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Daniela Mercury coloca uma multidão para dançar nas ruas de São Paulo e o nosso amado DJ Zé Pedro conta o que viu lá de cima do trio da rainha má

O mais impressionante foi constatar que durante todo percurso (6 horas!), o repertório foi calcado em sua vasta discografia e nos clássicos da música brasileira. Os hits fajutos imediatistas foram dispensados, comprovando que Daniela é partidária da máxima de Gil: "O povo sabe o que quer mas o povo também quer o que não sabe"

Publicado em 06/03/2017 | Por Junior de Paula

Daniela Mercury coloca uma multidão para dançar nas ruas de São Paulo e o nosso amado DJ Zé Pedro conta o que viu lá de cima do trio da rainha má

(Fotos: AgNews)

*Por Zé Pedro Daniela Mercury foi o primeiro grande fenômeno do mundo do axé. Seu “Swing da Cor” conseguiu ofuscar o brilho dos sertanejos que já tomavam o poder junto do governo Collor. Eu, como DJ, tinha como obrigação de colocar Daniela para incendiar a pista todas noites e via com emoção a música brasileira novamente invadir os clubes depois de anos de exilio a que foi submetida desde a era das discotecas com Frenéticas e Lady Zu. Demorei algum tempo para ver o rosto de tal causadora desse furor e lembro de me surpreender com a imagem de uma menina de cabelos eriçados portando luvas de cores distintas: num braço, azul, no outro, vermelha. Depois é história: um hit atrás do outro, um tapete de glórias estendido pelo Brasil e o título de rainha do Axé. Ao longo dos anos, é claro, surgiram outras vozes vindas da Bahia, novas lideranças em trios elétricos e plateias dispostas a mudanças dentro desse estilo musical. E Daniela manteve sua ideologia musical de honrar a tradição baiana e aproveitar sua popularidade para resgatar antigos sucessos da MPB. Sempre foi cantora de recados. Pode ser uma capa de disco onde aparece abraçada a um negro ainda em tempos de racismo brabo ou clamando por transformações sociológicas e políticas que a tranformaram até em embaixadora da UNICEF. Em 1992, foi convidada a se apresentar no vão livre do MASP e ao indagar o motorista que a conduzia até o lugar do show o por que de tanto engarrafamento e multidão na avenida Paulista, ouviu que era uma nova cantora que ia se apresentar ali. Seu nome: Daniela Mercury. Anos depois, outra provocação: colocar a música eletrônica no Circuito Barra-Ondina. Teve gente para vaiar, povo para aplaudir e ela, obstinada a sempre fazer a diferença, lançando em seguida o álbum “Carnaval Eletrônico” que me levou ao seu encontro junto de vários outros DJs. E subimos em trios, tocamos juntos no Festival de Verão, invadi seu camarote e fui ao seu casamento com Malu Verçosa. Por isso tudo, vê-la desbravar a folia paulista no domingo pós quarta-feira de cinzas, era uma missão de amor pra mim. Marcado para sair às 16hs, cheguei uma hora antes e atravessei um mar de fiéis aglomerados em volta do trio. E, ao subir, me deparei com o coração de São Paulo batendo forte no cruzamento da rua da Consolação com a Avenida Paulista. A cada gesto da rainha má (como deliciosamente se autodenomina hoje), a cada lado escolhido para cantar, o delírio era ensurdecedor e assim fomos ladeira abaixo rumo à Praça Roosevelt. No meio do caminho, o inevitável: as águas de março caíram forte. Toldos se abrem para cobrir equipamentos, banda e convidados, mas….cadê Daniela? Está lá em cima, inundada de chuva, suor e alegria fazendo o público não fugir para casa e, sim, corer para o abraço.

A chuva cai lá fora e ela…..como eu te amo @danielamercury

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O mais impressionante foi constatar que durante todo percurso (6 horas!), o repertório foi calcado em sua vasta discografia e nos clássicos da música brasileira. Os hits fajutos imediatistas foram dispensados, comprovando que Daniela é partidária da máxima de Gil: “O povo sabe o que quer mas o povo também quer o que não sabe”.

Daniela Mercury coloca uma multidão para dançar nas ruas de São Paulo e o nosso amado DJ Zé Pedro conta o que viu lá de cima do trio da rainha má

Zé Pedro, no alto do trio de Daniela, em São Paulo (Foto: Reprodução Instagram)

Às 10 da noite chegamos ao final da jornada, na Praça Roosevelt, onde um milhão de pessoas formaram um grande círculo em torno do trio criando o um grande coro de “Fora Temer!” e “Viva Daniela!”. Missão cumprida. São Paulo cumpriu seu ideal. * Zé Pedro é um artista dedicado à Música Popular Brasileira. Apesar de ser conhecido com um DJ que toca vários estilos musicais, é considerado uma enciclopédia da MPB. Nessa área, ele atua em qualquer esfera de produção de remixes, a publicação de um livro e a inauguração do selo Jóia Moderna, em 2011, que já conta com mais de 20 discos lançados até agora, resgatando o trabalho de cantoras de outras gerações, criando tributos a grandes compositores e lançando novos talentos do pop brasileiro. Mais recentemente criou o Canal da Véia (como ele se refere a todo mundo e a si mesmo) no YouTube, que já é um sucesso.

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