
Segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado em abril com o objetivo de identificar o ambiente psicossocial no trabalho, 23% das pessoas no mundo relataram já ter sofrido violência ou assédio no trabalho, sendo 18% vítimas de violência psicológica. E mais: são 840 mil mortes anuais associadas a fatores de risco psicossocial no trabalho. Esse foi um dos exemplos que permearam a palestra “Relações e Práticas de Gestão e a NR-1: Como a Cultura Organizacional Adoece ou Protege as Pessoas”, apresentada pelo professor e pesquisador Bruno Chapadeiro Ribeiro durante a terceira edição do Fórum “Lideranças Sustentáveis”, realizada no SENAI CETIQT, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O Fórum proporcionou uma série de análises a partir de temas como ESG Social, Sustentabilidade Humana e atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1): Estratégia e regulação no gerenciamento de riscos psicossociais. A atual Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) exige que as empresas incluam os riscos psicossociais em seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso torna obrigatório identificar, avaliar e mitigar fatores que afetam a saúde mental dos trabalhadores, como assédio, pressão excessiva por metas, burnout e estresse crônico.
Estamos vivendo formas muito adoecidas e adoecedoras de trabalhar. A atualização da NR-1 pode representar um ponto de partida para a construção de ambientes corporativos mais saudáveis, capazes de oferecer não apenas sustento financeiro, mas também pertencimento, identidade e sentido social às pessoas – Bruno Chapadeiro

Na prática, isso significa que a promoção de um ambiente de trabalho seguro exige que as organizações adotem um processo contínuo de identificação de perigos e avaliação de riscos ocupacionais. Além da antecipação, do reconhecimento, da avaliação e do controle dos agentes físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e dos riscos de acidentes, conforme estabelece a Norma Regulamentadora, as empresas devem também incorporar ao seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) a identificação, a análise da probabilidade de ocorrência e da gravidade dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Esses riscos decorrem, entre outros fatores, da organização do trabalho, das práticas de gestão, das relações interpessoais e da cultura organizacional, podendo comprometer a saúde mental, o bem-estar e o desempenho dos trabalhadores.

Nesse contexto, a gestão dos riscos psicossociais não se limita ao cumprimento de uma exigência normativa, mas representa um avanço na construção de ambientes laborais mais saudáveis, equitativos e sustentáveis. O propósito é consolidar ambientes organizacionais nos quais as pessoas encontrem condições de trabalho pautadas pela segurança, pelo respeito, pela transparência, pela justiça organizacional e pela igualdade de oportunidades, fortalecendo o sentimento de pertencimento e criando condições para o desenvolvimento pleno de cada trabalhador, tanto em sua dimensão humana quanto profissional.
Gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT, Marcelo Ramos deu as boas-vindas ao público e ao palestrante, Bruno Chapadeiro, ressaltando que a terceira edição do Fórum “Lideranças Sustentáveis” lançou luz sobre estratégia e regulação no gerenciamento de riscos psicossociais. “O Fórum tem o objetivo de promover um espaço de imersão dedicado a líderes empresariais que buscam aprofundar conhecimentos e desenvolver competências para uma gestão sustentável nas organizações, considerando os fatores ambientais, sociais e de governanças”, afirmou.

Marcelo Ramos (Foto: Heloisa Tolipan)

Bruno Chapadeiro Ribeiro (Foto: Heloisa Tolipan)
Neste encontro, abordamos temas como diversidade, equidade e inclusão, justiça organizacional e condições que impactam a saúde mental. A proposta é contribuir para uma leitura sistêmica do tema, apoiando lideranças na construção de ambientes de trabalho mais seguros, inclusivos, saudáveis e sustentáveis – Marcelo Ramos, gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT

