Por onde anda Pedrinho Aguinaga? Eleito “Homem mais bonito do Brasil” durante décadas, o ator diz que voltaria à TV


Modelo, ator de TV e cinema, Pedro Aguinaga – que foi casado com a modelo e apresentadora Monique Evans -, tornou-se um dos nomes mais incensados nos anos 1970, quando foi alçado ao título de “Homem mais Bonito do Brasil”. Décadas depois, leva uma vida discreta, distante da TV, sustentada por rendas e amizades construídas ao longo da trajetória. A popularidade o levou a amizades com estrelas internacionais, de Demi Moore a Maria Callas e Andy Warhol, por exemplo, além de participações no cinema, como em “Rio Babilônia”. Sem saudosismo declarado, reconhece a transformação do Rio e resume sua relação com o passado: as histórias permanecem, mesmo quando a intenção é seguir adiante

*por Vítor Antunes

Quando ele surgiu na televisão e, quase sem intervalo, virou celebridade. Havia ali um tipo raro de combinação: carisma, beleza e uma desenvoltura que a tela amplificava. Nos anos 1970, isso bastou para que deixasse de ser “um entre outros” e fosse eleito o “Homem mais Bonito do Brasil”. De ascendência nobre e simpatia imediata, Pedro “Pedrinho” Aguinaga conta histórias curiosas com a desenvoltura típica de quem aprendeu cedo a circular. Hoje, leva uma vida de hábitos simples e expectativas comedidas: “Eu estou semi-aposentado. Se alguém me fizer uma proposta e eu gostar, eu vou aceitar. Mas eu já estou com 76 anos. As propostas vão diminuindo, porque isso aqui ainda é um país de jovem. E se você não está no ar na televisão, é difícil ser chamado”.

Ele diz não acompanhar as celebridades atuais da TV. “Televisão hoje, eu não conheço nada. Sou muito de cinema, que é a minha paixão. Me sinto feliz com um bom filme para ver. Quando garoto, eu estava lá, dando um jeito de entrar. Se tinha filme para maior de idade, eu conversava com o porteiro. Eram outros tempos…”. A rotina do galã, hoje, é despojada. “Não dou trabalho a ninguém. Fico em casa, vejo meus amigos, saio com eles e pronto. Vivo a partir das rendas e da vida que eu tive. Me nutro dos amigos e do que eu fiz pela vida inteira. Financeiramente, eu sou franciscano. Como pouco, eu não bebo. Então, para mim, é fácil levar essa vida bem tranquila”.

O título de “Homem mais Bonito do Brasil” veio, segundo ele, no programa de Flávio Cavalcanti (1926-1986). “Ele é quem fez a eleição de o homem mais bonito. Depois outros tentaram copiar, mas aí você vai me permitir essa indulgência. Eu me sinto como a (ex-miss) Marta Rocha (1932-2020). Outras vezes houve misses, mas nem todo mundo foi Marta Rocha”. Pedro nunca levou muito a sério a fama. Diz que, desde criança, já era premiado pela aparência: “Minha mãe era do Alabama. Então, a primeira vez em que eu fui para os Estados Unidos, eu tinha 11 meses de idade. Lá houve um concurso de bebê mais bonito. E fui eleito. Sempre me falavam que eu era um homem bonito, mas eu nunca entrei nessa.”

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Pedro Aguinaga e seu filho, Armando (Foto: Reprodução/Instagram)

Aos 76 anos, não pretende casar — nem se vê em qualquer arranjo parecido com isso. “Eu não tenho, na minha cabeça, essa ideia. Eu acho que eu nasci para ser solteiro. Sempre tive boas amigas na vida e bons amigos também. Uma vida boa você tem que ter isso, essa dupla”.

Ele fala da neta, Valentina, com muito orgulho: “Ela está com 16 anos, uma morena linda, fluente em vários idiomas. Mora em Barcelona com meu filho, Armando (do casamento com a modelo e apresentadora Monique Evans). Vi a alegria do meu pai quando virou avô, e hoje entendo. Somos muito parecidos, inclusive na vida que levamos. Meu pai era o cara que resolvia os problemas dos outros, e me reconheço nisso. Ele era chamado de barão por efetivamente ser o Barão do Rio Bonito, título da nossa família”.

O “BRILHO” DOS ANOS 80

As pistas das discotecas não eram apenas glamour. Havia ali um vocabulário próprio. “Brilho”, por exemplo, era uma das formas de nomear a cocaína. Pedro diz que passou por esse circuito, mas sem se deixar capturar inteiramente por ele, ao contrário de muitos contemporâneos.

“Nas discotecas, eu era um pé de valsa. Quanto às drogas, eu nunca caí de cabeça nelas. Eu tinha uma energia muito boa. Nunca tomei ácido, porque eu só usava a droga que eu podia controlar, como o álcool e a maconha. Cigarro tradicional eu fumo, mas eu luto comigo para não fumar. Eu sei que faz mal, eu sei isso, aquilo. Mas eu já estou com 76, então tudo que eu me privei — fiquei cinco anos sem fumar, aquela coisa toda — agora seja o que Deus quiser. Bebo muita água. Uma coquinha por dia, que é o que me permite muito. Como pouco. Dizem que o homem morre pela boca, eu não vou morrer. Posso morrer de tudo, até de tijolo cair na cabeça, mas pela boca não vou morrer. E dou graças a Deus por estar com 76 anos. Quando eu tenho, no máximo, é um resfriado, uma gripe ou alguma coisa assim, mas isso eu não dou nem bola”. Pedro ficou famoso nos anos 1970 por fazer a propaganda de uma marca de cigarros, hoje extinta, que tinha como slogan “O fino que satisfaz”, um sucesso da publicidade lembrado até hoje.

