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Minas Trend: Carla Lemos e Joana Cannabrava falam sobre os “Influenciadores e a construção da moda que queremos”

Durante a 25ª edição do Minas Trend, semana de moda e maior Salão de Negócios da América Latina promovidos pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), as influenciadoras cariocas provocaram a plateia e fizeram uma reflexão sobre os padrões de moda impostos pela sociedade

Publicado em 28/10/2019 | Por Heloisa Tolipan

Joana Cannabrava e Carla Lemos (Foto: Pedro Coelho)

A 25ª edição do Minas Trend, semana de moda e maior Salão de Negócios da América Latina, promovidos pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), contou com a palestra das influenciadoras digitais Carla Lemos, do Modices, e Joana Cannabrava, co-criadora do projeto “Papo sobre Autoestima”, sobre o tema “Influenciadores e a construção da moda que queremos”. A dupla mostrou para o público toda a transformação que a web sofreu ao longo de mais de uma década, desde os tempos áureos do Orkut e do Fotolog até os dias de hoje. Ambas passaram, ao longo desse período, por um processo de autoconhecimento e de autoaceitação muito grande, o que acabou gerando um grande questionamento em relação ao posicionamento das marcas na comunicação voltada ao público dito “fora do padrão”. “Eu cresci sem me ver. Toda imagem de moda que eu tinha, toda referência de moda… era uma referência supermagra e branca, um padrãozinho praticamente europeu”, disse Carla, mostrando que 65% dos consumidores não se sentem representados pelas campanhas publicitárias.

Joana e Carla abordaram ainda que o “ciclo de controle” dos padrões que sempre foram impostos pela sociedade começou há décadas por meio de publicações em revistas voltadas ao público feminino. “A gente vai ficando com umas prioridades, sem perceber, que não são assim tão importantes”, pontuou Joana. “Sempre quis ter cabelo ruivo, mas todos os cabeleireiros falavam que não combinava com meu tom de pele e eu aceitava aquilo. Até o dia que a Rihanna apareceu com seu cabelo ruivo maravilhoso, sem ouvir os cabeleireiros do Brasil que dão palpite em tudo, e eu fui lá, fiz e fiquei maravilhosa!”, contou Carla Lemos. A cantora norte-americana, inclusive, foi bastante citada durante a palestra, afinal “quebra de padrões” é um de seus méritos.

O nome por trás do perfil Modices mostrou a importância das redes sociais na sua mudança, já que nas comunidades do finado Orkut ela começou a montar seus looks, postar as fotos e ter a aceitação e participação muito ativa das outras meninas do grupo, representantes do Brasil inteiro, que muitas vezes compravam as mesmas peças e usavam cada uma do seu jeito, diferente das vitrines e dos lookbooks, fazendo as compras renderem mais que o previsto. “Se você pensar, isso já é a comunidade feminina lá atrás, com mulheres se conectando através da internet e se ajudando para falar de pessoas que existem”, frisou Joana.

Joana Cannabrava e Carla Lemos (Foto: Pedro Coelho)

A proposta inicial de ambas, quando montaram seus próprios blogs, era mostrar a moda acessível. Elas também lembraram as primeiras influenciadoras que apostaram nos famosos “looks do dia”. Entre elas está a mineira Cris Guerra, que, com o blog “Hoje vou assim“, mostrava as produções que fazia no dia a dia de uma mulher real, que trabalhava em uma renomada agência de publicidade (inclusive as fotos iniciais eram clicadas ali, bem na entrada do escritório). “A Cris é um ícone do look do dia brasileiro! Eu amava o blog dela, ia lá todo dia para ver, porque era real! Eu tinha acabado de sair da faculdade de publicidade, ainda com o sonho de trabalhar em agência. E os looks dela me traziam essa referência, porque eram super coloridos, estampados, do jeito que eu curtia me vestir. Não era aquela coisa padrão dos guias de estilo da época, que diziam que a gente tinha que vestir preto, branco e cinza… no máximo bege”, disse Carla.

Em seguida Joana completou: “O que eu amo dessa época é que as pessoas importavam. Não eram modelos, cabides… Eram mulheres reais que faziam a gente se conectar, porque elas tinham os mesmos dilemas, problemas e roupas que a gente. Isso era muito mágico porque a gente via as pessoas mais estilosas na rua, não num estúdio, e isso nos mostrava que a gente também podia sair assim!”

