino, forte. Não é à toa que as drags fazem a sobrancelha lá em cima porque isso dá feminilidade”, explicou Fabiana, que já espera a reação dos mais conservadores nas redes sociais. “Eu já estou preparada para ler os comentários no Instagram, estou super preparada para os haters. É bem esquisito mesmo”, disse ela, aos risos.

Desfile da grife Reinaldo Lourenço no SPFWTRANSN42 (Foto: AgNews)

Desfile da grife Reinaldo Lourenço no SPFWTRANSN42 (Foto: AgNews)

Já nos cabelos, a intenção foi deixar as modelos bem diferentes entre si, dando destaque para a identidade de cada uma delas. “Estamos respeitando o nascimento natural do fio tanto de estrutura quanto de raiz. A trança foi usada para quebrar o liso de alguns fios e estruturar o cabelo, mas da forma o mais natural possível. Os silhos são curvados e usamos máscaras só na raiz para dar uma empinadinha para ter leitura de beleza”, completou.

De forma leve e singela, Patrícia Viera também propôs uma viagem neste SPFWTRASNN42. Conhecida pelo belíssimo trabalho em couro, a estilista carioca carimbou os passaportes para a Ilha de Páscoa nesta coleção. Nas criações apresentadas nesta noite na sala da fashion week paulistana montada no Parque Ibirapuera, Patrícia defendeu com amor e muita tranquilidade seu conceito criativo. “Eu quis retratar a Ilha de Páscoa e toda aquelas referências maravilhosas que a cercam. Então, as peças têm muita tranquilidade, suavidade, tecnologia, borbulhas e brilhos. Um encanto”, argumentou.

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Inserida no contexto do “see now buy now” há seis temporadas, a estilista carioca nos contou que está otimista para este momento em que a tendência do mercado fashion está se popularizando. “Eu acho que essa é a hora. Nós precisamos nos adaptar, é maravilhoso que estejamos tendo mudanças. Eu acho que o mundo está precisando que a gente troque de óculos”, argumentou Patrícia que logo emendou na questão da situação econômica que assombra o país. “Eu estou cansada desse papo de que estamos vivendo uma crise. Eu sou indústria e, por isso, tenho que produzir. Todos nós estamos passando por dificuldades e por um período de mudanças. Não é uma crise, é a realidade. Para solucionar isso, vamos trabalhar! Para mim, a cada coleção, a cada seis meses, é como se eu vivesse uma nova Olimpíada na minha vida em que eu tenho sempre que me superar e fazer o meu melhor”, relacionou a carioca que acompanhou o período de transformações no Rio nos últimos tempos para sediar os Jogos.

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Carioca de espírito e nascimento, mas amante e à serviço da moda acima de tudo, Patrícia Viera não quis se aprofundar na questão Rio Moda Rio. Recentemente, Carlos Tufvesson, responsável e criador do evento, afirmou que a segunda edição da semana de moda do Rio, que aconteceria em novembro, precisará ser adiada para 2017. “Quando a gente fala de algo em relação à outra pessoa, a gente pega o sapato dele e usa. Então, eu acho que cada um sabe o tamanho do passo que pode dar. Eu sou São Paulo, Rio de Janeiro e onde mais eu achar que vai melhorar o meu produto”, argumentou Patrícia.

Na passarela

Patrícia Viera, carioca de alma brasileiríssima, fez bonito ao traduzir a rica cultura da Ilha de Páscoa, no Pacífico Sul, para a sua coleção Cruise 2017. Região de raízes polinésias, Rapa Nui traduz um desejo de refúgio, desconexão e renovação energética. Elementos locais, como as gigantescas estátuas Moai e a vegetação árida, inspiraram uma tradução de detalhes nobres da cartilha seguida, como recortes geométricos feitos a laser no couro criando padrões infalíveis. O couro, inclusive, que pelas mãos habilidosas da estilista é transformado em produtos altamente maleáveis, tornando o vestir uma experiência completa e super desejável cuja palavra de ordem é conforto.

