Virgínia Cavendish conclui Mestrado na USP, produz documentário sobre atrizes 70+ e revela se volta às novelas


Após concluir o mestrado em teatro, Virgínia lança um documentário sobre atrizes. “Meu objetivo era compreender como cada artista enfrenta desafios ao longo da carreira, como lidam com rejeições, machismo, etarismo e fazem um balanço entre sucessos e fracassos. A atriz e produtora enfatiza a escassez de oportunidades para mulheres maduras. Analisa ainda como os jovens estão mergulhando nas artes: “Percebo que falta estudo, falta aprofundamento na história. O mundo está muito superficial, muito descartável. Para desenvolver qualquer coisa é preciso ir além da superfície, cavar fundo, buscar as pedras preciosas escondidas. Nem todo mundo tem essa vontade ou essa capacidade”

*por Vítor Antunes

Ela é uma mulher nordestina que em poucas vezes viveu suas conterrâneas. É, também, uma atriz que dedicou sua vida a um olhar para dentro, do teatro. Virgínia Cavendish revisita sua carreira como uma pensadora de seu ofício, tanto que concluiu o Mestrado, na USP, em História do Teatro – e lançará um documentário no qual as atrizes 70+ são protagonistas: “O Segredo Delas“, que estreia no dia 27 de março na plataforma do Itaú Cultural. “Esta é uma série que produzi e levou quase três anos para ser concluída, pois foi realizada de maneira artesanal em parceria com Daguito Rodrigues. Criamos 10 episódios sobre processos criativos de atores veteranos, mapeando diferentes regiões do Brasil.

Meu objetivo era compreender como cada artista enfrenta desafios ao longo da carreira, como lidam com rejeições, machismo, etarismo e fazem um balanço entre sucessos e fracassos. Entrevistei Joana Afonso, Zezé Motta, Ana Lúcia Torre, Sueli Franco, Walderez de Barros, Miriam Mehler e Zezita Matos, de João Pessoa, considerada uma das grandes damas do teatro paraibano. O projeto aborda conversas com atrizes de diferentes gerações sobre processo criativo e carreira – Virginia Cavendish

Virgínia Cavendish faz série sobre atrizes 70+ e discute o papel das atrizes na TV (Foto: Laura Campanella)

Embora a televisão tenha sido palco de momentos marcantes em sua carreira, Virginia hoje trilha caminhos que lhe permitem maior liberdade artística. Seu último trabalho completo em novelas foi “Gênesis”, na Record, e seu retorno ao formato, embora possível, não está entre seus planos imediatos. “Durante um período, estive contratada pela TV Globo, participando de ‘Malhação’ e de produções na HBO, mas percebi que aquilo não era suficiente para mim. Queria diversificar minha carreira, o que me levou a dividir minha rotina entre Rio de Janeiro e São Paulo, conciliando gravações com meu curso de teatro. Era uma rotina intensa, atravessando a ponte aérea três vezes por semana para conciliar todos os compromissos”.

Novela exige muito do ator, pois seu ritmo de produção é intenso e envolve longas horas de gravação. Prefiro projetos que me permitam mais autonomia, como séries. Recentemente, participei de ‘Vida Secreta dos Casais’ e da série ‘Ponte para Lá’, ambas muito bem avaliadas. Séries possuem um ritmo ágil e possibilitam desenvolver personagens que criam conexão com o público – Virgínia Cavendish

Agora, Virginia Cavendish se reinventa mais uma vez, abraçando o papel de acadêmica do saber teatral. Seu desejo de aprofundar-se na pesquisa a levou a realizar um mestrado na USP, uma decisão que amadureceu ao longo dos anos e encontrou terreno fértil durante a pandemia. “Eu sempre quis fazer mestrado, a vida inteira e já tinha vindo algumas vezes à USP enquanto morava no Rio, mas nunca me decidia. Sempre havia os trabalhos, o Rio, outras questões. Durante a pandemia, decidi. Meu primeiro passo foi estudar ‘Hedda Gabler‘ no Brasil, analisando atrizes empresárias que interpretaram a personagem: Dina Sfat (1938-1989) , Nydia Lícia (1926-2015) e eu. A primeira vez que Hedda Gabler foi encenada no Brasil foi com Eleonora Duse (1858-1924), uma atriz italiana que, na época, era considerada a melhor do mundo e a maior intérprete de Ibsen. Temos uma história artística muito rica no teatro, e é fundamental conhecê-la. Essas mulheres foram minha linha de pesquisa, e há coincidências interessantes, como o fato de todas as atrizes das montagens estarem separadas de seus parceiros. Dina Sfat estava separada de Paulo José (1937-2021), Nydia Lícia de Sérgio Cardoso (1925-1972), e eu, por acaso, estava separada de Guel Arraes. São mulheres que, acima de tudo, se empresariaram”.

MULHERIDADE

Uma das queixas recorrentes entre atrizes é a escassez de papeis para mulheres maduras, o que resulta na falta de convites para trabalhar. Diante desse cenário, muitas acabam afastadas do mercado, enquanto outras, como Virginia, tomam a iniciativa de criar oportunidades para si mesmas. Ela reflete sobre a maturidade feminina na profissão de atriz e a necessidade de autonomia na carreira: “Sou criadora e idealizadora dos meus projetos, não dependo exclusivamente de terceiros para trabalhar. Imagino-me como uma atriz de 50 anos que continua em movimento. Recentemente, participei do ‘Auto da Compadecida‘, produzi uma série sobre a profissão de atriz, desenvolvi um projeto teatral e estou envolvida em novos trabalhos no cinema.