Professor adjunto do Departamento de Planejamento em Saúde do Instituto de Saúde Coletiva da UFF e psicólogo e sanitarista do Trabalho, Bruno Chapadeiro integrou o grupo técnico responsável pela revisão da NR-1 e afirmou que o debate sobre saúde mental relacionada ao trabalho vem sendo construído há décadas no Brasil. “O trabalho é um determinante de saúde dos mais importantes, porque é onde passamos a maior parte do tempo das nossas vidas”, afirmou. Para o pesquisador, o impacto do trabalho vai além da remuneração: “Ele também cumpre uma função de produção de sentido, de identidade, de pertencimento”.
Segundo ele, pesquisas epidemiológicas nacionais já apontavam, desde os anos 50, relações entre condições de trabalho e adoecimento psíquico: “Resolvi resgatar as primeiras pesquisas brasileiras que correlacionam saúde mental e trabalho. Até onde consegui chegar, a primeira data de 1954, feita por um médico que publicou um estudo sobre motoristas de caminhão e de ônibus com drogadição, alcoolismo e uso de substâncias. Ele compreendeu, nas entrevistas e nos estudos epidemiológicos, que as explicações dadas por esses profissionais para o uso tinham aspectos psicossociais ligados ao trabalho. Eles diziam coisas como ‘o uso dessa bebida deixa a gente mais atento’. Também diziam que, para dar conta das longas jornadas de viagens, usavam substâncias que acreditavam que cumpriam a função de dar força para trabalhar”.
Ao longo da palestra, o professor relacionou a intensificação das jornadas, a aceleração do tempo e a pressão por produtividade ao crescimento dos casos de ansiedade, depressão, burnout e afastamentos por transtornos mentais. O palestrante também citou números nacionais relacionados ao avanço dos afastamentos por burnout – que cresceu 823% de 2021 a 2025 – e transtornos mentais, além do crescimento dos acidentes de trabalho registrados no país. Bruno Chapadeiro destacou que muitas pessoas ainda têm recorrido à medicalização para suportar a rotina profissional. “As pesquisas mostram pessoas usando estimulantes para dar conta da carga de trabalho e tranquilizantes para conseguir dormir. O pensamento fica acelerado, a pessoa sonha com o trabalho, não consegue descansar”, disse.

Ao tratar da naturalização de práticas abusivas ainda constatadas nas empresas, o professor citou a icônica personagem Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep no filme “O Diabo Veste Prada” e associada a comportamentos de assédio moral. Segundo ele, embora o debate público costume concentrar a responsabilidade em figuras individuais vistas como “chefes tóxicos”, o problema é ainda mais amplo e estrutural. “O assédio moral não é apenas uma questão de um para um”, afirmou. “Muitas organizações acabam sendo coniventes com práticas abusivas e, em alguns casos, chegam a incorporá-las como método de gestão voltado para o aumento de produtividade e o cumprimento de metas”.
Portanto, o assédio moral é uma conduta abusiva, repetitiva e intencional, destinada a humilhar, constranger ou vexar indivíduos e grupos. O risco de tratar o problema apenas como desvio individual é ignorar culturas corporativas que naturalizam pressões excessivas e formas violentas de liderança.
Um ponto importantíssimo: assédio moral não pode mais ser compreendido apenas como uma relação individual entre agressor e vítima. “Há organizações que culturalmente são coniventes com práticas de assédio. Isso quando não incentivam como prática de gestão”. Segundo o pesquisador, metas excessivas, sobrecarga, precarização dos vínculos e culturas corporativas baseadas em pressão constante acabam naturalizando relações abusivas.

A saúde mental virou uma emergência no mundo do trabalho e a NR-1 veio firmar ainda mais este espírito de época que estamos vivendo. Afinal os transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamento do trabalho no Brasil. Segundo os dados da Previdência Social, já caminha para ser a segunda causa. Há os acidentes típicos, as lesões por esforço repetitivo ou doenças osteomusculares relacionados ao trabalho e os transtornos mentais. É um impacto nacional – Bruno Chapadeiro
O professor também chamou atenção para transformações recentes nas relações de trabalho, especialmente o crescimento da informalidade e dos modelos baseados em entregas e demanda. “Estamos caminhando para uma lógica em que muita gente trabalha por entrega, não mais por jornada fixa. Isso muda completamente a relação com o tempo, o descanso e o adoecimento”, observou.
Segundo ele, estudos mostram que a diminuição de dias trabalhados não garante, necessariamente, melhores condições de saúde mental. “Se as metas permanecem as mesmas, a tendência é haver intensificação do trabalho”, explicou, acrescentando: “não estou dizendo que não devemos pensar na redução da jornada laboral, mas precisamos entender as nuances qualitativas”. De acordo com o professor, “algumas pessoas nos disseram que reduzir um dia na semana de trabalho não representaria, necessariamente, descanso. Por quê? Porque elas têm metas e entregas para cinco dias, por exemplo, e passariam a ter apenas quatro. Isso intensifica o trabalho. E trabalhadores de baixa renda frequentemente utilizam eventuais folgas para complementar ganhos financeiros”.

