
A palestra “Sustentabilidade Humana no Trabalho: Como Transformar DEI, Bem-Estar e Saúde Mental em Estratégia Organizacional”, apresentada por Marcelo Ramos, gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT, durante o Fórum “Lideranças Sustentáveis”, no SENAI CETIQT, na Barra da Tijuca, inseriu o debate sobre saúde mental, diversidade, equidade, inclusão (DEI) e sustentabilidade humana no contexto da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir das organizações a identificação, a avaliação e o gerenciamento dos riscos psicossociais como parte integrante do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Marcelo ratificou que a sustentabilidade humana nos ambientes de trabalho exige uma abordagem sistêmica das relações e práticas de gestão, reconhecendo que fatores organizacionais, culturais e relacionais influenciam diretamente a saúde mental, o engajamento, o pertencimento, a produtividade e a permanência das pessoas no trabalho.
Antropólogo e pesquisador da felicidade e do bem-estar, Marcelo Ramos também lançou luz sobre a responsabilidade das organizações contemporâneas com os princípios da dignidade da pessoa humana, da valorização do trabalho e da prevenção de riscos à saúde física e mental dos trabalhadores. Ao reunir, no auditório do SENAI CETIQT, lideranças empresariais, profissionais de Recursos Humanos, especialistas e gestores de sustentabilidade para uma análise da integração entre ESG Social, sustentabilidade humana e a evolução da regulação trabalhista, Marcelo Ramos evidenciou, com diversos exemplos o cenário atual nas empresas, que a construção de ambientes de trabalho psicologicamente seguros, inclusivos, éticos e saudáveis consolida-se como elemento indispensável à conformidade legal, à governança corporativa, à sustentabilidade organizacional e à proteção dos direitos fundamentais nas relações de trabalho.

Marcelo Ramos (Foto: Heloisa Tolipan)
Como ele ressaltou, “os estudos sobre florescimento humano mostram que ambientes profissionais saudáveis dependem de múltiplas dimensões combinadas: saúde física, equilíbrio entre esforço e descanso, pertencimento, confiança, colaboração, apoio em momentos de crise, autonomia, flexibilidade e reconhecimento profissional. Quando desenvolvemos diagnósticos organizacionais durante consultorias, precisamos avaliar todos esses elementos”.

Ao detalhar a atuação da Gerência de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT junto às organizações, Marcelo Ramos destacou que qualquer processo de transformação organizacional deve partir de um diagnóstico capaz de identificar, de forma objetiva, as condições existentes e os desafios específicos de cada ambiente de trabalho, permitindo que as decisões sejam fundamentadas em informações concretas e não em percepções isoladas.
“Sem diagnóstico, não há ação consistente. Depois, identificamos temas sociais materiais, ou seja, os temas críticos que precisam ser observados e tratados. Em seguida, implementamos políticas, processos e programas de diversidade, equidade, inclusão, bem-estar e saúde mental. E, finalmente, monitoramos resultados e índices de DEI no trabalho a partir de indicadores”, explicou Marcelo Ramos.
AS EXPERIÊNCIAS DE VIDA
Marcelo Ramos iniciou sua apresentação resgatando a própria trajetória acadêmica e profissional para contextualizar a construção de sua atuação na área de sustentabilidade humana e desenvolvimento organizacional. Cursando a faculdade de Direito, ele decidiu migrar para as Ciências Sociais. “Meu pai perguntou: ‘O que você vai fazer? Antropologia? Você vai viver de quê?’”. O interesse pela Antropologia foi como interpretar as relações humanas por meio da análise das culturas, dos sistemas simbólicos, das práticas sociais e das formas de organização da vida coletiva, buscando compreender como diferentes sociedades produzem significados e estruturam suas interações.
A primeira pesquisa desenvolvida por Marcelo Ramos tratava da relação entre mulher e trabalho. Posteriormente, seus estudos passaram a abordar as mudanças nos papéis de gênero e impactos sobre as configurações familiares e as relações profissionais. “Mulheres que saíram para trabalhar, como os homens se sentiam em relação aos filhos, famílias consideradas desestruturadas pela entrada da mulher no mercado de trabalho. Tudo isso tinha relação direta com trabalho”, relembrou.
