*por Vítor Antunes
Não há meias palavras ou melindres. Não. De modo algum. Não há espaço para respiro poético ou divagativo. Conversar com Waguinho é estar diante de um profissional polêmico. Mas não se pode dizer que não é sincero. O apresentador da Band está à frente do programa “A Voz do Rio“, depois de uma ruidosa saída da Record. “Eu não tenho problema com a minha antiga casa, mas com a sua nova gestão. A antiga me permitia trabalhar bem e com liberdade”, diz. Há menos de um ano na Band – a emissora ocupa o quarto lugar na média entre as principais no Rio -, Waguinho diz que há, por óbvio, uma luta por uma boa audiência, mas que esta não é uma condição sufocante: “Na Record, a gente tinha uma briga constante por audiência e por melhores resultados, tanto que fiquei 3 anos e 11 meses na vice-liderança absoluta. Agora, na Band, há um público menor do que nos outros horários”.
Tenho consciência de que a Band tem uma realidade de audiência diferente, pelo menos no Rio de Janeiro – e todo mundo sabe disso. Mas a própria emissora me tranquilizou: “Essa é a realidade da Band, seja feliz, faça o seu melhor, dê o seu melhor, e o resto, o crescimento da audiência, é consequência, é com o tempo.” Não há cobranças sobre mim, e a TV tem um apresentador feliz, uma equipe feliz e, por consequência, um ambiente mais gostoso de se trabalhar. O que eu acredito e pratico todos os dias é dar o meu melhor. E isso independe da audiência. Sou só gratidão” – Waguinho.
Filho do comunicador Wagner Montes (1954-2019) – assim como o ator Diego Montez, com quem o site Heloísa Tolipan já conversou –, Waguinho tem o mesmo nome que seu pai, mas não o usa como assinatura. Não nega sua ascendência, mas conquistou sua independência – ainda que seja muito parecido com o pai. “Fui me aproximar do meu pai aos 21 anos, fisicamente falando, de forma mais intensa. Antes disso, eu era outro Waguinho, que morava em Marechal Hermes e tentava tirar uma grana lavando carro, aos 14 anos. Vendi propaganda, trabalhei em ônibus, vendi carro, roupa… Fiz de tudo. As pessoas achavam que, por ter um pai famoso e muito rico, as coisas seriam mais fáceis. Cheguei até a ser chamado de bastardo. Fui criado pelos meus avós, porque meus pais trabalhavam muito. E não fiquei revoltado por isso, pelo contrário.”
Quando eu fui escolher o nome de trabalho, eu falei: ‘Não, eu quero que gostem de mim por quem eu sou, não pelo nome que eu carrego ou pela fama’ Prova disso é que eu escolhi Waguinho e comecei uma nova história. Tenho muito orgulho de dar continuidade ao legado do meu pai. Tenho muito orgulho de carregar o nome Wagner Montes. E, apesar de ele não estar mais aqui, toda essa minha preocupação com o morador, essa indignação, é muito dele também. E Wagner Montes só tem um. Se eu for 10% do que meu pai foi, eu já estou muito feliz” – Waguinho
Candidato a vereador pelo Rio de Janeiro em 2012, Waguinho revisita sua passagem neste lado da política e pondera se voltaria a uma candidatura a cargo público. “Eu teria sido eleito se não houvesse me candidatado pelo PRB (atual Republicanos). Entraria em qualquer outro partido, só não entrei porque eu estava no partido da Record. Resumindo, eu agradeço [por não ter sido eleito]. Talvez seria uma maneira de se acomodar, por que eu seria só político. Deus e a vida acabaram se encarregando de me levarem à TV. Se for para voltar para a política, não vou ser só mais um. Quero ser um instrumento a ser usado a favor do povo. Hoje eu não vejo qualquer impedimento”.
Se eu tiver liberdade para ser mais um braço batendo na sacanagem, eu faço questão de entrar. Se não, não. Se for do agrado da emissora, ótimo. Se houver algum fator impeditivo, não vou. Minha prioridade é a comunicação. Mas se eu disser que eu não viria em nenhuma hipótese, estaria mentindo – Waguinho
Waguinho, porém, já esteve no Politikfabrik – ou seja, na engrenagem da política -, quando seu pai era deputado. Desde então, passou a não temer a política: “Quando você é correto, quando você não deve nada a ninguém e quando você tem as costas quentes como eu tinha com meu pai, você bate de frente com a sacanagem sem se preocupar. E já dizia meu pai no passado: a gente vale, infelizmente, o mal que a gente pode fazer. Faz o que tiver que fazer, faz o certo e, enquanto você estiver certo, eu estou do teu lado. Com ele do meu lado, eu bati de frente com todo mundo”.

