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Torcedoras engajadas na luta pelo empoderamento feminino nos estádios pedem respeito e igualdade

Bancadas femininas de torcidas do Clube do Remo, de Belém, promovem ações com o intuito de empoderar as torcedoras e tratar seriamente a questão do machismo ainda dominante nas arquibancadas

Publicado em 21/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

 

Bancada da Barra Camisa 33 segura placas com frases contra o machismo nos estádios (Foto: Arquivo Pessoal)

*Por Carla Andrade

A presença do público feminino nos estádios ainda causa certo estranhamento para muitos homens que insistem em considerar o espaço como um território à parte, onde são dominantes. Dispostas a mudar esse cenário permeado de preconceitos, um grupo de torcedoras remistas se uniu em prol de levantar a bandeira do empoderamento e mostrar que ‘lugar de mulher é aonde ela quiser’. Elas falaram sobre respeito e igualdade, o direito de ir e vir com segurança, protestos e ações ao site HT.

Ao decidir fundar e presidir a torcida das Leoas Azulinas em 2013, a pós-graduada em nutrição esportiva, Anne Alves, sabia dos obstáculos que teria pela frente e, mesmo assim, não se abalou. Ela conta que sofreu muito com diversos comentários ofensivos e chegou a ouvir que “só estava no estádio para rebolar”. Isso por conta da criação de um grupo de animadoras que participava dos jogos dentro do gramado. Para combater a situação, tomou a decisão de realizar campanhas ativas sobre o machismo, “sem ser extremista”, e colocar o tema com a seriedade necessária.

Ela diz que são muitos os casos de torcedoras que tiveram seus corpos tocados sem permissão, foram alvos de cantadas inconvenientes e olhares maliciosos, além do abuso psicológico. Cita também casos daquelas que têm sua orientação sexual questionada por gostar de futebol.

“Essa tecla é bem nociva e, por isso, precisamos tocá-la com frequência. Quero um dia ir para o estádio e andar sem ser alvo de olhares masculinos ou piadas nojentas. Falta maior conscientização dos homens, afinal ninguém nasce de chocadeira e todos eles têm mãe, avó, esposa, filha em suas famílias. Não é possível que eles insistam em manter uma postura tão intolerante diante do feminino”, disse Anne.

A presidente das Leoas buscava uma forma inusitada de protestar e, depois de muito pensar e trocar com suas componentes, teve a ideia de incorporar ao clube, até então simbolizado por um leão, a sua versão feminina que retratasse cada torcedora. A mascote Leona, então, foi apresentada durante um evento de lançamento do uniforme do time e levada ao estádio durante o jogo Remo x Independente, no dia 16 de março. O resultado foi muito positivo e a nova representante da torcida feminina foi abraçada por todos.

“Mostramos a força da mulher através da Leona e a colocamos como irmã do leão para acabar com essa visão de que uma mulher só existe para servir ao seu homem. Caiu por terra essa característica e apresentamos uma mascote feminina que ama o seu time e está em campo e nas arquibancadas para torcer, porque ela é dessas.”

Anne fez questão de frisar que para fazer Leona virar realidade, não contou com a ajuda de nenhum centavo do clube ou da ala masculina da torcida. Tudo foi pago pelas Azulinas que somaram o dinheiro que tinham em caixa com a verba obtida através de uma vaquinha virtual e venda de rifas.

“Mostramos que a mulher tem criatividade para pensar num plano de marketing como esse e realizar ações em prol do clube que muitos homens jamais imaginaram. Nossa maior alegria foi ver como a mascote foi aceita e querida por todos os torcedores, de crianças ao pessoal da terceira idade”, afirmou.

Outra iniciativa das Azulinas foi a campanha #RespeitaAsMina que contou com a participação de vários grupos pelo Brasil, em especial das Tricolideres do Bahia, torcida do Esporte Clube Bahia. Durante todo o mês de março usaram faixas e cartazes com a hashtag para alcançar maior conscientização e as imagens viralizaram nas redes sociais.

A presidente não sabe dizer se o machismo um dia vai acabar e o compara ao racismo, perpetuado em nossa sociedade até os dias atuais. Ela sabe que para tentar amenizar os efeitos do preconceito é preciso lutar diariamente, com a participação de todas, e fala sobre o novo projeto.

“Nossa próxima meta é a criação de um canal no YouTube, o TV Leoas, que tem por objetivo colocar a mulher para discutir e falar sobre futebol, a realidade de nosso clube, sem deixar de focar na importância da participação da mulher e as mazelas que enfrenta pelo simples fato de amar o Remo”, certificou.