Segundo o antropólogo, essa trajetória permitiu compreender que as desigualdades estruturais continuam exercendo influência significativa sobre as oportunidades de desenvolvimento das pessoas no ambiente organizacional. Em sua análise, grupos historicamente sub-representados – como mulheres, pessoas negras, povos indígenas, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência – ainda enfrentam obstáculos que limitam o acesso a condições efetivas de equidade no trabalho. Afirmou que a implementação de políticas de equidade são essenciais para remover barreiras estruturais, ampliar a igualdade de oportunidades e assegurar que todos os profissionais possam desenvolver plenamente suas capacidades e potencialidades no ambiente de trabalho.
À frente da Gerência de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT, liderando o Observatório da Indústria Têxtil e de Confecção e serviços de consultoria para Gestão de Sustentabilidade nas organizações, Marcelo Ramos desenvolve uma atuação voltada à integração dos princípios de sustentabilidade, às estratégias organizacionais, ressaltando que a sustentabilidade humana, a saúde mental e as políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) precisam ocupar posição central na agenda empresarial. A partir desse diagnóstico, são estruturadas, implementadas, monitoradas e avaliadas iniciativas para ambientes de trabalho mais justos, inclusivos e sustentáveis.
CENÁRIO ATUAL E AÇÕES
Pude acompanhar, durante a palestra, a análise feita por Marcelo Ramos sobre os resultados de um estudo de materialidade da cadeia produtiva têxtil e de confecção, que identificou os temas considerados prioritários para o setor: meio ambiente, capital social, capital humano, inovação e governança. “E o capital humano, que é um tema material, concentra os tópicos importantíssimos. Entre eles estão saúde e segurança dos colaboradores (com a prevenção de danos físicos e mentais); práticas e relações de trabalho entre as organizações e seus trabalhadores, incluindo recrutamento, demissão, gestão de desempenho e privacidade dos colaboradores; remuneração e jornada laboral; a não discriminação e a igualdade de oportunidades e gênero”.

De acordo com Marcelo Ramos, essa matriz está referenciada em padrões internacionais e integra um marco legal e estratégico que orienta as organizações na construção de reputação, no fortalecimento da governança e no gerenciamento assertivo de riscos, incluindo os riscos psicossociais. Entre os referenciais citados estão a Declaração Universal dos Direitos Humanos; os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS); a Constituição Federal; as legislações trabalhistas; as normas de enfrentamento aos crimes resultantes de preconceito de raça ou cor, identidade de gênero e orientação sexual; a CIRDI (Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância); e as Normas Regulamentadoras de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, com destaque para a NR-1 e sua atualização, que passa a contemplar a gestão dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabelece a necessidade de que as organizações considerem os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no âmbito do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Essa diretriz amplia a abordagem tradicional da gestão de segurança e saúde ocupacional ao exigir a identificação, a avaliação e a adoção de medidas de prevenção e controle diante de fatores que podem comprometer a saúde mental dos trabalhadores, como assédio, sobrecarga laboral, pressão excessiva por metas, estresse crônico e condições associadas ao burnout.
Ainda hoje, observa-se a sub-representação de grupos minorizados em espaços de poder, liderança e tomada de decisão, uma realidade que permanece presente em muitas organizações. “As práticas e relações de trabalho ainda são atravessadas por diferentes formas de discriminação, sejam elas diretas ou indiretas, decorrentes de machismo, racismo, LGBTfobia e capacitismo. E também situações históricas de desigualdades do acesso das pessoas pertencentes a grupos minorizados à educação, ao ingresso e desenvolvimento no mercado profissional. Faltam ferramentas para reconhecer e transformar essas estruturas que perpetuam essas desigualdades e pouca atenção à sustentabilidade humana como estratégia de desenvolvimento sustentável das organizações”.
Muitas das dificuldades enfrentadas pelas pessoas, incluindo fatores associados ao risco e ao adoecimento mental, estão relacionadas às profundas transformações ocorridas no mundo do trabalho. Ao citar o sociólogo Richard Sennett, reconhecido por seus estudos sobre o valor social do trabalho, Marcelo Ramos destacou a relevância da leitura de sua obra, antes falar sobre um cenário atual marcado por trabalho mais instáveis, acelerados e fragmentados: “Os indivíduos encontram maiores dificuldades para construir trajetórias profissionais, vínculos de identidade com aquilo que realizam. “As pessoas têm mais dificuldade de construir trajetória, identidade com aquilo que fazem. Há uma desconexão entre o trabalho e valores pessoais. Isso gera, inclusive, dificuldades de atração e retenção de pessoas em determinados espaços”, analisou.