As duas não se sentiam “adequadas” para aparecerem com suas próprias produções, no começo, porque eram fora do padrão imposto pela sociedade. “É tanta mensagem de inadequação que a gente não percebe o tanto que a gente era comum!”, disse Joana. Como ela era “acima do peso”, as pessoas tentavam “ajudar” indicando médicos para que Joana tomasse um remédio e emagrecesse, o que fez com que ela, inclusive, desenvolvesse uma bulimia.

Ambas começaram a tentar se adequar para conseguirem trabalhos, já que peças do tamanho delas não existiam no momento dos shootings. “As marcas não queriam se associar a quem era diferente. A gente não conseguia jobs bons, os que pagavam melhor. Eu vestia 40, não tinha roupa, e acabei indo na pressão pra entrar no 38. Mas eu não me reconhecia! As pessoas queriam me elogiar falando que eu estava magra, mas não era isso que eu queria!”, contou Carla antes de mostrar que a “ficha caiu” e ela preferia ser elogiada pelo intelecto que pela aparência, já que a saúde mental começou a ser afetada pela pressão. Ela precisou fazer uma road trip para se reconectar consigo mesma e ver que não precisava se adequar a nada. Nesse momento o autoconhecimento dela realmente teve início. “Eu e a Carla fizemos uma coisa muito difícil no universo de influenciador, que é você parar de olhar para o vizinho e olhar para você mesma. Pior inimigo para autoestima é a comparação, porque aí você se desconecta de você”, completou Joana.

Ao se conhecer de fato, o nome por trás do @paposobreautoestima começou a fazer posts sobre assuntos diversos, enfrentou muito julgamento. “Eu percebi que eu estava amando falar de terapia, de autoconhecimento, de me expressar como mulher, de liberdade com o meu corpo… Primeiro foi a liberdade com a minha pessoa, me sentindo mais confiando, e achei aquilo muito legal. Então resolvi postar fotos com as minhas gordurinhas, mesmo sabendo que seria linchada, mas eu tava me curtindo daquele jeito”. Depois disso a gente concluiu que a autoestima e os debates sempre estavam ali e ela, então, se proibiu de olhar para o jardim do vizinho e mudou o “(F)Utilidades” para “Papo sobre autoestima”.

Por fim, alguns exemplos muito importantes foram mostrados para esclarecer a “falha” de comunicação das marcas, entre elas uma que usou uma modelo P/PP para ilustrar a grade, inclusive no tamanho GG, com a legenda “Encontre seu tamanho certo”, sem passar a imagem real. “Essa discussão não é nova. Quando a gente era ‘fora do padrão’ a marca, por exemplo, contratava 20 meninas, mas no Instagram mostrava apenas três, que estavam ‘dentro do padrão’, porque as outras só serviam pra vender”, comentou Joana.

O maior grupo da população brasileira é composto por mulheres negras, que não se enxergam nas propagandas feitas apenas com mulheres brancas, magras e de cabelo liso.

“O mundo está mudando e a gente não tem mais tempo para ficar se submetendo à ideias do passado. Temos que ser conscientes e parar de fingir que não estamos vendo o que está acontecendo lá fora”, disseram elas, que ainda destacaram que não querem ser iguais a todas, mas a melhor versão delas mesmas. “O importante não é se colocar dentro do padrão, mas estar feliz com o que você enxerga e ver se você se identifica com o que vê no espelho”, completou Carla Lemos.

A dupla ainda destacou a importância das mulheres se envolverem com assuntos como política e economia ao invés de se prenderem apenas a temas que são tratados nas publicações femininas, como moda e beleza. Além disso, mostraram que a ditadura da magreza, que é fora do equilíbrio (que tem relação direta com seu estilo de vida), é responsável por um grande número de internações, já que a cada dois dias uma mulher é internada no SUS por causa de consequências vindas de transtornos alimentares. “Não tem como isentar as marcas. Elas são responsáveis, porque enquanto elas exaltarem a magreza, só mostrarem a imagem de pessoas altas e magras, que só elas podem ficar lindas e maravilhosas, a gente ainda vai ficar vivendo nessa opressão, com todo o mercado perdendo consumo”, alertou Carla.

A mudança para as mulheres no universo fashion, atualmente, está presente, inclusive, no comando das grandes grifes internacionais, que, pela primeira vez, estão com mulheres no topo. “As mulheres trabalham para caramba, mas você entra em um perfil de uma marca feminina… e só vê roupa para passeio, para dar close! Cadê inspiração para gente se sentir bonita no trabalho?”, provocou Carla Lemos.

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