Waguinho apresenta “A Voz do Rio”, na Band carioca (Foto: Divulgação)
PROPRIEDADE
Com tanta personalidade, Waguinho diz não temer o cancelamento, a perseguição ou ter que diminuir a intensidade de suas críticas e análises sobre política. “Estou há 5 anos batendo de frente com o sistema. Em todas as escalas, em todas as áreas, do alto escalão ao vagabundo. Não me preocupo com o cancelamento. No dia em que eu tiver, por medo de vagabundo, que tirar o pé do acelerador, eu largo a minha profissão. Porque o que me dá tesão é defender o que eu acredito, defender os valores que eu aprendi dentro de casa e buscar mantê-los vivos. Vejo que estes valores estão se perdendo com o tempo. Não tenho qualquer preocupação nem com cancelamento, nem com bandido, nem com retaliação, nem com nada disso. A minha preocupação é a hora de eu chegar em casa, deitar a cabeça no travesseiro, olhar para minha família e sentir que da não vem qualquer tipo de movimentação em relação a desgosto, decepção ou vergonha. Só isso. O resto é tiro, porrada e bomba”.
E ele prossegue: “Acho que o bom jornalista é aquele que para a fim de aprender e ouvir. Eu paro para conversar com os policiais sempre que tenho oportunidade, visito batalhão, visito delegacia. Quando tenho oportunidade, paro para conversar com as pessoas na rua, frequento comunidade. Tenho propriedade de conhecimento e não consigo ficar só dentro do estúdio me achando o certo. É o dia a dia, importa a empatia, é amor e cuidado com o próximo, especialmente quando você conhece a realidade. Por exemplo, eu sou um dos pouquíssimos apresentadores que, mesmo correndo o risco de ser cancelado, contesto quando alguém grita que, ao chegar alguém baleado numa comunidade, foi a polícia quem atirou. Não. Se foi durante uma operação e não se comprovou nada contra a polícia, o morador se sente desconfortável em confirmar que foi um vagabundo. Isso não implica que eles sejam coniventes, mas sim, reféns da situação. Eles não têm que bater de frente com o criminoso, porque vão sofrer retaliação. Quem tem que fazer isso é o Estado”.
De toda maneira, eu defendo a polícia, contanto que ela seja boa, quer seja militar, civil ou federal. Aquela força que é usada para livrar a gente do mal, eu vou estar defendendo, e cobrando os maus policiais. Eu não defendo para agradar, eu defendo aqueles que eu acho que fazem um trabalho bacana, aqueles que merecem. Então, assim, isso torna o trabalho muito mais tranquilo e, naturalmente, as pessoas recebem essa verdade. Tanto é que eu recebo pouquíssimas mensagens mal-educadas. E eu estou no ar há 5 anos. Eu não tenho um processo. Se tem alguém que bate de frente com a coisa errada na TV, sou eu” – Waguinho.

Waguinho é o apresentador polêmico de “A Voz do Rio”, na Band (Foto: Alexandre Araujo)
Diante de um tema altamente discutido hoje – o do uso das câmeras na farda dos policiais -, Waguinho é tácito: “Toda e qualquer tecnologia a favor do povo é super válida. Mas a gente vive num país que depende de uma atualização das leis. O nosso problema é quase que cultural. Enquanto as leis não mudarem, a câmera vai servir única e exclusivamente para acuar os policiais. Especialmente se, numa situação-limite, a câmera não flagrar todo o cenário e o contexto da cena do crime, nem mesmo todos os registros em áudio. O que eu quero dizer é que o criminoso hoje é muito bem orientado quanto às brechas da lei. A gente precisa deixar a polícia ser polícia. E, claro, não estou, com isso, apoiando o excesso, a ilegalidade, o abuso de autoridade, pelo contrário. Mas o Estado tem que se fazer presente. O país precisa evoluir muito para situações assim”.
A democracia só funciona com o vagabundo. O vagabundo mata o policial e sobe na hierarquia. Se a polícia mata o vagabundo, ela é punida” – Waguinho.
Sobre a profissão, Waguinho acredita que tem um papel fundamental no debate da questão social. Tanto que, segundo ele, não há notícia que ele se negue a cobrir. “Eu já faço o que sonhava fazer. Eu era repórter, sonhava ser apresentador e virei apresentador. A única coisa que eu espero realmente é ter mais espaço na casa, buscar talvez uma possibilidade de um horário melhor ou maior. Mas reconheço que a Band me dá uma liberdade maior do que eu mereço. Eles permitem que eu seja eu, que eu defenda o que acredito. Eles não ficam me podando em nada. Eles confiam no meu bom senso e desejo que este ano seja muito melhor do que o passado e pior do que o ano que vem”.

