Arte & Literatura

“Meu pai era meu parceiro. O amor transbordava da alma e do corpo dele”, recorda Julia Barreto

A cineasta, filha de Fábio Barreto, fala da morte do pai, há pouco mais de 10 dias; do evento no qual vai estrear como performer hoje, dia 2, segunda-feira, de amadurecimento e dos planos profissionais

Publicado em 02/12/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Brunna Condini

Uma mulher se reconectando com o seu feminino e mergulhando fundo em si mesma. Julia Barreto, cineasta e filha de Fábio Barreto, falecido no dia 20 de novembro, diz que apesar da dor, vê no momento a oportunidade de transformar em arte o que vivenciou nos últimos anos. Tanto, que hoje, segunda-feira (dia 2), será uma das artistas performando no evento Casuarina Meia81, a partir das 21h, na Rua Casuarina, 681, na Fonte da Saudade, Humaitá.

Julia e os momentos felizes com o pai, o cineasta Fábio Barreto (Foto: Arquivo Pessoal)

O evento também contará com apresentações de Aleta Valente (ex miss Febem), da atriz Guta Stresser e do poeta Ricardo Chacal, entre outros. “É um trabalho de pesquisa, neste processo de reconstrução. Teve o acidente do meu pai (o cineasta ficou em coma durante quase 10 anos, após um acidente de carro), me separei do Daniel (Tendler, também cineasta, com quem ficou casada por 13 anos), uns três anos depois. E foi uma crise de identidade. Trabalhava muito com os dois”, lembra Julia. “Passei por um processo de autoconhecimento. Comecei a surfar também, fui me cuidar. Adquiri novos hábitos, fiz terapia, comecei a fazer um diário. E fui escrever e criar essa performance. Nela, faço uma constatação da minha realidade até o momento da decisão de me reconciliar comigo, traçando um panorama da minha trajetória pessoal, do momento da ruptura com a vida até o processo de cura”.

O prazer do surfe no processo de autoconhecimento (Foto: Arquivo Pessoal)

Em entrevista exclusiva ao site Heloisa Tolipan, Júlia, 40 anos, fala sobre sua relação com o pai, dos filhos Caetano, 13 anos, e Olivia, 10, e também, dos projetos, que incluem fazer muito cinema. “Quem me criou foi meu pai”, revela a artista que é filha da união de Fábio com Márcia Ramalho. “Por volta dos 10 anos, fui estudar teatro. Depois, entrei na produção de cinema. Mas sempre estive nos sets do meu pai, até para estar ao lado dele. Agora, me descobri escrevendo e quero escrever para cinema. Já roteirizei um curta. Meus avós (os produtores Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto), são responsáveis por isso, me incentivam muito neste novo ciclo. Aliás, sempre me incentivaram”.

O momento carinhoso entre mãe e filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Julia fala de forma aberta e corajosa sobre o período de crise pessoal e recomeço. “Foi um período muito difícil. Fiquei sem pai, sem marido. Fazia tudo com meu ex-marido, trabalhava em teatro, cinema. Já tem seis anos que nos separamos e foi uma grande ruptura. Perdi totalmente minha identidade. Cheguei a 120kg. Minha família me abraçou totalmente. Me ajudou a me entender. Depois fui trabalhar na produtora com meus avós, fiz uma viagem e recebi todo apoio deles parar continuar minha trajetória”, divide. “Há dois anos, comecei a surfar para reforçar essa tomada de decisão, de mudança. Acordo todo dia às 6h, faço meus exercícios. É um processo. Se não surfo, caminho. Não bebo, me alimento melhor, estou numa vibe mais saudável. Me cuido. E tudo muda, por dentro e por fora”.

O mergulho em novos rumos na vida (Foto: Arquivo Pessoal)

Do pai, Fábio Barreto – que também tinha Mariana, da união com a atriz Dora Pellegrino, Lucas, 19, que mora na Espanha com a mãe, Amanda, e João, de 13 anos, com Deborah Kalume – Julia diz sentir muita falta e guarda como seu maior legado: o amor. “Ele era uma pessoa alegre, extrovertida, que ficou quase 10 anos em coma. É um sofrimento grande perdê-lo e atroz para os meus avós perderem o filho, mas ele, enfim, descansou”, diz Julia. “Meu pai sempre foi muito presente para mim, mas meus filhos não puderam conviver com ele como eu gostaria. Olivia nasceu e logo depois ele teve o acidente. E o Caetano conviveu com ele só pequeno. Meu pai era muito família. Depois que casei me levava café e jornal quase todo dia. Quando tive a notícia da morte dele, tinha estado no hospital de manhã e estava saindo do cinema com minha filha. Meus filhos são muito parceiros, ficaram preocupados em como eu ia me sentir e sabiam da minha ligação com o avô”.

E emociona quando fala do que aprendeu com o pai e vai carregar para sempre. “Ele era meu parceiro. Eu e ele somos espontâneos. Gostamos de estar com as pessoas, somos curiosos. Ele era. Quando eu sentia uma dor, por exemplo, ele sentava ao meu lado, ouvíamos uma música, conversávamos e ele perguntava se tinha melhorado. Era atento, carinhoso. O amor transbordava da alma e do corpo dele e ele era grande, então imagina”, recorda. “Não julgava ninguém e era atencioso. Recebia as pessoas de braços abertos. É louco, mas parece que quando me senti mais forte e segura, preparada, ele se foi”.

Julia Barreto e seu recomeço (Foto: Arquivo Pessoal)

Mais do que o DNA de cinema dos Barreto, que fala alto, Julia sabe o que deseja falar através da sua arte hoje. “Vou dirigir o documentário “Icamiabas”, com Maha Sati. É uma imersão no feminismo ancestral”, conta. A Maha Sati fez uma viagem para o Pará e conheceu indígenas em Alter do Chão. E me propôs falar sobre isso no Pará, que tem muitas tribos lideradas por mulheres, e têm artistas de representatividade, como a Gaby Amarantos, a Dona Onete. Então propus falar sobre o feminino. É uma história linda, importante de ser contada. E pessoalmente, posso dizer que cresci cercada por homens, então fazer esse filme também vai me ajudar a me reconectar com o meu feminino. Nesta de reaprender a ser mulher, sem briga com isso. Sendo feminista, mas sem o lado combativo. Disse para Maha: ‘Vamos para as aldeias, comunidades, vamos observar essas lideranças femininas”.

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E Julia anuncia: É um momento superativo. Também estou produzindo o filme dos 25 anos da Cia Deborah Colker. E vou produzir a primeira peça da Antonia Pellegrino. Além de estar desenvolvendo meus textos. Quem sabe vem uma peça? Um livro de crônicas? Quem sabe ?”.

 

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