Moda & Beleza

SPFW Verão 16 # day 4: na vibe da autohomenagem, Samuel Cirnansck assombra com “O Iluminado” e Lenny Niemeyer arrasa absoluta!

Passarela se divide entre as homenagens dos estilistas a si mesmos, japonismo, anos 1960 e a interpretação do Nordeste e da latinidade. Mas o dia é da moda praia carioca, que dobra o carnaval e a moda ao seu bel prazer, tornando a experiência de se assistir a um desfile única!

Publicado em 17/04/2015 | Por Alexandre Schnabl

Ao que tudo indica, a comemoração dos 20 anos de estrada da São Paulo Fashion Week anda mexendo com a cabeça dos estilistas, que procuram rever suas próprias trajetórias no evento usando suas coleções Verão 16 como plataforma para se autohomenagear. Depois de Reinaldo Lourenço e João Pimenta, que trouxeram à tona temas que lhes são caros – a apropriação do guardarroupa masculino como partida para conceber uma moda super feminina, para o primeiro; a desconstrução de significados arraigados no comportamento como veículo para alcançar uma nova proposta para vestir o homem, para o segundo –, neste quarto dia de evento (16/4) foi a vez de Lino Villaventura (cuja matéria você lê em ‘Gente’) e Samuel Cirnansck, que celebrou os 15 anos de existência de sua grife homônima.

Nesta temporada, alguns estilistas voltam-se para o Nordeste, vários deles a Bahia. Nestas propostas mais ou menos étnicas, Giuliana Romano fecha com a terra de Jorge Amado e Caetano Veloso, mas numa pegada mais light, limpa e suave como sua moda. A inspiração aqui não é religião, pescadores ou etnias, mas o relax que uma viagem por esse estado pode proporcionar. Entre muitos azuis (de fato calmantes, efeito conseguido com seda tingida) e uma aposta na cintura clochard – importante nessa estação – ela acerta e manda direito. Arrematando os looks e afinando as cinturas, bons cintos largos pontuam a coleção.

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Rainha master da transmutação do couro em outros materiais (no aspecto), a alquimista fashion Patricia Viera curte viajar para uma localidade distante a fim de se inspirar na sua nova coleção. Já foi assim como a Califórnia e Novo México, Havaí, Marrocos e tantos outros lugares. Dessa vez, é o caldeirão cultural da Costa Rica, com suas exuberantes praias e florestas que move a estilista neste próximo verão, assim como contagia o público. Também, pudera! Localidades latino-americanas têm comparecido no imaginário das grifes nestas últimas temporadas e quase sempre o assunto tem rendido bons resultados. No caso de Patricia, o resultado é acima de qualquer expectativa.

Entre as novidades, as delicadas aquarelas da artista plástica Kláucia Badaró, pintadas sobre o couro. Ou os efeitos de estampa localizada através de corte a laser – uma constante no trabalho da marca que a cada temporada ganha mais excelência – e nas aplicações em chamois sobre a pelica ou vice-versa, contrastando as texturas de forma a revelar a aparência de estampas corridas. E ainda nos mosaicos típicos do artesanato local, com couro espelhado reproduzindo os espelhinhos usados pelos criadores de quinquilharias da região. No mais, dá gosto surpreender-se com as técnicas que reproduzem a aparência de macramê, couro rendado e babados. Beleza pura.

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Importante tendência do próximo verão, o Japão comparece na coleção de festa da Acquastudio através da releitura das cerejeiras – as sakuras –, árvores e floradas típicas desse país, cultuadas por representar de forma tão delicada a passagem do rigoroso inverno local para a primavera. Com um enxuto, mas belíssimo cenário numa temporada onde a verba para este quesito anda sendo cortada sem piedade pelos departamentos de marketing das grifes, Esther Bauman capricha na apresentação, que ainda teve trilha sonora do bamba Riuchi Sakamoto.

No âmbito geral, a fragilidade das flores dessas árvores se traduz na singeleza dos vestidos e outras peças, em coleção na qual o rigor arquitetônico característico da Acquastudio sai de cena para dar espaço a peças com quê sessentista (em boa parte), todas elas com atenção especial para o trabalho de ornato, sintetizado nos bordados manuais que as enriquecem com vidrilhos, pérolas e miçangas variadas. E, como estamos falando da terra do sol nascente, laçadas gigantes ganham os ombros, cinturas e costados dos looks, nítida alusão as arremates dos obis.

A cartela de cores que brinca com preto & branco mais rosinha e azulzinho – proposta também vista nesta edição nos shows de Reinaldo Lourenço e Vitorino Campos – se encarrega se acentuar a delicadeza do tema.

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Carro-chefe do interrompido Fashion Rio, Lenny Niemeyer traz seu beachwear para bem-nascidas a São Paulo e, logo de cara, mostra que com ela a parada é outra. Não importa os novos ares, Lenny só pode ser Lenny porque, quando se trata de sua praia, o Rio é Rio. Dessa vez, ela reinventa o carnaval sem qualquer obviedade, em cenografia deslumbrante e trilha sonora ao vivo com a orquestra Dynamic, regida pelo maestro Renato Zanuto a partir de versão da música “Eu sou o samba”, cantada por Celso Fonseca com uma voz que muita gente na plateia achou que se tratava de Caetano Veloso. Sim, inacreditavelmente, a grife deixou de desfilar ao som do deep house, uma de suas características. Entre todos os desfiles dessa SPFW, o melhor show, sem sombra de dúvida.