Pedro Aguinaga fazendo a propaganda dos cigarros Chanceller (Foto: Reprodução)

A popularidade — somada à fama de exímio dançarino — abriu portas improváveis. Entre elas, a de um encontro casual com alguém que ainda não era exatamente quem viria a ser: Demi Moore. “Eu fiz amigos certos nos lugares certos, era bem recebido e namorei meninas bonitas, conhecidas. No início dos anos 1980 veio uma equipe fazer um filme aqui no Brasil. E tinha no elenco uma jovem que depois se tornou uma estrela maior: Demi Moore. Eu passei, olhei para ela, ela olhou para mim e começamos a conversar. E eu estava com um grande amigo meu de Uberaba, chamado Mário de Almeida Franco Júnior, que lá pelas tantas a convidou para a gente ir até Angra. Aí eu perguntei: ‘Ô, Demi, você conhece o paraíso?’ Ela falou: ‘Que paraíso?’ E eu: ‘Um lugar que tem 365 ilhas. Uma ilha para cada dia do ano.’ Perguntei se ela gostaria de conhecer. Ela aceitou. Ficamos lá quatro dias”.

Outra história, também com tintas cinematográficas, envolve Pedro como ator. Ele trabalhou em “Rio Babilônia”, de Neville de Almeida, um filme que mostrava os excessos e as contradições da elite carioca dos anos 1980. Foi diversas vezes censurado. A despeito de uma cena amplamente discutida — um ménage na piscina com os personagens de Joel Barcellos, Denise Dumont e Pedro Aguinaga, ele vê o longa como um retrato fiel da época, inclusive nos bastidores. “Uma festa era para ser gravada em dois dias. Demorou 10 dias. Só de figurantes, uns 150. As pessoas iam de uma maneira, mas depois sentiram que ia demorar e já levavam bebida para o set. Tem um ator no filme e, ao lado dele, um casal de black-tie sentado no sofá. No intervalo da filmagem, eu me dei conta de que ele estava pelado e pintado de prateado, conversando com esse casal como se estivesse de black-tie”.

Pedro Aguinaga trabalhou em novelas e filmes (Foto: Divulgação)

Sobre a célebre cena da piscina, ele acrescenta um detalhe que ajuda a desmontar parte do mito. “A cena da piscina era para ser mais curta, demorou uma semana para ser gravada. Começava às quatro da manhã, os três nus dentro da piscina, cada um encostado naquelas lâmpadas — que não estavam filmando —, mas davam um calorzinho. Aí, na hora de sair da piscina, alguém falou assim: ‘Ó, preciso que vocês saiam meio excitados da piscina.’ Eu falei: ‘Meu amigo, só milagre.’ Cinco horas da manhã, depois de passar quatro horas dentro da piscina, não tem jeito, não tem a menor condição”.

Todas as situações do filme foram verdadeiras de uma forma ou de outra. O Neville fez um longa real sobre o Rio de Janeiro da época, uma crônica da contemporaneidade – Pedro Aguinaga

Ele não chega a ser saudosista — faz questão de dizer isso —, mas reconhece que a cidade já foi outra coisa. “Eu vivia a Copacabana bem diferente da de hoje. Tanto Copacabana como o Rio perderam um pouco desse jeito, um pouco desse glamour. Primeiro, nós ficamos rodeados de outsiders. Antigamente, a minha mãe botava uma bolsa no braço e orgulhosamente apresentava a Copacabana toda a bolsa nova dela. Hoje, as mulheres andam agarradas à bolsa, saem com dinheiro dentro do sutiã, porque a segurança pública é ineficiente.”

Pedro Aguinaga jovem (Foto: Reprodução)

A memória, no caso dele, é povoada de histórias vividas com grandes nomes internacionais: “Maria Callas (1923-1977) era minha amiga. Eu a conheci aqui no Rio, no Copacabana Palace, acompanhada pelo produtor e cineasta italiano Franco Rossellini (1935-1992). O Andy Warhol (1928-1987), por exemplo, era a pessoa mais gentil e calada que eu conheci. O Andy ficava o tempo todo fotografando. Os encontros aconteciam naturalmente. Conheci a Claudia Cardinale (1938-2025) quando eu tinha 16 anos e era fã de carteirinha. Consegui sentar ao lado dela e ganhei o guardanapo que ela usou. Ele está aqui em casa até hoje.”

Pedro Aguinaga atravessou décadas como quem atravessa salões: sem fazer muito barulho, mas sendo sempre notado. Hoje, instalado numa rotina sem excessos, ele parece menos interessado em fixar o que foi do que em administrar o que ainda ecoa. “Não vou viver de passado. Mas as histórias não me largam”. Talvez seja esse o ponto: não é ele que revisita a memória — é a memória que, de tempos em tempos, bate à porta, pede licença e se senta outra vez à mesa.