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Em um ótimo momento, Patricia consegue ultrapassar o seu método, apostando desta vez em aplicações de correntes, cristais e rebites para marcar ainda mais sua assinatura. A cartela de cores elegeu neutros e terrosos para abraçar o colorido específico da natureza do local. A silhueta se volta para a mulher livre e empoderada, dona de si mesma, que não tem medo de explorar, de sair por aí, e por isso apresenta a praticidade dos decotes, além dos comprimentos que permitem a total mobilidade, no joelho ou na canela. Recursos femininos, tais quais os babados e as transparências, também chama a atenção. A estamparia em couro foi assinada pelas irmãs Karina e Giovanna Viera, evocando a fauna e a flora de Rapa Nui.

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E ainda, Bruno Bogossian renova a parceria com a designer, imprimindo seus grafites nas famosas jaquetas, peças-chave de qualquer closet contemporâneo. Acima de tudo, vale mencionar que Patricia Vieira já pratica o “see now, buy now” há mais de 10 temporadas, verdadeira adepta de uma moda consciente e responsável, maior que as tendências.

Beleza

O clima de tranquilidade característico da ilha também se fez presente na maquiagem das modelos. Assinada pelo mago Max Weber, a beauty do desfile de Patrícia Vieira teve um super olho em destaque em uma maquiagem limpa e básica. Como o maquiador responsável pelo desfile nos contou, a pele e as madeixas eram as mais naturais possíveis. “A gente trouxe esse conceito de paz, tranquilidade, espiritualidade e boas energias em um olho bem marcado. E essa pintura no olhar fazia parte de um ritual de morte praticado na Ilha de Páscoa. Segundo a tradição, esse tipo de pintura era feito para glorificar a passagem de super chefes e poderosos da comunidade. Então, eles colocavam esse olho bem marcado no rosto desse personagem”, explicou.

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Max Weber no backstage de Patrícia Viera (Foto: Julia Pimentel)

Outro ponto que pontua o destaque para a região do olhar das modelos que cruzaram a catwalk de Patrícia Viera é a sobrancelha. Elemento de destaque nesta edição da SPFW, elas também marcaram presença de forma desorganizada para o desfile da estilista carioca. Para Max, a jovialidade foi a intenção agregada a esse ponto da maquiagem. “A sobrancelha é natural. Para a gente ter esse olhar mais jovial, não podemos usar uma sobrancelha muito desenhada. Por isso, eu acredito que o que nos deixa jovem é, justamente a liberdade e a força. E, para mim, uma sobrancelha mais grossa te traz essa jovialidade e agressividade”, argumentou Max Weber.

LAB

E para fechar o segundo dia de desfiles na SPFWTRANSn42, o rapper Emicida e seu irmão, Evandro Fióti, trouxeram para a passarela do Ibirapuera toda a cultura das ruas através do hip hop, estampada por entre as peças despojadas que a dupla apresentou com a marca Lab. Juntamente com a direção criativa assinada por João Pimenta, a estreia da grife em uma semana de moda teve em seu DNA a diversidade e a pluralidade vistas nas ruas através da mistura inusitada entre os movimentos de arte africanos e japoneses. “A gente tentou buscar a mistura da arte da África e do Japão traduzidos para um universo contemporâneo e urbano. Trouxemos as referencias japonesas para construir roupas que vestissem bem uma gama maior de corpo e na África tem essa busca eterna nossa dos nosso valores e da nossa ancestralidade. E, través da nossa marca quisemos trazer isso mais uma vez para o estilo das pessoas também. Foi uma mistura improvável trabalhando com uma cartela de cores preto, branco e vermelho para trazer esse tom street e trazer peças que atendam o desejo do nosso consumidor”, revelou Evandro.

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Fundada em 2009 inicialmente com o nome de Laboratório Fantasma, a grife começou na verdade como uma pequena gravadora, que tinha o objetivo de divulgar artistas da periferia de São Paulo. Já as primeiras peças
começaram a surgir da necessidade de uma divulgação do trabalho musical de Emicida, através de camisetas temáticas vendidas durante os shows do cantor. “A LAB nasce com o desejo de ampliar o discurso que já pratico na música. A vontade de aproximar um Brasil que até então parecia muito distante dos ambientes de moda.  Queremos quebrar as barreiras, estender as fronteiras, incluir um Brasil que ainda é muito ignorado. Faço música há dezesseis anos, e chegou o momento de sair do plano das palavras, e nos debruçarmos sobre um novo olhar, um novo país com novos protagonistas. E a moda foi a forma que encontrei para fazer a minha pequena revolução”, contou Emitida.