Nesse baile de carnaval de outrora, com direito a orquestra de salão, a brand brinca com as fantasias, puro fetiche elevado à elegância suprema da estilista, de marinheiros feitos com listras rasgadas de georgette à desconstrução dos malandros, passando pelos pierrôs com losangos (ou paus do baralho) cortados a laser e aplicados e as flores macro que remetem às Carmens (de Bizet ou Miranda, pouco importa), além de uma alusão à Quarta-Feira de Cinzas, com diretos a aplicações que fazem, de maneira estilizada, as vezes de confetes e serpentinas.

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Expoente entre as boas marcas mineiras que têm a expertise de trabalhar o tricô – como a Coven e a Faven – a GIG Couture, de Gina Guerra, se mostra mais sólida a cada temporada, tanto na volumetria e panejamento, quanto na arte de trabalhar texturas e padronagens. Dessa vez, a grife abandona o tema étnico da última coleção (tapeçaria oriental) e envereda por pela arquitetura art nouveau de Charles MacIntosh. Cool, of course. Obviamente fica mais limpa e a série de looks brancos confirma isso. Mas, pouco depois, ela prossegue por estampas e acabamentos que flanam pelas cores pastel com marrom e efeitos de construção que dialogam com as décadas de 1950 e 1960. Gostoso de se ver na passarela, bom de ser usado. Que continue assim.

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Na vibe de comemorar niver de trajetória, a Têca, grife de Helô Rocha, segue o movimento geral do evento e celebra seus 10 anos na base da alfazema, pipoca colorida e marafo. Traduzindo: são os orixás da Bahia que ditam os certames do seu Verão 16 em resultado que é uma graça! Nessa reza forte fashion, tem modelo vestida de mãe de santo na passarela em montagens que, desmembradas do styling, rendem belos looks prontos para invadir os guardarroupas, independente de credo.

Peças em branco, preto, vermelho, azul e off white ganham as araras da grife, com destaque para as rendas, transparências, devorês e bordados, tudo terminado em amarrações para lá de arretadas. Aplicações sobre tecidos delicados cumprem a função de imprimir a dose de conceito à coleção com extremo bom gosto, assim como os crochês feitos em parceria com Helen Rodel e os acessórios de Caio Vinicius e Raphael Falci, tipo os brincos com búzios e os colares que simulam guias de candomblé – uma lindeza! –, assim como as sandálias-plataforma com palha.

No mais, uma peça-chave da estação, a pantacourt, surge na marca em um dos resultados mais bonitos de todo a SPFW. E, fechando o desfile e arrasando, Lea T. prova que nessa roda de santo fashion pode ser uma Yansã da melhor qualidade. Êparrei!

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Assim como Ronaldo Fraga e Têca nesse périplo pelo Nordeste, a Iódice sai de sua zona de conforto de “roupa para mulher sexy” para abraçar o artesanato da região, em mais uma prova de que os olhares voltados para o Brasil podem render ótimos frutos. A coleção assinada por Valdemar Iódice e Simone Nunes se mostra um acerto, com uma das cartelas de cores mais belas da semana, que vai do amarelo-colorau ao rosa chá, passando por um verde militar desbotado.

Entre comprimentos midi e longos, aparecem os minis – que de certa forma voltam a dar as caras nesta estação. No caso da Iódice, são importantíssimos, já que a cliente quer causar na base de mostrar o corpão. Mas é inegável o impacto das saias clochard, outra belezura de fazer ranger os dentes, longe da silhueta típica da marca. As amarrações nos tops, que evocam os turbantes das baianas, são ótima sacada que pode extrapolar o mero truque de styling e comparecer na vida real.

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Para Samuel Cirnansck, “as referências dos anos 1920 têm uma simplicidade sedutora, assim como as da década seguinte, repleta do glam da cintilância art-déco, são irresistíveis. Amo as duas”, conta o estilista com exclusividade ao HT no backstage. Estas são as principais referências – tanto na silhueta quanto nos materiais, aplicações e acabamentos – da coleção apresentada pelo estilista para fechar o dia. Aliás, fechar o dia com o pé direito, já que superar Lenny Nimeyer seria tarefa impossível. Após pular a edição passada da SPFW, Samuel parece recuperar o fôlego e oferece fina iguaria ao público, em desfile que ainda contou com cenário classudo – perfeito para agradar em cheio suas clientes de moda festa – e que ainda tinha o gato Raphael Sander (marido da atriz Carol Castro) fazendo mise-en-scène na boca de cena, vestido em summer arrasa-quarteirão, como um galã da velha Hollywood.

Embalados por uma versão sexy-burlèsque de “Toxic”, de Britney Spears, os vestidos com torsos justos, curtos ou longos com cauda, ora repolhudos na saia, se revezam com macacões colantes, misturando a atmosfera hollywoodiana com o clima de basfond, desembocando nos modelitos com tachas e correntes, meio satânicos. Tudo a ver quando Samuel conta a inspiração maior dessa vez: “Sou movido a cinema. E fui direto na cena do baile fantasma que aparece em ‘O Iluminado’ (The Shining, 1980), de Stanley Kubrick“. Ah, sim, tudo a ver. Deve ser por isso que, entre todo o casting, uma endiabrada Carmelita, tal qual uma aparição, deixou todos na plateia de queixo caído com o seu andar sinuoso…

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