Moda & Beleza

SENAI Brasil Fashion: “É um ponto de partida para a construção de um novo mercado de profissionais da moda”, contou Jackson Araujo sobre o projeto

O consultor criativo falou ao site HT sobre o papel da iniciativa do SENAI CETIQT, analisou o mercado da moda, a questão da sustentabilidade e da educação para transformar o mundo

Publicado em 07/10/2018 | Por Anna Castro

“Estamos sempre discutindo todas as nuances da profissão dentro da moda para que a potencialização de uma plataforma de educação profissional seja entendida exatamente como um momento importantíssimo que capacita os alunos através de uma experiência hands on. A gente não está somente incentivando estudantes a serem profissionais do setor têxtil. Estamos incentivando a entenderem a moda para além das roupas”. As frases são de Jackson Araujo, consultor criativo do projeto SENAI Brasil Fashion, promovido pelo SENAI CETIQT. Nos dias 3 e 4 de outubro, na sede do Riachuelo, no Rio, foram realizados dois encontros entre os coaches Lenny NiemeyerLino VillaventuraRonaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch e as 12 duplas de jovens estilistas e modelistas, alunos dos cursos de longa duração na área de moda oferecidos pelo sistema SENAI de todo o Brasil, selecionadas para apresentar minicoleções em um desfile no Centro Cultural Ação Cidadania, dia 22 de novembro.

Leia aqui: SENAI Brasil Fashion: Lenny Niemeyer, Alexandre Herchcovitch, Ronaldo Fraga e Lino Villaventura se reúnem, no SENAI CETIQT, com 12 duplas de alunos de moda de todo o Brasil e preparam um grande desfile

Jackson Araujo é consultor criativo do projeto desde seu início e pesquisa moda feita coletivamente (Foto: Anna Castro)

Jackson é plural: jornalista, consultor criativo, fotógrafo, autor de trilhas de desfiles, escritor e já trabalhou com grandes nomes e marcas do mercado. Junto com o time de consultores Ed Benini, Wilson Ranieri, Max Blum, Daniel Ueda e a produtora Chá das Cinco, ele mediou palestras e troca de ideias e de referências com os alunos sempre incentivando os novos olhares sobre as possibilidades na profissão. “Na primeira etapa do projeto, a gente teve uma vivência criativa incrível com a participação dos alunos e coaches. Nós fizemos uma visita ao acervo de figurinos da Globo e todos puderam ver como se constrói uma imagem de moda dentro da narrativa de uma telenovela. Acho que foi muito importante essa visita, porque de alguma forma coloca os futuros profissionais em contato com uma grande indústria dentro do que podemos dizer de teledramaturgia. E, então, você pode inclusive mostrar o leque de opções do universo da moda a esse novo grupo de futuros designers e modelistas”, analisou Jackson.

Wilson Ranieri, Ed Benini, Lenny Nyemeyer, Ronaldo Fraga, Daniel Ueda, Jackson Araujo, Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura e Max Blum: consultores e coaches formam o time que orienta as duplas até o grande desfile em novembro (Foto: Rafael Aguiar)

Wilson Ranieri, Ed Benini, Lenny Nyemeyer, Ronaldo Fraga, Daniel Ueda, Jackson Araujo, Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura e Max Blum: consultores e coaches formam o time que orienta as duplas até o grande desfile em novembro (Foto: Rafael Aguiar)

Conversamos com Jackson Araujo após uma das palestras realizadas na sede do SENAI CETIQT, no Riachuelo, semana passada, durante a etapa decisiva para o processo de aprofundar o conhecimento que os alunos precisavam para o desfile, no dia 22 de novembro. Entre os assuntos abordados, os coaches puderam pontuar cada elemento componente de um fashion show com base nas suas experiências e com o auxílio de profissionais que integram esse processo. A importância de um desfile como narrativa encara cada fase como essencial. “Eu acho que ficou muito clara a imagem de um desfile como uma plataforma de comunicação dentro de cada consultoria ou de cada área que estamos estudando. Os alunos constataram, por exemplo, que a escolha da trilha sonora cria a ambientação para a expressão da roupa; o styling é o olhar que vem colaborar com a ideia inicial do designer; o cast é o que faz uma comunicação direta com o consumidor e com o cliente final, em que hoje se busca o pertencimento, a possibilidade de diversidade e de se ver representado na passarela. A cenografia, por fim, é recorte extremamente importante para colocar a roupa, o cast e a trilha dentro de um imaginário que comunique o desejo inicial do designer. É o lugar onde acontece novas relações cognitivas na cabeça de quem assiste”, avaliou Jackson.

Leia aqui: SENAI Brasil Fashion: atividades do segundo encontro de alunos de moda com coaches e consultores avançam dando forma ao grande desfile

Os consultores Ed Benini, Wilson Ranieri, Daniel Ueda e Max Blum com Jackson Araujo (Foto: Anna Castro)

Os consultores Ed Benini, Wilson Ranieri, Daniel Ueda e Max Blum com Jackson Araujo (Foto: Anna Castro)

A visão de Jackson Araujo sobre a nova moda é compartilhada pelos coaches do projeto Alexandre Herchcovitch, Lenny Niemeyer, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga e tem sido mostrada aos jovens que fazem parte da transformação do mercado. “A moda tradicional, clássica, é entendida por mim como uma forma antiquada. Eu penso que a moda como é praticada já é anacrônica. A gente tem que passar para o novo momento onde o corpo precisa de visibilidade, os discursos precisam de potência, o planeta é extremamente importante e precisa ser cuidado e a moda é uma ferramenta de transformação. Eu gosto de entender verdadeiramente a moda como uma plataforma de conexão de pessoas e que pode ser o grande mecanismo de transformação social, cultural e ambiental”, defendeu Jackson, que se dedica há mais de três décadas a estudar esse mercado. Ele acredita na moda além da peça de roupa e é pesquisador de movimentos ligados à Economia Afetiva, na qual se discute uma perspectiva de mercado em que se pauta o valor do desenvolvimento coletivo em produtos inovadores e disruptivos, além da construção de relações sólidas e horizontais. Um questionamento da antiga ideia de moda autocrática, verticalizada e exclusiva, como contou na palestra a convite do TEDxBlumenau Salon Moda.

