Gente & Comportamento

Kamilla Carvalho se prepara para viver o papel de musa do Cordão da Bola Preta

"Como transexual, eu tenho a honra ser um símbolo do respeito à diversidade em um bloco centenário e parte integrante da história do carnaval no Rio. Só reforça a representatividade", afirmou

Publicado em 27/02/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Aos 31 anos, a bela Kamilla Carvalho não podia estar mais feliz: ela foi escolhida pelo centenário Cordão da Bola Preta, bloco de carnaval mais antigo do Rio – presente na maior manifestação popular do Brasil há 101 anos – para ser sua musa trans. A primeira, para sermos exatos. Em um momento de tanta esperança libertária, de tantas causas importantes sendo debatidas ao mesmo tempo, Kamilla tem a exata noção da importância de seu mais novo título.

Leia aqui – Cordão da Bola Preta: um papo exclusivo com a Rainha Paolla Oliveira e Pedro Ernesto, presidente do centenário bloco do Rio

Kamilla Carvalho, a Musa do Carnaval 2019 do Cordão da Bola Preta (Foto: Sérgio Baia)

Kamilla Carvalho, a Musa do Carnaval 2019 do Cordão da Bola Preta (Foto: Sérgio Baia)

– Como transexual, eu tenho a honra ser um símbolo do respeito à diversidade em um bloco centenário e parte integrante da história do carnaval no Rio. Só reforça a representatividade. Na feijoada do bloco, frequentada pelos mais diversos integrantes, senhores e senhoras me pediam uma foto e acabavam tirando dez, quinze, vinte. Falavam com carinho, paravam para conversar comigo, se divertiam – conta, emocionada, Kamilla. – É isso que entendo por representatividade: ser foliã com atitude, respeito e simpatia.

Kamilla estará no histórico bloco de rua carioca, o Cordão da Bola Preta, que no desfile desse ano “O Primeiro de mais 100” promete animar os foliões com o repertório repleto das melhores marchinhas (Foto: Sérgio Baia)

Kamilla vem frequentando os eventos promovidos pela agremiação e elogia a simpatia de seus integrantes. Conta que aprendeu, ao longo da vida, que todos temos a capacidade de transformar a forma como seremos recebidos/percebidos pelo mundo:

– Somos nós que criamos o ambiente. Quando você é gentil, educada e simpática, a tratam bem. É assim que eu levo a vida, Faço exatamente como gostaria que fizessem comigo.

Além de lição de vida, ela também revela um segredinho do bloco. E não adianta insistir, é apenas o que Kamilla diz:

– Vamos ter o primeiro muso homem…

O start está marcada para o dia 2 de março, às 9h. O bloco seguirá um percurso pelas ruas do Centro do Rio (Foto: Sérgio Baia)

Nascida e criada no Morro da Providência, Kamilla transforma seu corpo desde os 22 anos. Já declarou publicamente que não fez e não fará a cirurgia de ressignificação sexual: “Não tenho coragem”. Atualmente, mora sozinha no Bairro de Fátima. Ela conta que a solteirice é opcional. Uma pendência já foi devidamente riscada da check list: mudar de nome oficialmente.

– Ter uma identidade é uma das medidas mais importantes. Fiz tudo em um projeto gratuito da Fiocruz que ajuda o povo trans a trocar de nome, fazer os documentos, exames… São pequenas ações que dão uma ajuda imensa no dia-a-dia. Mas será que a gente deveria falar disso? – pergunta-se Kamilla, entre divertida e receosa.

O repórter resolve assumir o risco, pois a informação pode ajudar pessoas na mesma situação. E  questiona: com tanta representatividade, simpatia e desenvoltura, será que ela teria algum interesse em ser militante?

– Olha… Sou espírita. Sou filha de Ogum com Iansã, como a Clara Nunes. Ou seja, sou muito de guerrear. Mas,os grupos de militantes são fechados…

Por enquanto, a musa está de olho no carnaval. Até lá, leva a vida como sempre, tranquilamente, trabalhando como cabeleireira no Centro e, nas horas vagas, se divertindo com amigos e amigas na Marina da Glória ou na Feijoada da Mangueira.

Nos vemos no Cordão da Bola Preta!

 

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