Gente & Comportamento

“Tenho medo. Sou e sempre fui um alvo”, diz David Miranda, substituto de Jean Wyllys

Deputado vai ao Sambódromo para assistir no camarote Folia Tropical ao desfile da Mangueira, que reverenciou Marielle Franco em enredo sobre a “história não revelada” do Brasil

Publicado em 06/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

O deputado Federal David Miranda, no camarote Folia Tropical, para reverenciar Marielle Franco

Substituto de Jean Wyllys, o deputado federal David Miranda (PSOL) reconhece que a sua tarefa será árdua no Congresso Federal, onde tomou posse no dia 1 de fevereiro. Apesar do pouquíssimo tempo de ingresso na casa, ele já começa a enfrentar ameaças, assim como o seu antecessor. “Sinto medo sim, não vou mentir, mas alguém tem que fazer esse papel. Eu me sinto apto”, disse o deputado ao site HT no Camarote Folia Tropical. O parlamentar esteve no Sambódromo para assistir especialmente ao desfile da Mangueira, que reverenciou a amiga Marielle Franco brutalmente assassinada ao lado do motorista, Anderson Gomes, há cerca de um ano. A apresentação da escola o fez chorar. Foram lágrimas de pesar, de saudade e de dor pela impunidade. 

Casado há 13 anos com o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que ficou conhecido no mundo após publicar vazamentos de dados da NSA (agência de segurança dos EUA), abastecido pelo ex-agente Edward Snowden, David faz questão de enfatizar o próprio perfil, que o levou à Câmara de Vereadores do Rio por três mandatos consecutivos: “Sim, sou gay, negro, oriundo de comunidade. Hoje, tenho um papel de destaque no cenário da política brasileira. E isso incomoda”, resume. No intervalo entre as escolas, o pai de João e Jonathan, dono de 25 cachorros, concedeu entrevista ao HT, na qual faz um pequeno balanço da trajetória e das causas e projetos que pretende defender em Brasília.

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HT: É uma responsabilidade imensa assumir o cargo num momento complexo da história do Brasil, onde a extrema direita se apresenta de forma incisiva e coloca todos os seus preconceitos na mesa. Como tem sido se posicionar publicamente diante de possíveis ameaças que possam surgir em relação aos temas polêmicos que vai defender?

DM: Vivemos um momento no qual a democracia se apresenta absolutamente fragilizada. Tivemos o assassinato de uma parlamentar, há quase um ano. Tivemos a renúncia de um deputado, que estaria exercendo o seu terceiro mandato consecutivo, mas que foi obrigado a sair do país, exilado, por causa das denúncias que fez. Por isso foi ameaçado. Assumir esse lugar no atual momento é dificílimo. Mas tenho a certeza de que conseguirei preenchê-lo. É isso se deve muito à minha história. Venho do Jacarezinho, sou um LGBT negro e pobre, da periferia. O primeiro corpo estendido que vi foi aos oito anos, na porta da minha casa. Sempre convivi com a morte, pulando as balas da vida. Sou e sempre fui um alvo. Minha companheira de partido, de assento e de vida, a Marielle, foi assassinada por ser uma LGBT negra, da favela e defensora dos Direitos Humanos. Ir adiante e enfrentar toda essa situação me dá medo, não vou mentir. Tenho dois filhos e 25 cachorros para criar, além do meu marido. Mesmo assim, a conjuntura pede que eu seja o representante de vozes silenciadas por esse governo. Querem calar o povo com uma agenda retrógrada e incongruente. Sou um deputado de carne e osso, que se pauta pela transparência, no qual muitos se espelham. Se eu não estiver disposto a fazê-lo, quem o fará? Eu seguirei com o apoio da minha família e de todas as pessoas que me fortalecem e estão comigo.

HT: Já vem sofrendo ameaças?

