Moda & Beleza

Minas Trend: desfile coletivo que faz alusão à relação afetiva do povo do sertão com a natureza corrobora a potência da economia criativa do estado

Com direção assinada por Paulo Martinez, as mais de 100 marcas participantes do Salão de Negócios apresentaram um desfile coletivo com casting de 60 modelos. "A indústria da moda de Minas Gerais é um dos maiores celeiros de talentos do país", disse Olavo Machado Junior, presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, a FIEMG.

Publicado em 17/04/2018 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Sabemos que a sustentabilidade está no alvo da moda. De fato, nunca a questão do consumo consciente esteve tão em alta. E é justamente em uma homenagem a essa relação do homem com a natureza que o Minas Trend, um dos maiores eventos de moda e negócios do país realizado pela FIEMG – Federação das Indústrias de Minas Gerais, abre sua 22ª edição, que vai até o próximo dia 20, em Belo Horizonte. Mas o assunto escolhido é ainda mais intrínseco: a primavera-verão 2019 traz, como referência estética, a relação afetiva dos mineiros do sertão com a natureza e sua importância na indústria da moda do estado. As riquezas históricas, culturais e geográficas de Minas Gerais formam o tema “Nosso lugar somos nós” e, logo na abertura, o desfile coletivo deixou claro que a edição propõe o entendimento de como a natureza funciona, reage e se relaciona com as pessoas que nela vivem.

Apresentação da Cia de Dança Sesi Minas (Foto: Henrique Fonseca)

O sertão mineiro, localizado nas regiões norte/noroeste do estado, foi o ponto de partida para “a manifestação do presente como perspectiva para o futuro”, explicou o diretor criativo Pedro Lázaro. De acordo com ele, a postura de sustentabilidade sempre foi aplicada de forma orgânica no cotidiano dos habitantes da região, que dependem dos recursos naturais para a subsistência. “A história do sertão mineiro é pela busca do entendimento de como as propostas de sustentabilidade podem acontecer. É uma abordagem poética sobre como a sustentabilidade não é demanda, é afetiva, natural. O lugar que você habita é nada menos do que parte de você. Você é parte daquilo e não quer dominar. Entende que você é parte do universo. É compartilhamento. É através desse entendimento que você percebe que essas pessoas que vivem no sertão têm naquele lugar a sensação de pertencimento. De passado, histórias, memórias e perspectivas do futuro em relação à afetividade com aquele lugar. É uma visão poética de como as posturas de preservação e sustentabilidade são afeto. É mostrar a necessidade do retorno dessa relação espontânea e interativa. É uma mensagem de amor”, destacou ele.

O sertão mineiro trouxe cores quentes à passarela do Minas Trend (Foto: Henrique Fonseca)

Com direção de Paulo Martinez, beleza assinada por Ricardo dos Anjos e participação da Orquestra de Câmara e da Cia de Dança Sesi Minas, o desfile de abertura trouxe a produção das marcas locais que participam do line up e Salão de Negócios até sexta-feira, 20. Na passarela, um show de tons terosos e cores quentes e beleza natural dominaram os looks das mais de 60 modelos. “Me inspirei nesse caminho pelo Brasil, pegamos a essência de cada mulher mineira e pontuamos na beleza do desfile. Brincamos com a mulher, por exemplo, colocando batom cor de cacau. Já a pele é leve, iluminada com óleo para remeter à temperatura desses lugares, tudo com brilho natural. Os cabelos também, a gente respeitou o de cada menina”, disse Ricardo dos Anjos.

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Paulo Martinez foi além: “Sou um sertonista”, afirmou ele, que teve um grande desafio ao transpôr o sertão para a passarela: “Juntamos 100 marcas, 60 looks, cada um com seu DNA… o jeito mais razoável que encontrei de fazer isso foi pela cor. Ficamos com tons terrosos, pôr-do-sol, açafrão, pimenta, e fizemos esse desfile acalorado”, explicou. “Vi toda essa beleza de cor, textura, cor de tempero… mulheres maravilhosas!”, afirmou.

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Na entrada do Expominas a premissa do evento fica clara. A obra de Liliane Dardot, uma das principais artistas plásticas do Brasil, brinda a chegada dos convidados do Minas Trend. Reconhecida por suas instalações que utilizam a areia do Rio das Velhas como base, Liliane optou por escrever em sílica os nomes populares das plantas do cerrado mineiro, que remetem aos tradicionais tapetes que cobrem as ruas para a passagem das procissões de Corpus Christi. “Normalmente, damos apelidos a pessoas queridas e os sertanejos dão apelidos para as espécies. São nomes carinhosos, que mostram a intimidade. Isso é afeto, é tratar a natureza como parte da família”, evidenciou Pedro Lázaro. Dentre os nomes, ‘carrancuda’, ‘triste flor’, ‘João Leite’ e outros.

A obra de Liliane, aliás, entrou na sala de desfiles. “Quisemos mostrar, através de uma cenografia incrível, os contrastes. Colocamos floresta carbonizada junto com a Orquestra… a música é símbolo de vida. Ao lado temos o documento do trabalho da Liliane, um vídeo ela construindo aquela história”, disse Pedro.

Se a ideia era provar que a sustentabilidade está, de fato, intrínseca nos valores do mineiro, o primeiro dia de Minas Trend cumpriu sua proposta.

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