Com os anos de experiência na moda e tendo acompanhado o projeto desde sua primeira edição, Jackson acredita verdadeiramente no SENAI Brasil Fashion. “Eu sou muito feliz de participar desse projeto, porque eu vejo que a educação é essencial em qualquer segmento do Brasil e é o que pode transformar o futuro. O que estamos fazendo aqui é grande. E entendo como uma ação estruturante, ou seja, um ponto de partida para uma transformação e para a construção de um novo mercado de moda. Uma nova indústria que está em constante mudança. Nós temos aqui, como coaches, quatro linguagens completamente coerentes e particulares, mas que se complementam: a do Alexandre, Lino, Lenny e Ronaldo. Além disso, contamos com as experiências de consultores. Cada um na sua área de atuação, em constante evolução, porque a moda pressupõe um eterno movimento”, frisou Jackson. Ainda completou sobre a indústria como é conhecida: “A moda é narrativa do tempo. Ela só consegue ser moda de verdade quando ela acompanha as mudanças do tempo ou antecipa novos discursos. O que nós estamos fazendo aqui é tentarmos ser coerentes, futuristas, reflexivos e, sobretudo, educativos. Nós estamos na quinta edição e conseguimos entender qual é o nosso papel: uma ação estruturante de transformação”.

Jackson Araujo acompanha o desenvolvimento das criações das 12 duplas de alunos selecionados de Norte a Sul do país (Foto: Anna Castro)

Jackson Araujo acompanha o desenvolvimento das criações das 12 duplas de alunos selecionados de Norte a Sul do país (Foto: Anna Castro)

NOVAS TECNOLOGIAS

Com o novo mercado da moda, muitos elementos e preocupações foram inseridos no meio. A consciência ambiental trouxe a reviravolta em um discurso, além de estimular inovações e novas relações com matéria-prima, mão de obra e resíduo. “Não existe mais pensar sobre fazer moda sem ser sustentável em um sentido bem amplo. Não só em economizar a água, a energia, não gerar lixo e ter processos mais inteligentes, mas, sobretudo, colocar as pessoas no centro do processo. Não existe mais ‘eu faço sozinho’ ou ‘faça você mesmo’ que a moda tanto pregava. É um conceito muito velho e totalmente fora de uso. Hoje, o que eu procuro incentivar aos estudantes é que faça com os outros e para os outros”, comentou. Esse processo está altamente ligado ao termo slow fashion, que vem tomando seus primeiros passos em oposição ao fast fashion.

Jackson Araujo e Lenny Niemeyer analisam as ideias dos alunos (Foto: Anna Castro)

Jackson Araujo e Lenny Niemeyer analisam as ideias dos alunos (Foto: Anna Castro)

A internet também se mostra parte integrante no mercado. “A rede social é a grande ferramenta hoje. Exatamente para alimentar a indústria da moda desses conceitos de narração de tempo. O que eu acho importante é que ela não é estagnada. Não há mais espaço para quem quer apenas propagar a repetição do estilo alheio. Isso está em desuso e cada vez mais nós potencializamos a ideia do indivíduo no sentido da autoridade e da autonomia de ser quem ele é. Muito mais marcante do que você ser seguidor do estilo alheio”, defendeu o consultor, que está sempre valorizando as pessoas e suas identidades no centro do processo, inclusive no que diz respeito à indústria 4.0. “É um recurso interessante principalmente pela capacidade e a possibilidade de não gerar lixo, fazer sob demanda a quantidade que vai ser consumida e uma forma de economizar energia tanto humana como elétrica. Mas, eu acho que o grande papel da indústria 4.0 é um entendimento de que as máquinas, mesmo estejam protagonizando a produção, não têm intuição e não têm afeto. Eu acho que o essencial desse momento é entender que as pessoas que estão por trás do processo fazem a diferença”, completou.

Alexandre Herchcovitch e Jackson Araujo avaliam detalhadamente os projetos originais (Foto: Anna Castro)

Alexandre Herchcovitch e Jackson Araujo avaliam detalhadamente os projetos originais (Foto: Anna Castro)

Em todas essas esferas, o projeto SENAI Brasil Fashion reflete e insere os jovens alunos nesse aprendizado. “Quando o SENAI CETIQT se propõe a levar à frente um projeto como esse, eu acredito que a instituição está sendo extremamente corajosa. Quando essa instituição proporciona aos alunos serem orientados por tantas mentes diferentes, com visões externas e novos olhares, ela está dando um passo muito grande para o desenvolvimento da educação. Nenhuma escola no Brasil fez isso até hoje, porque existe uma ideia fixa de um currículo próprio e que foi construído por um determinado tipo de pensamento”, frisou.

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