Como acompanhar e se adaptar às constantes transformações do setor da moda? O comportamento do consumidor já não segue mais padrões estáveis; muda com velocidade quase diária. O mesmo vale para o uso da tecnologia, as estratégias de branding e as abordagens de marketing, que vêm sendo profundamente remodeladas pela cultura digital e pelas novas formas de relacionamento com o público. Diante desse cenário dinâmico, os profissionais precisam desenvolver novas maneiras de pensar, operar e se comunicar. Estar atento às tendências já não basta; é preciso compreender os mecanismos que regem as decisões de compra, os valores das novas gerações e os caminhos – nem sempre previsíveis – do desejo.
Com o objetivo de ampliar os horizontes de quem atua no setor, o SENAI CETIQT promoveu recentemente a live “A dor de não vender: onde seu branding de moda está falhando?”. O encontro foi coordenado pela engenheira têxtil especializada em Design de Moda e UX Design e consultora técnica da instituição, Michelle Souza, e teve como convidada Marcia Borges, designer de moda por formação, mestre e doutora nos estudos sobre moda e comportamento e especialista em marketing de influência e comportamento do consumidor, com uma trajetória em gestão de carreiras de criadores de conteúdo. Durante a live, Marcia destacou a urgência do debate. E atenção! Você terá a oportunidade de mergulhar nos mais diversos cenários durante o curso Branding de Moda: Construindo Marcas no Meio Digital, que será ministrado por Marcia Borges na Faculdade SENAI CETIQT. As informações sobre as inscrições estão no Instagram da Faculdade (@faculdadesenaicetiqt). Entre os temas, como transformar sua marca em referência no Instagram e TikTok, capacitar profissionais, criadores de conteúdo e empreendedores a compreenderem e aplicarem estratégias eficazes nas principais plataformas de mídia social; técnicas de criação de conteúdo, engajamento e construção de comunidades online.
É muito importante que a gente fale cada vez mais sobre as transformações que estão acontecendo no mercado da moda, mas também nos hábitos de consumo e no comportamento das pessoas. Muitas dessas mudanças têm desafiado empresários e profissionais de marketing, especialmente porque vivemos um período de profundas rupturas e de reinvenção na forma de conduzir esse universo. Compartilhar essas informações é essencial para que estejamos mais preparados diante dos novos desafios que surgem – Marcia Borges

curso Branding de Moda: Construindo Marcas no Meio Digital, que será ministrado por Marcia Borges
O alerta da especialista aponta para a presença digital que tornou-se um dos grandes desafios atuais para as marcas: como manter a identidade e, ao mesmo tempo, acompanhar a velocidade com que surgem microtendências nas redes sociais, especialmente em plataformas como TikTok e Instagram? “O ambiente online funciona, de fato, como um universo paralelo – vasto, dinâmico e repleto de possibilidades. Nesse contexto, o primeiro passo para uma atuação mais estratégica é o autoconhecimento e a construção de uma rede de interesses coerente com a identidade da marca ou do profissional. As próprias plataformas digitais já oferecem conteúdos relacionados com base nas escolhas do usuário. Cabe, então, filtrar, observar e investigar aquilo que dialoga com a mesma linguagem e propósito, aproveitando essas conexões para fortalecer a atuação no meio digital. Tanto faz se é no Instagram, no TikTok, no Linkedin”.
É muito difícil que uma pessoa tenha todos os elementos nela mesma e que possa suprir. Dentro da construção de uma coleção de moda, a gente sabe que existem pessoas que são melhores de styling, outras que são melhores de construção de produtos, de maquinário. A mesma coisa acontece no ambiente digital, tem pessoas de todas as formas. A rede social é uma coisa muito interessante como ferramenta de consumo. Se você não vive aquela rede, dificilmente falará a linguagem correta dela para atingir seu objetivo enquanto estratégia – Márcia Borges
Ainda de acordo com Márcia, é vital que se fale cada vez mais sobre as transformações no mercado da moda e não apenas isso. “No mercado também, mas no comportamento, nas questões que envolvem o consumo. Tem muita coisa que vem bagunçando a cabeça dos empresários e das pessoas que lidam com marketing, principalmente porque a gente vive um momento de grande mudança, de disrupção, uma nova forma de conduzir todo esse universo. É muito bacana compartilhar essas informações para a gente estar mais preparado para cada vez que esses novos desafios vão surgindo”.