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O feminicídio foi escolhido pelas integrantes da Camisa 33 Barra Brava do Remo como tema central do último protesto, realizado no Dia Internacional da Mulher. Thayse Wanzeler, uma das conselheiras do grupo, contou que a violência contra a mulher mexe muito com todas, já que algumas das componentes foram vítimas de abuso dentro de suas casas. Cada uma sugeriu frases de efeito e, depois de uma seleção, algumas foram escolhidas e pintadas em placas que seriam levadas por elas durante um jogo.

“Queríamos promover algo com impacto para trazer à tona uma reflexão e, quem sabe, tirar da bolha os que ainda pensam que mulher é um objeto e tem que pertencer a um homem. O resultado foi melhor do que esperávamos. Recebemos elogios e comentários de torcedoras que fizeram questão de ressaltar que o ato foi uma conquista para as mulheres que querem ganhar voz dentro de um meio tão machista”, esclareceu.

De acordo com Thayse, a intenção das ações promovidas pelas meninas da Camisa 33 é abranger a todos os torcedores, mas alguns não entendem. O sonho desta torcedora é “ajudar a mudar a cultura patriarcal vigente e ver a mulher ganhar o respeito merecido dentro e fora dos estádios”.

“Desejo que, um dia, esse momento atual seja apenas um triste capítulo da nossa história. No futuro, vamos ler sobre os fatos de hoje e pensar “nossa, isso acontecia”. Tiro daí a força e alegria para continuar na minha luta por igualdade de direitos para as mulheres”, explicou ela.

Outro grupo importante dentro do Clube do Remo é o Movimento de Empoderamento Feminino Azulindas e ele se deu início com a amizade de cinco mulheres que amavam futebol e tinham medo de frequentar os jogos. Passaram a fazer o percurso juntas e hoje, depois de muitas partidas, elas somam 67 ao todo. Mariana di Moraes é uma delas, e conta que o coletivo já criou várias campanhas, como a da catraca única e a por banheiros mais organizados e exclusivos, que eram dois e agora são quatro.

Além dessas ações, elas são responsáveis pelo Encontro de Mulheres Remistas que, em sua quinta edição, trará um tema central escolhido pelos diversos relatos que ouviram de outras torcedoras e amigas próximas que sofreram assédio, violência doméstica e abusos.

”Estou muito orgulhosa de ver o projeto receber total apoio e parceria do meu clube que percebe a necessidade de sua torcedora ganhar voz. Como palestrantes teremos Ana Falcão, delegada do Dean, e a psicóloga Eliana Perdigão, que sofreu diversas humilhações de seu ex-parceiro, deu a volta por cima e ainda passou a fazer parte do nosso movimento”, revelou.

Mariana já passou por situações delicadas onde foi assediada e uma delas foi dentro do estádio, onde estava a recolher fundos para um dos projetos. Sem perceber, um torcedor embriagado aproximou-se e disse em seu ouvido que “se ela saísse com ele, receberia uma bela quantia para a ação”. Ela conta que o fato de ter sido vista como um produto lhe causou imensa dor.

Em 2018, foi vítima de um ato de extrema violência, onde por pouco não foi sequestrada. Ela voltava do trabalho, por volta das quatro da tarde, quando um carro com dois homens desconhecidos emparelhou na calçada. Como ela acelerou o passo, o motorista avançou em sua direção, desceu e tentou colocá-la a força dentro do veículo. Ela gritou, mordeu o agressor e bateu para se defender, até que surgiu um senhor para ajudá-la.

“Quando perceberam que não poderiam me levar, ouvi todos os xingamentos possíveis. Tranquei-me no quarto e tive uma crise de choro, assim cheguei em casa. Foi bastante difícil conviver com a situação e contei com o apoio das meninas da torcida. Passei a me ver com um exemplo vivo de uma mulher que sofreu violência na pele e posso e quero ajudar a outras que também passaram por isso”.

Serviço

5º Encontro de Mulheres Remistas

Tema: “Feminicídio. Desafios e recomendações para o enfrentamento da mais extrema violência contra as mulheres”.

Local: sede social do CLUBE DO REMO

Data: 30 de março de 2019

Horário: 17 horas

Acesso ao evento: 1 kg de alimento não perecível.

Inscrições pelo site:  https://www.sympla.com.br/5–encontro-de-mulheres-remistas__474126

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