A indústria vivencia de forma intensa esse cenário de transformação. Há uma transição demográfica marcada pelo envelhecimento populacional, há menor entrada de jovens no mercado de trabalho e maior concorrência por talentos. Essa competição, entretanto, não ocorre apenas entre empresas ou setores produtivos, mas com outras formas de vida que têm conexão com o contexto socioeconômico contemporâneo.
Ao abordar o tema central do Fórum “Lideranças Sustentáveis” — “ESG Social, Sustentabilidade Humana e atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1): Estratégia e regulação no gerenciamento de riscos psicossociais” —, Marcelo Ramos ressaltou os impactos da crise de saúde mental sobre grupos socialmente vulnerabilizados. De acordo com diagnósticos de pesquisas conduzidas pela Gerência de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT, as mulheres aparecem como o principal grupo afetado por situações de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho. Pessoas LGBT, trabalhadores pobres e indivíduos oriundos de determinadas regiões do país também enfrentam formas recorrentes de discriminação.
Os próprios materiais técnicos do Ministério do Trabalho já apontam fatores de risco psicossociais relacionados a situações como assédio, discriminação, sobrecarga de trabalho, intensificação do ritmo laboral, baixa recompensa, ausência de reconhecimento e percepção de baixa justiça organizacional. Diante desse cenário, o pesquisador defendeu que as organizações precisam construir condições, ambientes, relações e práticas de trabalho capazes de atrair e desenvolver pessoas ao longo de sua trajetória profissional. Para isso, torna-se cada vez mais necessário prevenir e controlar os riscos psicossociais, superando ações pontuais e adotando estratégias contínuas de diagnóstico, identificação de temas críticos, implementação de políticas de diversidade e inclusão e monitoramento de indicadores relacionados à saúde mental e às relações de trabalho. “Estamos falando de reputação institucional, sustentabilidade organizacional e desenvolvimento de longo prazo”, destacou.
PESQUISADOR DA FELICIDADE
Marcelo Ramos também compartilhou a trajetória que o levou a ser reconhecido como “pesquisador da felicidade”. Ele ingressou no SENAI CETIQT como antropólogo para integrar uma pesquisa nacional sobre “A Felicidade Cotidiana dos Brasileiros”, desenvolvida no contexto da criação de um observatório internacional de tendências da instituição. O estudo utilizou uma metodologia denominada “cultura material da felicidade”, abordagem que busca compreender como valores, práticas e relações sociais influenciam a percepção de bem-estar. “Na antropologia, a felicidade é pensada como bem-estar subjetivo, claro. Mas, para além do bem-estar subjetivo, como uma prática relacional, algo social, validado coletivamente. A partir dali, passei a enxergar a felicidade de forma mais plural e sistêmica, sempre ligada ao bem-estar coletivo”, afirma Marcelo Ramos.
O estudo, intitulado “A Felicidade Cotidiana dos Brasileiros”, foi realizado em oito capitais do país. : “Li 512 diários e, depois, conversei com os participantes. No total, foram 960 horas de entrevistas. Esse mergulho me permitiu compreender melhor a estrutura do discurso sobre felicidade. Um aprendizado que também nos ajuda a refletir sobre a felicidade no ambiente de trabalho”. A partir dessa experiência, o antropólogo continuou aprofundando o conhecimento sobre a gestão da felicidade e bem-estar com a professora-doutora Helena Águeda Marujo, da Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.
“Os estudos sobre florescimento humano e sustentabilidade humana mostram que ambientes profissionais saudáveis dependem da combinação de diferentes dimensões, como saúde física, equilíbrio entre esforço e descanso, pertencimento, confiança, colaboração, apoio em momentos de crise, autonomia, flexibilidade e reconhecimento profissional. Quando a Gerência de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável atua em processos de consultoria, é fundamental realizar o diagnóstico mencionado anteriormente, associado a um planejamento que considere as categorias do florescimento humano e os fatores de risco psicossociais presentes nas organizações. A partir da análise das práticas concretas adotadas pelas empresas, torna-se possível mitigar riscos e promover aquilo que estamos denominando saúde mental e sustentabilidade humana.” Nesse sentido, é possível construir ambientes de trabalho mais saudáveis, sustentáveis e mais humanos.
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