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Na passarela, o casting foi apresentado de forma bastante democrática. Com uma entrada triunfante, Emicida surgiu cantando a trilha feita especialmente para o desfile que contou, em sua maioria, com modelos negros e ditos “fora dos padrões fashionistas”. Alguns estavam àcima do peso, outros tinham impressionantes cabelos black power, enquanto uma outra metade apareceu quase careca – incluindo as meninas. Havia uma fúria na maneira de desfilar e uma postura altiva. Um dos destaques foi para o cantor Seu Jorge que mostrou sua versatilidade nas passarelas vestindo uma saia longa plissada e um moletom. Não teve quem não tivesse vontade de aplaudir de pé a energia que a grife trouxe para a 42ª edição da São Paulo Fashion Week.

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A inspiração nos tecidos angolanos foi crucial para a criação da coleção, mas ela vem transformada em algo global, mais moderno e menos tradicional. Estampas foram desmembradas em trechos, detalhes pequenos ganharam zoom: a ideia foi fazer uma releitura da tradição, com um gosto contemporâneo. Já para o diretor criativo da marca, João Pimenta, além de trazer toda ás referências da cultura hip hop para as peças, o conceito de inclusão também segue muito presente na grife. “A gente olha para o plus size, para o não gênero e para todo o tipo de gente. É um desfile de inclusão. É uma marca que surge em um momento importante e plural no evento. Além de uma nova mentalidade para os consumidores de moda, por se tratar de um novo mundo e outra classe social”, avaliou ele.

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Sobre o conceito see now buy now, Pimenta adiantou que as peças já podem ser adquiridas nas lojas da Lab logo após o desfile. “Eles são muito mais organizados que eu. A coleção já está à venda. O trabalho está super profissional, os meninos foram muito dedicados nesse processo”, disse ele, que ainda descartou qualquer embate com a crise econômica do país. “Eu acho que esse momento é um dos melhores que a gente já viveu na moda, porque está acontecendo um grande filtro, onde quem tem alma fica e quem não tem passa batido. A originalidade tem contado muito nos dias atuais. A gente está passando por um momento difícil, claro, mas um também um período muito feliz de saber que o futuro será cada vez mais orgânico”, completou

A coleção de estréia da LAB na SPFWTRANSn42 se pautou pela união improvável entre África e Oriente para buscar inspiração na história do Samurai negro Yasuke, nome este que inclusive dá título à coleção. Emicida e Evandro Fióti propuseram um streetwear democrático, focado em estamparia, modelagem e cores sóbrias. Os prints com padrões geométricos foram inspirados na arte origami japonesa, além de frases das músicas escritas por Emicida.

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A silhueta obedece a cartilha das ruas, onde o conforto é a palavra de ordem e grandes elementos do estilo esportivo se fazem presentes – vide os hoods ou capuzes presentes nas peças, além dos shapes oversized. Já na cartela de cores o que se viu foi um vermelho que funciona como contraponto entre a firmeza de tons como preto, branco e cinza, em combinações elegantes e cheias de personalidade. Segundo a marca, seu conceito de streetwear busca um novo mood a partir do brim com acabamentos diferenciados. Outros tecidos, como malha, moletom e algodão também apontaram o caminho da coleção. Uma verdadeira homenagem ao estilo das ruas, tão buscado por quem se interesse em consumir informação de moda.

Com a beleza assina por Marcos Costa, os modelos desfilaram praticamente de cara limpa, trazendo toda a individualidade citada à cima de cada pessoa na passarela. Cabelos black power ganharam mais volume e textura ainda mais crespa. Já a pele foi levemente corrigida de forma que os espectadores tivessem uma percepção de estarem passeando pelas ruas de São Paulo e dando de frente com pessoas do nosso dia-a-dia.

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