*por Vítor Antunes
Um filme central para a historiografia do cinema brasileiro continua cercado por incertezas, versões desencontradas e ressentimentos mal resolvidos. Dado durante décadas como perdido, “O Judoka” pode afinal ter sobrevivido em estado íntegro: há indícios de que uma cópia completa esteja preservada na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Até recentemente, o consenso era outro. Sabia-se apenas da existência de uma cópia incompleta na Cinemateca do MAM, no Rio, além de um trailer refeito a partir da restauração de uma fita deteriorada e exibido pelo museu carioca. Segundo a Cinemateca paulistana, “os negativos de imagem e som do longa-metragem e do trailer da obra “O Judoka” foram depositados na Cinemateca Brasileira, pelo diretor Marcelo Ramos Motta. Ambos estão armazenados no depósito climatizado de matrizes e se encontram em processo de duplicação pelo Laboratório de Imagem e Som da instituição”.
Quando se fala no primeiro filme de super-herói oriundo dos quadrinhos, costuma-se atribuir a primazia a Superman (1978), estrelado por Christopher Reeve (1952-2004). O Brasil, no entanto, havia se antecipado em cinco anos com “O Judoka”, protagonizado por Pedro Aguinaga, apontado como um dos homens mais bonitos do Brasil. O pioneirismo, contudo, não se traduziu em público. O filme fracassou nas bilheterias, permaneceu pouquíssimo tempo em cartaz e, segundo registros posteriores, teve suas cópias dispersas ou definitivamente perdidas.
Mesmo com a possibilidade de resgate material, “O Judoka” permanece envolto em bastidores confusos. O protagonista, o ator Pedro Aguinaga, revisita a produção com franqueza: “Foi tudo uma roubada. Essa é que é a verdade. Nós fomos filmar lá na sede da Editora Brasil-América (EBAL). E “O Judoka” foi o herói nacional que teve mais publicações: foram 54 histórias em quadrinhos. (entre 1969 e 1973). Quando nós fomos fazer o filme, na capa e na contracapa de edições do gibis já tinham notícias sobre o filme. Mas o longa-metragem foi mal lançado e editado. Então, eu senti que nada ia vingar. Foi um filme difícil de fazer. Os produtores contrataram a atriz Elizângela (1954-2023), que já estava numa fase boa na Globo, fazendo a novela “Cavalo de Aço”. Assim como outros atores. Mas todo mundo teve uma reclamação”. Além disso, Marcelo Ramos Motta, o diretor, faleceu em 1987, data anterior àquela apontada pela Cinemateca em que o diretor teria disponibilizado o material na instituição.

Pedro Aguinaga e a campanha de “O Judoka”
A incerteza sobre o paradeiro definitivo do longa começou a se esclarecer a partir de informações técnicas. A Cinemateca do MAM, um dos lugares aos quais se atribuía a guarda do material, admite possuir apenas uma fração do filme. Segundo Hernani Heffner, gerente da instituição: “Os negativos originais de “O Judoka” estão (e sempre estiveram) na Cinemateca Brasileira. Até onde sei estão completos. Temos na Cinemateca do MAM uma cópia 35mm incompleta (falta um rolo), que já foi depositada assim pela distribuidora Ipanema Filmes (leia-se Roberto Farias), em 1979. Temos também um trailer 35mm, que digitalizamos e exibimos através do canal online da Cinemateca do MAM”.

“O Judoka” (Foto: Divulgação)
O relato ganha contornos ainda mais polêmicos quando Pedro Aguinaga menciona um reencontro casual com a atriz anos depois. “Encontrei com a Elisângela uma vez numa churrascaria. Falei: ‘Pô, e o negócio de “Judoka?”. E ela falou: ‘Tomei o maior beiço [calote]. O cara não me pagou. E ele desapareceu. Nunca mais vi esse cara. Ele era muito complicado. A gente ia para o set de filmagem e nada acontecia. Era uma confusão’.”
Nem todas as memórias, contudo, são marcadas pelo azedume. O ator Marcus Alvisi, que interpretou o vilão Ricardão, recorda a experiência com um misto de ingenuidade e entusiasmo juvenil. “Eu participei do filme quando eu tinha 19 anos. Tinha acabado de fazer o vestibular na UNiRio. Quem me indicou foi o ator Fernando José (1927-2014), que era júri da prova da UniRio para entrar para a escola de teatro, e no dia seguinte tinha um produtor me ligando. Esse filme foi muito divertido. Foi meu primeiro, então tudo para mim era um grande divertimento. A voz não é minha. Ela é dublada. O diretor achava a minha voz muito de adolescente, ele queria uma voz potente. Aí pediu para um dublador assumir o encargo. Foi um prazer trabalhar com Elizângela e Pedro Aguinaga”.
Alvisi diz ter ficado surpreso ao saber que o filme se tornara uma espécie de lenda perdida. “Nunca imaginei que se perderia, porque na época foi até bem de público mais jovem. Era um filme infantil, para crianças e adolescentes para criança. Eu me lembro que eu fui uma vez ver uma sessão e estava quase lotada”.

Marcus Alvisi em “O Judoka” (Foto: Reprodução)
O QUE ERA “O JUDOKA”?
Em 1969, o público brasileiro foi apresentado, pelas páginas das revistas em quadrinhos, ao que se anunciava como o primeiro super-herói genuinamente nacional. Embora inspirado em um esporte de origem japonesa, o personagem vestia um uniforme verde e amarelo — ao menos nas capas coloridas dos gibis — e assumia, desde a concepção, uma identidade visual colada aos símbolos pátrios.

Nesse contexto, “O Judoka”, lançado em 1973, pode ser entendido como um precursor involuntário do cinema de super-heróis — visionário mais por acaso do que por projeto. Produzido cinco anos antes de “Superman“, o longa brasileiro não teve continuidade nem sucesso comercial. Ficou em cartaz apenas uma semana no Rio de Janeiro, onde foi realizado. As poucas cópias existentes — estima-se entre sete e oito — circularam de forma errática por capitais como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador. Em seguida, o filme saiu completamente de exibição, entrou em um limbo burocrático e material e desapareceu sem deixar vestígios claros.

Filme “O Judoka”, de 1973 (Foto: Divulgação)
Na tela, o herói surgia com um collant nas cores do Brasil e uma máscara à moda de Zorro, parcialmente encobertos por um quimono branco. Com classificação livre — à época, censura liberada —, o personagem combatia o crime em uma tentativa explícita de dialogar com o público infantil e juvenil. A aposta, porém, não funcionou. Comentários recorrentes em fóruns e textos especializados apontam que a coreografia das lutas era frágil, o que teria comprometido a qualidade geral da produção e contribuído para seu insucesso comercial.
Cinquenta e três anos depois, parte desse material voltou à superfície. O trailer de “O Judoka” foi recuperado em um trabalho minucioso de restauração conduzido pelo preservador audiovisual Fábio Vellozo, da Cinemateca do MAM. Em participação na Live de Quadrinhos, ele relatou as dificuldades técnicas enfrentadas no processo de resgate, realizado às pressas para evitar a destruição definitiva da película — um gesto que, ainda que parcial, devolveu “O Judoka” ao campo da história e da memória.
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