Moda & Beleza

AHLMA e Letrux lançam parceria em forma de camisetas: “Querem que a gente embrione, que fiquemos tristes. Mas a hora é de gargalhar, de ter tesão”, diz a cantora

Nova coleção de camisetas e cangas produzidas são lançadas ao som de Letrux e inspiradas no novo disco da cantora na Academia da Ahlma. O Site HT foi ao lançamento, e ainda conversou com a turma do restaurante Marchezinho, que abriu uma filial dentro da loja

Publicado em 22/11/2018 | Por Bárbara Tenório

Vermelho é a cor do sangue e todos os seres humanos tem essa cor em comum. Por esta razão universal e democrática a cor predominante nas apresentações e no figurino dos shows da cantora e compositora Letrux é o vermelho. A capa do último álbum da artista “Em Noite de Climão” é intensamente nesse tom. “Essa cor é a paixão, a dor, o sangue, a contramão, além de ser absolutamente político. Desde o golpe de 2016, as pessoas saem de verde e amarelo e, isso significa alguma coisa. Eu saio de vermelho e isso significa outra coisa”, afirma. Declaradamente de esquerda quanto ao posicionamento político e ideológico, Letícia Pinheiro de Novaes ou como é mais conhecida apenas Letrux, se diz a favor da liberdade e igualdade entre as pessoas. “Quero que todos os seres humanos tenham a liberdade de amar, de adotar um filho, de tudo. Eu tenho vergonha de precisar ser humanista, porque isso significa que o planeta Terra está atrasado. Tenho vergonha de ver alguém se incomodar com o amor dos outros. Tenho vergonha”, ressalta a artista.

(Foto: Sillas Henrique)

Foi através desta coincidência de ideias libertárias e conscientes que a marca de roupas Ahlma se uniu à cantora Letrux para criarem uma mini coleção de peças inspiradas nas letras das músicas do último trabalho da artista. As seis frases escolhidas para estamparem as camisetas vermelhas foram pensadas para causar “Climão” por onde passarem. Sendo Climão, segundo a compositora, um lugar de desconforto, entretanto, de forma reflexiva e não algo ruim como as pessoas pensam que ele seja. “É um lugar de equívoco, mas que você não precisa sair dele, não precisa se sentir desconfortável. É estar no erro e perceber como tirar proveito disso. É para se reerguer, reaprender no que se errou. É um lugar de névoa que não se enxerga direito, mas precisa tatear para se encontrar”, completa Letrux.

Letícia Letrux

A noite de ontem na Academia da Ahlma, no Leblon, foi animada pelo setlist da cantora que além de tocar as músicas do novo álbum também dançou com a casa cheia. As pessoas curtiram o som enquanto saboreavam as comidinhas e bebidas do Marchezinho Café. Várias pessoas de vermelho e algumas já estampando no peito as frases escritas por Letrux, que assume que esse projeto foi uma “piração” mútua entre ela e os estilistas da Ahlma. As seis frases escolhidas a dedo são necessárias para o momento atual do país, segundo a cantora que completa: “O disco é reconhecido muito pelas letras. As pessoas piram nos versos. Então escolhemos as seis frases mais pontuais do disco, que fazem um passeio completo sobre o que é estar vivo. Mas foi muito difícil escolher entre 32 frases marcantes. As escolhidas são frases que para o momento que o Brasil está vivendo é forte falar: ‘Resiste o amor depois do horror’”.

A artista escolheu a camiseta com a inscrição “Avisa na Tijuca que eu estou a perigo” para usar na noite de lançamento. Esta é uma edição mais limitada, mas como boa tijucana que é, Letícia fez questão de ter uma. A frase “Que estrago você fez lá em casa” é muito importante, segundo a compositora, pois fala do amor de duas mulheres. “É uma camisa LGBT necessária de ter”, enfatiza.

Camiseta “Avisa na Tijuca”

O flerte entre Letrux e Ahlma começou em dezembro do ano passado, a partir de um pocket show da cantora na loja. “Acho eles curiosos, divertidos, conscientes sobre para onde a moda se encaminha. Sobre o que é usar uma roupa, o que é existir enquanto vestimenta”, conta a artista. Desta vez, o Marchezinho Café e o projeto Academia do Vynil também participaram. Para Danilo Melo, sócio e responsável pela Comunicação do Marchezinho, os interesses comuns possibilitaram que eles abrissem mais uma loja no interior da Academia da Ahlma. “Foi uma oportunidade que tivemos de interesses comuns. Eles trabalham com roupas sustentáveis e veganas, a gente tem uma preocupação dos fornecedores serem todos locais e produtores certificados. Buscamos trabalhar com o mínimo possível de produção de lixo e eles também”, afirma Melo.

Localizada próximo à praia do Leblon, a Academia da Ahlma não é uma loja em formato clássico. O charmoso sobrado de clima praiano na rua Carlos Góis une diferentes possibilidades de se fazer moda, culinária artesanal e arte. Um espaço feito para acompanhar as mudanças da sociedade cada vez mais consciente, como garante Melo, sócio do Marchezinho: “Mesmo em tempos de crise, as pessoas não vão deixar de consumir e se alimentar, a diferença agora é para onde vai o dinheiro delas. Quem é o produtor, o estilista que fez a roupa dela. Vão continuar consumindo, porque vivemos em uma sociedade capitalista, mas cada vez mais vão consumir de forma consciente, lúcida e preocupada com questões econômicas e de saúde. O que eu estou colocando dentro da minha boca? O que eu estou fazendo pro mundo?”

Melo e o sócio francês, Sasha, se uniram aos ideais do diretor criativo da Ahlma, André Carvalhal, para construírem um espaço de encontro no pré e pós praia carioca. Para isso, o restaurante cortou a maior parte dos produtos com carne do cardápio e adicionaram o vinho Rosè e o clericot, além do tradicional chopp. A proposta criada em junho só está começando e aguarda pelo movimento do verão. “Bota na sua cabeça que isso aqui vai render”, já disse Letrux na música “Vai Render” do seu novo disco.

Academia da AHLMA

E vai render muito ainda, de acordo com a cantora, a força e o protagonismo feminino. Apesar de exigir energia do artista para fazer arte nos tempos atuais da sociedade, Letrux promete estar presente na contramão das adversidades conservadoras. “Não dá para ser diferente e fazer outra coisa. É a hora de fazer. Os homens que estão no poder querem que a gente embrione, que fiquemos tristes. Mas a hora é de gargalhar, de ter tesão. Esses homens não tem tesão. A hora é de expansão”, afirma. E ela termina dizendo antes de voltar as carrapetas: “Sobreviveremos com muita cultura, muita resistência e muito tesão. Não é só sobre amor, é sobre tesão.”

 

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