*Por Brunna Condini
Cinquenta anos após transformar para sempre a história do cinema brasileiro, Zezé Motta reencontra ‘Xica da Silva’ não apenas como a protagonista de um clássico, mas como a mulher que ajudou a reescrever o lugar da atriz negra no audiovisual nacional. Lançado originalmente em 1976, o longa de Cacá Diegues (1940-2025) retorna às salas de cinema para celebrar 50 anos de um legado que segue vivo, provocando debates sobre representatividade, racismo, protagonismo feminino e a força de uma obra que atravessou gerações sem perder sua potência. “É impossível não me emocionar. ‘Xica da Silva’ mudou a minha vida para sempre. Foi o filme que me apresentou ao Brasil e ao mundo e me deu a oportunidade de construir uma carreira de mais de 60 anos na arte. Quando revejo aquela jovem de 32 anos, enxergo uma mulher muito corajosa, embora ela mesma ainda não soubesse disso. Estava vivendo tudo pela primeira vez, sem imaginar a dimensão que aquele filme teria na história do cinema brasileiro e na representatividade da população negra”.
Aos 82 anos, celebrando o retorno do filme à telona e de volta às novelas em ‘A Nobreza do Amor’, trama das seis da Globo, a atriz falou ao site sobre legado, etarismo, representatividade e liberdade. Aqui, ela revisita a personagem que mudou sua trajetória, reconhece os avanços conquistados pelo movimento negro, defende oportunidades reais para artistas de todas as idades e revela que continua movida pela mesma inquietação que a acompanha há décadas.
A curiosidade continua sendo o que me move. Acho que o artista envelhece de verdade quando perde a vontade de aprender, de experimentar e de se desafiar. Enquanto eu tiver essa inquietação, vou continuar trabalhando. Ainda sonho em fazer uma grande vilã, uma mulher poderosa, cheia de contradições. Acho que o público também merece me ver em lugares diferentes – Zezé Motta

Aos 82 anos, Zezé Motta celebra os 50 anos de Xica da Silva e reafirma: “A arte não tem prazo de validade” (Foto: Juliano Simões)
Representatividade além da presença
Meio século depois de dar vida a uma das personagens mais emblemáticas do cinema brasileiro, Zezé reconhece os avanços conquistados pela população negra no audiovisual. Mas ressalta que a verdadeira transformação ainda depende de mudanças estruturais e da ampliação dos espaços de decisão. “Hoje vemos muito mais atores e atrizes negros protagonizando filmes, novelas e séries, ocupando espaços que antes eram praticamente inacessíveis. Também existe uma consciência muito maior sobre a importância da representatividade, tanto na frente quanto atrás das câmeras. Mas ainda há um longo caminho pela frente. Representatividade não é apenas estar presente, é ter personagens complexos, com histórias, sonhos, contradições e humanidade. Ainda precisamos ampliar a presença de pessoas negras nos espaços de decisão, na direção, nos roteiros, na produção e nos cargos de liderança da indústria audiovisual”, observa.
“Outra batalha que continua é contra os estereótipos. Durante muito tempo, nós fomos limitados a determinados tipos de personagens. Felizmente isso vem mudando, mas ainda acontece. Eu mesma, depois de tantos anos de carreira, decidi que alguns papéis não quero mais repetir. Acho importante que uma atriz de 82 anos também possa interpretar uma empresária, uma política, uma vilã, uma mulher apaixonada ou qualquer outra personagem que fuja do lugar comum”, completa Zezé.
Sou otimista. Quando olho para trás e vejo o Brasil de 1976 e comparo com o de hoje, percebo avanços importantes. Mas também sei que nenhuma conquista é definitiva. A igualdade precisa ser construída todos os dias, com oportunidades reais e com a certeza de que talento não tem cor, idade ou gênero – Zezé Motta

