Moda & Beleza

DFB FESTIVAL 2019 DAY 1: de Caio Nascimento e a bandeira pela liberdade à ode da praia e do sertão da Água de Coco

A maior semana de moda e festival plural das artes do Nordeste fomenta a valorização da cultura em simbiose com a moda. O line up de ontem contou com as marcas Parko, Vitor Cunha + Caio Nascimento, Almerinda Maria, Homem do Sapato, Gisela Franck e Água de Coco pisando firme nas areias do Aterro da Praia de Iracema, em Fortaleza (CE), além de shows, palestras, forte ênfase à gastronomia e a comercialização de acessórios e roupas com ênfase na identidade

Publicado em 16/05/2019 | Por Heloisa Tolipan

Looks ousados, desfiles de marcas autorais cearenses e espaços diversificados foram o ponto alto da noite de abertura do DFB Festival 2019. O megaevento na capital cearense chega ao vigésimo ano consagrando-se, também, pela programação multicultural, o que reforça a vocação do Ceará como epicentro para a fomentar cultura, formação e empreendedorismo. No primeiro dia do evento, o público pôde conferir o designer Dudu Bertholini falando sobre o futuro da moda; oficinas de Tramas Experimentais com Alexandre Heberte; A Imagem e identidade do estilista, com Andréa Cerqueira; Visual Merchandising com Mario Queiroz e Sylvia Demetresco e Bordados em bolsas e chapéus de palha, com Sara Girão. Querem mais ainda? Show da banda Regina George, Banda Reite, Ballet Madiana Romcy, Projeto Rivera, Two Notty, e Tulipa Ruiz no palco.

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E vamos aos desfiles:
PARKO
A marca Parko, assinada por Patricia Moraes e Luan Goes, inaugurou o DFBeachClub, um espaço inédito com uma passarela montada à beira mar. A coleção, com brisa de meia estação, traz uma injeção de ousadia na moda masculina. Tropical e utilitário são duas palavras nesse desfile que irá vestir e atender os mais diferentes biotipos. Os homens hoje em dia estão mais atentos com a sua imagem. Hoje os homens estão mais preocupados pela forma como são vistos, querem ser bonitos seja no campo de futebol, na selfie, com a família ou no ambiente de trabalho. E esse desejo já se reflete nas passarelas, como pôde ser conferido no desfile da Parko – Shorts mais curtos, formas mais soltas, estampas mais ousadas, assimetria…

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No mercado global, o consumo masculino cresce 14% ao ano, e do outro lado temos o público feminino que cresce apenas 8% anualmente. No entanto, esse comportamento e o crescimento da procura pela moda masculina não foi sempre assim. Antigamente, eram as mulheres que dominavam o mercado da moda, já que socialmente eram elas que deviam se preocupar com a beleza e com a casa. Os homens precisavam apenas trazer o sustento com o trabalho.

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VITOR CUNHA

Vitor Cunha contou na passarela a história de quatro pescadores que saem de Fortaleza rumo ao Rio de Janeiro. Essa narrativa começa na beira da praia com os tons crus que se misturam ao azul do mar criando os tie-dyes mostrados na coleção. “A ideia era representar quando as ondas quebram e molham a barra das calças, por isso esse degradê. O tingimento foi feito de forma bem artesanal. Eu amarrarei as peças com barbante e fui fervendo numa panela em casa. Por conta da minha falta de recursos, comecei a pensar em soluções criativas para dar vida a essa coleção”, conta o estilista.

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O desfile de estreia da marca apresentou ainda muitas tramas/macramês (o estilista nos contou que aprendeu a fazer o ponto olhando tutoriais no Pinterest) e esse exercício de erros e acertos renderam diferentes tramas que ora lembravam redes de pesca, ora redes de ‘dormir’. A apresentação mostrou ainda peças em linho, algodão, brim e malha, com pontos de cor em verde e um degradê de amarelo e laranja representando o pôr-do-sol no Nordeste do país.

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CAIO NASCIMENTO

Uma forte crítica à censura pedindo paz, elegância no lidar com o próximo e paixão foram o conceito da marca Caio Nascimento que levantou a bandeira da liberdade durante desfile no DFB Festival 2019. “Essa coleção foi inspirada no período da ditadura em 1964 e nos ecos que até hoje são reverberados. Estamos vivendo uma censura velada que tomou conta até do mundo virtual”, conta a estilista Carla Feitosa. Com o manifesto “Paz, elegância, amor e tesão”, a grife levou três tecidos para a passarela: o jeans, que traz a rigidez e força; e o tricoline e o popeline que expressam a liberdade e a leveza. Uma apresentação em que os corpos falaram mais do que as roupas, mostrando que a moda pode e deve flertar com assuntos contundentes do nosso cotidiano.

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Uma cartela de cores em amarelo, rosa, branco e azul que traziam frases de protesto lembrando as dores da ditadura. A trilha que fazia referências a Voz do Brasil e trechos de discursos do presidente da República, Jair Bolsonaro, ainda trouxe as músicas Elevação Mental, da cantora Triz e Poetisas No Topo com Mariana Mello, Karol de Souza, Azzy, Souto, Bivolt e Drik Barbosa. Vale ressaltar que muitas das peças tinham pinturas que faziam alusão aos respingos de sangue, remento as torturas sofridas nos anos 60/70, mostrando o lado sombrio dos anos de chumbo.