DM: Sim. E já entrei com recurso na polícia da Câmara. Semana que vem solicitarei abertura de inquérito juntamente à Polícia Federal. As ameaças foram de uma violência enorme e se estendem à minha família, todas feitas pela deepweb. O que é isso? Um lugar onde se acessa a internet, mascarando os próprios dados. Isso dificulta a identificação do responsável. Por isso a necessidade do apoio da polícia, pois que a instituição tem mecanismos para realizar um trabalho incisivo. Em duas semanas, a polícia da Câmara conseguiu identificar a procedência das ameaças. Um dos criadores deste site está preso desde o ano passado. O outro criminoso está foragido. Sabemos que essas pessoas dedicam-se a minar mentes, em primeiro lugar, e a acabar com os nossos corpos. Não podemos esquecer que o Brasil é o país que mais mata LGBT no mundo; uma nação que tem um julgo da população negra e da periferia a todo o tempo. Sou um alvo por estar nesse lugar ao qual os extremistas acham que não pertenço. Tive medo de falar ao microfone por duas semanas. Um medo absurdo, que não é racional. Acho que isso foi decorrente da narrativa usada para afirmar que eu não faço parte desse universo. Isso me fez calar no parlamento. Eu me senti inseguro e no momento em que não pude mais manter o silêncio, fui tremendo cumprir o meu papel. Na semana passada consegui discursar no palanque e lembro que fiz isso olhando diretamente para o homem desprezível que rasgou a placa da Marielle. Disse que não conseguia estar num parlamento que abrigava pessoas como ele. Coloquei o dedo ferida de todos. Falei e continuarei falando,  pois a minha voz é a voz dos que estão calados por medo e pressão. A voz de pessoas que eu ouço e com as quais dialogo todos os dias. Não é um mandato de resistência na Câmara. É um mandato de existência em seu contexto. Já passamos da fase do resistir. Agora existimos nesse espaço e vão ter que nos aturar e escutar. Precisamos saber quantos estão sendo mortos em chacinas nas favelas. Vamos divulgar os nomes deles, de suas mães e familiares. Vamos denunciar a violência que tem emergido do Estado.

HT: Já pôde redigir o seu primeiro projeto, já teve tempo para tal?

DM: Ainda não. Todos os parlamentares tiveram quatro meses para propor e dar entrada em suas ações. No entanto, já estive com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e consegui colocar a LGBTfobia em pauta para o debate. Está na hora de falarmos com seriedade dos crimes contra os trans e quantas delas têm os seus corações arrancados. Já alcançamos uma grande vitória. Estou elaborando um projeto (PL) nos moldes da Lei Maria da Penha, por meio do qual vou propor a criminalização de atos contra essa população, buscando ressocializá-la. Precisamos ter políticas educativas, lançando mão de modelos de projetos referendados mundialmente. Vamos dialogar com a OEA, a ONU, a sociedade civil e o terceiro setor para construir esse PL, que, aliás, já está bem adiantado e em breve será apresentado.

HT: Você mudou completamente a sua rotina. Do Jacarezinho para Brasília. Como lidou com esse processo?

DM: Não consigo mais ajudar os meus filhos com o dever de casa, assim como colocar o jantar e ler para eles antes da hora de dormir. Isso foi o que mais me doeu neste período de adaptação. Não tenho mais o mesmo tempo para me dedicar aos meus 25 cachorros e ao meu marido, que tanto amo.

HT: Como tem feito para se adaptar a um ambiente totalmente diferente? 

DM:  O Congresso vive um retrocesso contra a história e isso não é uma coisa só no Brasil. Vivemos um retrocesso mundial. Só que, ao mesmo tempo, vimos um aumento constante das pautas feministas, dos LGBTS, do indígenas, dos negros. Isso gera certo equilíbrio. Acredito que a minha ida para Brasília e o sacrifício em deixar a família e amigos é necessário. Estou me colocando para ser instrumento do coletivo. Quero ter diálogo com todos, preciso do apoio de todos. Nunca conseguirei ser um voz sem esse amparo. 

HT: Como é composta a sua bancada?

DM: Somos uma bancada muito unida que faz reuniões frequentes e também bastante diversificada. Temos três negros, um LGBT, cinco mulheres e cinco homens. Uma grande variedade de gêneros.

HT: Qual o recado que Jean Wyllys te deu ao assumir?

DM: O Jean mandou um vídeo para a bancada e, entre muitas coisas, disse que ele podia caminhar na rua e sem medo. Isso me fez chorar. Destacou que estava muito feliz em me ver representando tantos nichos e que eu ia me sair bem. Ele abriu o caminho e sei que aonde quer que esteja será sempre uma voz importante. O Jean vai continuar incomodando, mas ao mesmo tempo promovendo mudanças nas estruturas. É um gigante, um guerreiro e seguirá mostrando ao mundo a que veio.

HT: Além dos projetos relacionados às causas que defende, quais são os outros que levará ao parlamento?

DM: Pretendo lutar pelas pautas trabalhistas, acima de tudo; contra a Reforma da Previdência; em prol da melhoria da estrutura da Polícia Civil, que está sucateada. E também combater as milícias. Cabe lembrar que o meu mandato é uma ferramenta de acesso da população. Vou trabalhar de acordo com as suas demandas. Espero que povo utilize o meu mandato desta forma.

 

 

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