“Acho importante que uma atriz de 82 anos também possa interpretar uma empresária, uma política, uma vilã ou qualquer personagem que fuja do lugar comum” (Foto: Juliano Simões)
“A maturidade me trouxe liberdade”
Zezé afirma que envelhecer significou ganhar autonomia para escolher os próprios caminhos, e acredita que a experiência ampliou seu repertório como atriz e como mulher. “A maturidade me trouxe liberdade. Hoje eu me conheço muito melhor, sei dizer ‘sim’ e, principalmente, aprendi a dizer ‘não’. Isso faz toda a diferença. Depois de tantos anos de carreira, posso escolher projetos que realmente façam sentido para mim e que me desafiem como artista. Também acho que a idade me deu algo que nenhuma escola ensina: repertório de vida. Tudo o que vivi, as alegrias, as dores, as conquistas e as lutas acabam aparecendo em cena. Isso dá uma profundidade diferente às personagens”. E acrescenta ainda:
As pessoas idosas continuam trabalhando, amando, criando, sonhando e têm muito a contribuir. O audiovisual precisa refletir essa realidade. Tenho muito orgulho de perceber que hoje o meu público é formado por várias gerações. Há quem me conheça por ‘Xica da Silva’, outros pelas novelas, pelo teatro, pela música, e mais recentemente, pelas redes sociais. Isso me mostra que a arte não tem prazo de validade. Enquanto eu tiver saúde, curiosidade e vontade de trabalhar, vou continuar me reinventando – Zezé Motta

‘A igualdade precisa ser construída todos os dias, com oportunidades reais e com a certeza de que talento não tem cor, idade ou gênero” (Foto: Bia Prexl)
A arte como instrumento de transformação
Ao falar sobre as causas pelas quais ainda gostaria de ver a cultura brasileira lutar, Zezé amplia o debate para além da representatividade racial e inclui diversidade, etarismo e valorização da cultura. “Gostaria de ver a arte brasileira continuar lutando por inclusão, mas de uma forma cada vez mais profunda. Não basta apenas abrir espaço. É preciso garantir permanência, oportunidades e respeito. Ainda precisamos ver mais mulheres, pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência e artistas LGBTQIA+ ocupando todos os espaços, não apenas como personagens, mas escrevendo, dirigindo, produzindo e tomando decisões. E existe uma outra causa que considero fundamental: a valorização da cultura brasileira. Temos uma riqueza imensa de histórias, personagens e artistas que ainda são pouco conhecidos pelo próprio país. Contá-las também é uma forma de fortalecer a nossa identidade”.
Desejo que a arte continue combatendo o etarismo. Parece que existe uma ideia de que a vida acaba depois de uma certa idade, quando, na verdade, ela apenas ganha novas camadas. As pessoas idosas continuam amando, trabalhando, criando, sonhando e vivendo grandes histórias. Isso também precisa estar nas telas – Zezé Motta

“As pessoas idosas continuam trabalhando, amando, criando, sonhando e têm muito a contribuir. O audiovisual precisa refletir essa realidade” (Foto: Bia Prexl)
Ao olhar para a jovem atriz que protagonizou ‘Xica da Silva’, Zezé diz que lhe daria um conselho simples: não ter medo. E diria mais: “Você ainda vai enfrentar muitos obstáculos, muitas portas fechadas e momentos em que vão tentar fazer você duvidar do seu talento. Mas continue. Essa personagem (Xica) vai mudar sua vida para sempre, embora nem tudo vá acontecer com a rapidez ou da forma que você imagina. Você vai construir uma carreira longa, que vai atravessar gerações, vai fazer cinema, televisão, teatro e música, e vai continuar trabalhando e sonhando aos 82 anos. Vai se tornar uma mulher ainda mais consciente do seu lugar no mundo, comprometida com a luta contra o racismo e com a abertura de caminhos para quem vier depois. Sua voz terá importância não apenas como artista, mas também como cidadã”. E diria uma última coisa:
Tenha orgulho de você. Você ainda não sabe, mas aquela jovem de 32 anos será muito mais forte do que imagina. E, cinquenta anos depois, ainda estará aqui, com curiosidade, coragem e vontade de viver novas histórias – Zezé Motta
Se o passado é motivo de celebração, o futuro continua sendo território de desejos e novos desafios. Longe de pensar em desacelerar, Zezé já planeja os próximos passos da carreira: “Depois da novela, quero me dedicar ao meu novo trabalho na música, ensaiar meu show novo, gravar um disco, e tenho duas propostas de filmes para fazer”.

“Desejo que a arte continue combatendo o etarismo. Existe uma ideia de que a vida acaba após uma certa idade, quando, na verdade, ela apenas ganha novas camadas” (Foto: Bia Prexl)
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