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ALMERINDA MARIA

A mestra do feito à mão Almerinda Maria levou toda a delicadeza das rendas de labirinto (feita de organza), renascença, guipir e richelieu para seu desfile na passarela do DFB Festival. “Eu sou conhecida internacionalmente como a mulher do mix de rendas”, enfatiza a criadora. A coleção ressaltou looks em branco e off-white com pitadas de açafrão, vermelho e preto, apimentando a estação que traz toda a brisa e frescor das cidades do Nordeste. Um handmade de altíssima qualidade que solidifica o tropical chic da marca. Almerinda contou ainda que suas modelagens partem sempre do branco e do off-white. “Se a modelagem funcionar nessas cores temos a certeza que darão certo em todas”.

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Almerinda usa a renda como uma verdadeira arte, mostrando todo o seu fazer criativíssimo. “Eu trabalho a renda com muito primor e amor. Eu amo esse trabalho manual e a delicadeza do processo. O mais bonito é ver o quanto o público valoriza meu trabalho”, conta animada. A coleção exibiu uma diversidade de vestidos, saias, shorts, camisas, calças e até hot pants. A trilha foi embalada pelo Chica Chica Boom Chic na voz de Carmen Miranda.

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HOMEM DO SAPATO

Comemorando cinco anos no mercado a Homem do Sapato mostrou um desfile criativo e vanguardista. Unindo conforto, elegância e qualidade a marca dos sócios Jhonatan Rêgo e Renata Braga apresentou modelos para todas as ocasiões e estilos, como slipers, yatch college mules, mocassim, cuturnos e brogue. Os hits da coleção são o tressê e o animal print, em especial, o python. “Nós conquistamos um público fiel e por isso, nos tornamos uma referência na hora do calçar. Elegância, estilo e sofisticação são as palavras-chaves para definir os calçados da Homem do Sapato. A marca tem matriz em Fortaleza e franquias em João Pessoa, Salvador e Teresina”, conta Jhonatan.

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A marca apresentou ainda uma coleção de bolsas que oferecem conforto e praticidade para os homens: como os modelos carteiro maxi e mini, mochilas, pochetes e malas de mão, mostrando que o público masculino pode e deve usar acessórios.

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GISELA FRANCK

Ao som do vento, água e pássaros Gisela Franck levou uma coleção repleta de delicadeza e fragilidade para a passarela do DFB Festival. O desfile fazia referências às ninfas, uma divindade que habita os lagos, florestas, bosques, rios, montanhas, de acordo com a mitologia grega. As ninfas são a personificação da fertilidade da natureza e, por este motivo, são representadas sempre por seres do sexo feminino. Uma coleção na qual imperaram os tons neutros: ocre, palha, nude e off-white, mostrando a delicadeza dos corpos e das formas da roupas criadas pela estilista. Destaque para os babados e pregas que deram um tom tropical nas formas soltas, fluidas e amplas para brincar nos Jardins do Éden.

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ÁGUA DE COCO

Bons ventos trouxeram a embarcação da Água de Coco, por Liana Thomaz, no sentido Praia-Sertão, lançando seu olhar sobre a cultura e a arte nordestina, voltando no tempo e retratando os primeiros vestígios de expressão artística e comunicação de nossos ancestrais para encerrar a primeira noite de desfiles da maior semana de moda do Nordeste. A grife, de projeção internacional, mostrou o frescor da moda-praia para mulheres que amam o verão. “A última vez que desfilamos em Fortaleza foi há sete anos. É um evento que gostaríamos de estar todo ano, mas pelo nosso cronograma não conseguíamos participar. Com o convite do Claudio Silveira, ainda mais nessa edição comemorativa a Água de Coco não poderia estar de fora. Estamos muito felizes com esse retorno e esperamos fincar os pés na nossa terra, sempre”, frisa o diretor de marketing e exportações da marca, Renato Thomaz.

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Uma coleção que faz referência às xilogravuras, paisagens, cactos, crochê, coqueiros e coco verde, além dos brilhos (sim, brilho na praia). A cartela de cores passeou pelos tons de vermelho ferrugem e roxo berinjela, que servem de base para shapes contemporâneos que valorizam a silhueta feminina formando tops faixa, hot pants e maiôs com formas mais secas e ajustadas ao corpo. Outro destaque são as peças com mangas removíveis, maiôs e bodies que podem ser usados como blusas, responsáveis por levar a moda praia à cidade. Patches de lycra e tecido cortados a laser também foram vistos na coleção, assim como os acabamentos em crochet e bordados manuais. “O maior desafio para quem trabalha com moda praia é criar em peças tão pequenas. A nossa moda é pensada para mulheres que ‘tiram o pé da areia’ e pisam num pier, num iate, em um clube e isso nos permite ter babados mais exagerados, golas e outros elementos. A nossa mulher está ali sentindo o cheio de mar, por isso, tudo o que criamos vai da passarela até a vida real”, ressalta Renato.

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A beleza das modelos teve concepção de Renato Oliveira e execução da equipe do Senac, ganha inspiração em uma Maria Bonita, uma mulher solar, com aplicação de grampos nos cabelos e tons de barro na pele. Dando o tom da apresentação que contou com a participação especial do cantor Xand Avião na passarela cantando o hino do Nordeste, “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga. Ponto importantíssimo: na passarela, mulheres de todas as idades, corpos, cores, ratificando que não há mais espaço para um mundo fora da vida real.

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