Waguinho defende que as Leis devem sermudadas para garantir a eficácia das câmeras nas fardas (Foto: Alexandre Araújo)
Fora isso, o comunicador se sente confortável na Super Rádio Tupi e apresentando um programa nas duas casas. “O rádio é mais dinâmico e me permite mais interação, é mais imediato. Lá, tenho a chance de fazer menos notícia e mais entretenimento, de modo que consigo navegar pelos dois caminhos com uma tranquilidade muito bacana, e isso me deixa muito feliz”.
Ser um comunicador popular tem como missão mudar a vida de uma pessoa, para o bem ou para o mal. Somos referência e as pessoas se espelham em nós por sermos formadores de opinião. Somos influentes e não influencers. O meu argumento faz a minha credibilidade, o meu conhecimento faz a minha credibilidade, e a minha verdade faz a minha credibilidade” – Waguinho.”

Waguinho: “Ser um comunicador popular é o que transforma a vida de uma pessoa” (Foto: Alexandre Araujo)
RAÍZES
Não é segredo para ninguém que a palavra “escracha” era um bordão de Wagner Montes. Por muito tempo, acharam que o filho imitava o pai. Waguinho conta como era a relação dos dois: “Eu não fui criado com meu pai. E o que mais dificultou a nossa aproximação era exatamente eu ser muito parecido com ele. Porque eu sou um cara vaidoso, assim como ele, e tenho opinião forte, como ele. É aquela história dos dois bicudos que não se beijam. O afastamento foi único e exclusivamente por conta de trabalho. Fui criado pelos meus avós em Marechal Hermes. Depois, eu fui para São Paulo, fiquei 6 anos, voltei para o Rio. Quando fui para São Paulo, morei com a minha mãe (a ex-miss Brasil Mundo Cátia Pedrosa [1963-2018]), fiquei um pouco mais perto do meu pai, mas é aquela história de família separada. Apesar da Sônia Lima, minha madrasta, sempre ter me tratado como filho, era ela quem tentava manter a gente por perto, sempre tentando juntar a família. Mas a gente sabe que a correria da vida deles era muito grande. Na época, ficava chateado com o distanciamento, mas também entendia que eles estavam fazendo por mim. Então, eu não podia reclamar. Eu ficava triste, como qualquer criança. Inclusive, cheguei a ser chamado de bastardo”.
Eu celebro o fato de ter sido criado no subúrbio do Rio, ter tido uma infância raiz. Pipa, bolinha de gude, futebol de madrugada, beijo na boca, saliência na rua… Sou muito grato a isso. Tudo isso fez parte do processo. Hoje, claro, mais maduro, eu entendo com mais tranquilidade isso e trago para mim. Eu olho com gratidão” – Waguinho.
O apresentador compartilha sua visão sobre a paternidade e a importância de estar presente na vida do filho, destacando os desafios e responsabilidades desse papel: “Eu sou um cara feliz para cacete, é o que eu falo para meu filho. ‘Sou o teu maior fã, eu vou ser o teu maior investidor, eu vou ser o maior comercial teu para arrumar patrocínio, eu vou usar todo o meu conhecimento para te botar na seleção brasileira. Desde que eu veja que você está feliz. Se ele falar: “Eu quero ser jornalista”. Maravilha! O que posso fazer por ele? Estar mais perto, mostrar a ele a realidade, pois a dele é diferente da minha. Dou tudo para o meu filho. Ele tem uma vida de príncipe, graças a Deus. Eu não estou substituindo o meu amor pelo dinheiro. Estou dando tudo que posso, mas estando perto para que ele entenda o valor daquilo. Preço é diferente de valor. Não existe regra. Se existisse, não haveria terapeuta. Não haveria depressão. Eu digo a ele: “O que você escolher, eu estarei ao seu lado. Farei tudo por você, porque você é merecedor”‘.
À frente do programa “A Voz do Rio“, Waguinho destaca a importância de dar espaço à população e permitir que sua voz seja ouvida. Para ele, a voz real do Rio é a do povo. “Quando eu digo que sou a voz do Rio, é porque quero, de fato, ser o megafone do povo. O povo participa, comenta, manda fotos. A ideia do programa sempre foi essa: abrir espaço para que o povo fale. A única coisa que quero é fazer jus à confiança do público, da emissora, do que amo e defendo. O resto é consequência. Fico muito feliz em saber que as pessoas me enxergam dessa forma, como acessível, como popular. Meu programa é o megafone”.
Waguinho não se furta ao embate, tampouco se rende ao silêncio confortável. Carrega na voz o peso da indignação e no peito o ímpeto de quem nasceu para comunicar. Seu caminho, pavimentado por histórias de luta, independência e identidade, não se limita à audiência – é traçado pela autenticidade. Entre o passado que molda e o futuro que se desenha, segue firme, microfone em punho, sem freios na fala e sem medo de ser quem é. Se a comunicação é sua trincheira, a verdade é sua munição.
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