Segundo ela, as marcas de modo geral enfrentam desafios para se comunicar com o público e crescer de forma mais sustentável. “Acho que o cenário é desafiador para todas as marcas. Quando eu trabalho com outros universos que não se veem dentro da moda, costumo dizer que hoje todos os negócios deveriam estar debaixo do guarda-chuva dos conhecimentos de moda. Esse profissional acaba tento uma múltipla visão – e essa múltipla visão ajuda na condução dos negócios. Quando a gente lida com marcas do setor da moda, que sejam, nas quais os profissionais não tiveram aquela formação – até no financeiro – muitas vezes eles não entendem a importância de uma viagem de experiência para o lançamento de uma campanha, porque não entenderam que a questão não está voltada para o produto. Acho que hoje esse é o grande desafio, a grande disrupção entre a linguagem do passado e a linguagem do presente”.
A questão central é compreender que o mundo mudou. A entrada da Geração Z num momento forte de consumo – hoje estão na faixa dos 25 anos e a idade de tomada de decisão de consumo desceu. Tem virado esse jogo de cabeça para baixo e bagunçou completamente o mercado de moda. Afetou não só o mercado de moda, mas todos os outros: experiência de viagem, comida, restaurante, forma de praticar exercícios. Atrelado a isso, para bagunçar um pouco mais, as redes sociais, que parece que viraram um universo, uma vida à parte ali dentro. Eu acho que esses são desafios enormes hoje em dia é tudo muito vivo, muito rápido, muda muito rapidamente – Márcia Borges
Num cenário em que o ciclo das tendências se acelera a cada deslizar de tela, estar na moda já não significa apenas estar atualizado – é, sobretudo, saber decifrar o tempo presente e posicionar-se de forma autêntica diante dele. Mas como marcas – especialmente as de pequeno porte – podem se manter fiéis à sua identidade e, ao mesmo tempo, acompanhar o turbilhão de microtrends que emergem diariamente no TikTok, no Instagram e em outras plataformas digitais?
Essa foi uma das reflexões provocadas pela especialista em marketing de influência e comportamento do consumidor. Com olhar crítico e conhecimento de causa, ela propõe um reposicionamento da maneira como a indústria da moda tem lidado com a ideia de tendência: “Nós, de moda, já sabemos que tendência não é aquela roupa que está na vitrine ou o que está todo mundo usando. Uma tendência começa muito antes disso, numa construção de comportamento que vai acontecendo simultaneamente em vários lugares”.

Nesse sentido, o grande desafio está justamente em identificar esses movimentos, que não vêm embalados por hashtags ou previsões de venda, mas surgem do comportamento, da cultura e das transformações sociais. “Mapear isso é um dos principais desafios, porque a gente vem percebendo uma visão de tentar resolver problemas com ferramentas muito práticas, e esses problemas são um pouco mais profundos”, afirma Marcia.
Segundo ela, é comum ver marcas operando de forma apressada, tentando solucionar crises de imagem ou de venda por meio de ações pontuais, sem que haja um pensamento estratégico estruturado. “Então, primeiro a gente precisa identificar qual é o nosso objetivo. Depois a gente traça a estratégia, depois vai para o tático e, por fim, o operacional. O que eu costumo ver corriqueiramente no meu dia a dia é tático-operacional. Dificilmente a gente anda para a estratégia — ou seja, as pessoas não têm estratégia e, quando têm, são baseadas em situações muito cristalizadas. Como se fosse Missão, Visão, Valor. É super importante quando é de verdade. Qual é a sua visão, a sua missão, os seus valores? De verdade? Você responde e aquilo faz você se conhecer. Ao se conhecer como marca, você traça os seus objetivos”.
Esse processo de autoconhecimento é o que, na prática, permite que uma marca caminhe com mais solidez, mesmo diante de um mercado volátil. Marcia explica: “A gente tem condição de criar uma estratégia para essa construção e, a partir dessa estratégia, analisar como vai chegar lá, colocar aquilo em ação, avaliar, trocar, medir, reavaliar se for preciso. O prático-operacional é um processo de troca. Num mundo como hoje, a gente vai testando”. O cenário, no entanto, não é simples. “Na nossa área, 90% das empresas são pequenas, nascem com pouco investimento, muita boa vontade e, às vezes, até muito estudo. Mas será feita pelo próprio dono, que, muitas vezes, tem o conhecimento sobre o produto, mas não tem conhecimento de marketing ou branding, ficando faltando algumas lacunas especializadas”.
Márcia ainda destaca que moda, hoje, é antes de tudo uma linguagem. E que os jovens consumidores estão plenamente conscientes disso. Como a moda é uma forma de comunicação, e eles entenderam muito bem as questões que envolvem a linguagem através da moda, do comportamento, da forma de vestir, e das marcas que você usa ou não usa, ou dos eventos aos quais você vai ou não (hoje a gente já percebe que eventos são formas de manifestação de moda).

Num tempo em que tudo se transforma antes mesmo de amadurecer, a moda deixou de ser apenas um espelho da aparência e passou a refletir a profundidade das intenções. Mais do que vestir corpos, ela agora precisa vestir causas, conectar valores, traduzir pertencimentos. A lógica do produto cede lugar à poética do vínculo — e é nessa dobra entre o comercial e o simbólico que as marcas precisam encontrar sua voz. O desafio não é mais prever a próxima tendência, mas compreender os gestos invisíveis do desejo que se movem entre telas, narrativas e experiências vividas. Porque, no fim, a pergunta que toda marca deveria se fazer não é “o que eu vendo?”, mas “por que alguém me escolheria?”. E a resposta, longe do catálogo, dos slogans ou da estética ensaiada, talvez resida justamente ali, no terreno sutil onde verdade, escuta e consistência se encontram.
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