A OMS aponta que até 2030, a depressão será a doença mais incapacitante no ambiente de trabalho. Precisamos pensar em prevenções e intervenções. Primárias, por exemplo: promoção de saúde mental e prevenção do desgaste mental. Secundárias: detecção precoce de casos, rastreamento e diagnóstico, acolhimento e suporte e presenteísmo. Terciária: controle do dano, diagnóstico e terapêutica, absenteísmo, benefício previdenciário, readaptação, reabilitação e notificação – Bruno Chapadeiro
O SINAN-RJ permite identificar violência relacionada ao trabalho, incluindo assédio moral e violência psicológica. Em 2025, foram 26.499 notificações de violência interpessoal, 7.648 de acidentes de trabalho e 108.536 notificações de agravo só no terceiro quadrimestre de 2025.
Na avaliação de Bruno, a inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 representa uma mudança importante de perspectiva porque desloca o foco do indivíduo para a organização concreta do trabalho. E, diferentemente de riscos físicos tradicionais — como ruído excessivo, calor ou agentes químicos, facilmente mensuráveis —, os fatores ligados ao sofrimento psíquico são difíceis de identificar: “Precisamos compreender os elementos invisíveis do trabalho real”.
Para explicar essa diferença entre o trabalho prescrito e o trabalho efetivamente realizado, o professor Bruno Chapadeiro recorreu a exemplos cotidianos. Um deles envolvia um dentista de uma unidade pública de saúde que, diante da falta de insumos básicos, precisou improvisar para continuar atendendo seus pacientes: “Ele pensou: ‘Se não faço nada, também não alivio a dor da pessoa’. Ele decidiu agir e improvisou”.

Esse tipo de adaptação permanente faz parte da rotina profissional em diferentes áreas: “Estamos sempre criando pequenos ‘jeitinhos’ para o trabalho acontecer”. O palestrante mencionou o conceito francês de “tricherie”, algo próximo de “trapaça”, para definir os ajustes improvisados que trabalhadores realizam diariamente sem intenção de causar dano, mas como forma de compensar limitações estruturais, pressão por produtividade e falta de recursos: “O trabalho prescrito inclui regras, metas, indicadores e procedimentos. Mas nunca alcança totalmente o trabalho real, aquele que acontece na prática e envolve contexto, interrupções, variabilidade, pressão de tempo, imprevisibilidade e limitações de recursos”.
Durante a apresentação, Chapadeiro disse que tem visto as mais diversas abordagens corporativas que tratam a saúde mental apenas por meio de ações pontuais de bem-estar. Sem desqualificar as iniciativas, longe disso, lamentou o fato de elas não enfrentarem a origem do problema: “Um professor da Universidade de Brasília usa um termo interessante: ‘ofurô corporativo’. Ele fala de práticas de yoga, mindfulness, massagem etc em ambientes profissionais. Zero crítica. Inclusive fui praticante de yoga por muitos anos. Mas fica no nível epidérmico da questão. Com os dados alarmantes de saúde mental, precisamos ir ao cerne do problema: entender que é na gestão do trabalho, na cultura organizacional, na forma de organizar o trabalho que está a gênese dos adoecimentos. Precisamos encarar de frente”.
Para encerrar a palestra, ficamos com uma história interessante do médico sanitarista italiano Luigi Devoto, fundador da primeira clínica dedicada à saúde do trabalhador, criada em Milão no início do século passado. Na inauguração da instituição, Devoto foi questionado sobre o motivo de batizá-la de Clínica do Trabalho (Clinica del Lavoro) e não Clínica do Trabalhador (Clinica del Lavoratore). A resposta foi: “Porque quem está doente é o trabalho. E é ele que precisa ser curado para que as doenças dos trabalhadores sejam evitadas”.
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