O mais importante para o artista brasileiro é encontrar maneiras de se desenvolver artisticamente ao longo da carreira. Se um ator espera apenas convites, sem investir no próprio talento e capacidades, dificilmente avança – Virginia Cavendish

E ela prossegue: “Fernanda Montenegro sempre produziu suas peças e desenhou a própria trajetória, escolhendo os personagens que queria interpretar para evoluir como atriz. Segui esse exemplo. Tenho vocação para produção, o que não me sobrecarrega, pois sei lidar com a parte prática do trabalho. Além disso, minha mente está sempre fervilhando de ideias. Tenho mais projetos do que capacidade para realizá-los, então preciso escolher bem. Gosto muito de pensar na equipe, coordenar uma estrutura que emprega bons profissionais e leva a uma nova jornada artística. Foi assim com o filme ‘Lisbela e o Prisioneiro‘. É gratificante montar essa engrenagem, ver cada peça se encaixar e acompanhar o processo até que tudo ganhe forma”.

O teatro é um espaço de experimentação. O que me move a produzir uma peça é a excelência do texto. É preciso estar sempre estudando e se dedicando para honrar textos brilhantes, buscando alcançar sua grandeza – Virgínia Cavendish

A mulher precisa ser autônoma em suas produções artísticas, segundo Virgínia Cavendish (Foto: Bruna Castanheira)

“SOL ESCANDANTE, TERRA POEIRENTA”. AINDA?

Virgínia lança um olhar sobre a o que é ser uma atriz nordestina no Brasil. “Sou nordestina, mas não correspondo ao estereótipo que geralmente se busca na televisão. Quando sou escalada para novelas, séries ou filmes, geralmente interpreto personagens que não possuem a identidade nordestina, salvo exceções, como ‘Auto da Compadecida‘ e ‘Lisbela e o Prisioneiro‘. Os grandes meios de comunicação tendem a reproduzir estereótipos já estabelecidos. Especialmente quando o projeto não é elaborado por pessoas da região. “Acho que quando é feito por nordestinos, há maior cuidado. Quando não, ainda fica um pouco caricato. Mas, quando há uma interpretação externa, me incomoda um pouco. O Brasil é um país continental, com uma diversidade gigantesca”.

Talvez as histórias devam ser contadas por quem as vive, mas não acredito que isso deva ser uma regra. Como artista, não quero interpretar apenas personagens semelhantes a mim. Gosto de desafios que me façam compreender o outro. Ao mesmo tempo, compreendo que isso é uma contradição, pois o crescimento vem justamente da compreensão do diferente. É assim que expandimos nossa alma, nosso espírito e nossa sabedoria – Virgínia Cavendish

No cenário encantado das novelas brasileiras, poucos folhetins possuem o brilho atemporal de “O Cravo e a Rosa“. A trama de Walcyr Carrasco, inspirada em “A Megera Domada“, de Shakespeare (1564- 1616), conquistou o público desde sua estreia em 2000 e segue arrebatando corações a cada reprise. Entre seus personagens inesquecíveis, a atriz deu vida a uma das sufragistas, Bárbara,  personagem que, segundo ela, ressoava profundamente com sua própria trajetória. “Em ‘O Cravo e a Rosa‘, interpretei um papel que se alinha com minha luta pessoal. A personagem teve muito sucesso, assim como a interpretada por Carla Daniel. Elas eram modernas para a época e terminaram a trama dividindo o mesmo namorado. Foi um papel muito gratificante, diferente de tudo que eu havia feito. A novela, desde sua exibição original em 2000, continua sendo um fenômeno de audiência, reprisada inúmeras vezes”.

Voltar às novelas não está nos planos de Virgínia (Foto: Bruna Castanheira)

Mas, se há um papel que Virginia desempenha com orgulho e emoção, é o de mãe. Sua filha, Luisa Arraes, fruto de seu relacionamento com o cineasta Guel Arraes, seguiu seus passos artísticos e trilha uma trajetória de destaque na dramaturgia brasileira. “Luisa participou de ‘Lisbela e o Prisioneiro‘ e de ‘Auto da Compadecida‘, ainda muito pequena. Ela sempre esteve envolvida em nossos trabalhos e tem grande vocação e talento, além de uma capacidade produtiva e criativa muito desenvolvida. É uma líder nata, capaz de mobilizar pessoas e concretizar projetos. Admiro imensamente sua trajetória, sua intensidade e profundidade como artista”.

Um sucesso de Virgínia na TV foi “O Cravo e a Rosa”, na Globo, em 2000 (Foto: Bruna Castanheira)

Essa busca pelo conhecimento a leva a refletir sobre as novas gerações e sua relação com o teatro: “É difícil falar porque meu contato se restringe às pessoas com quem convivo no teatro, que são jovens, mas percebo que falta estudo, falta aprofundamento na história. O mundo está muito superficial, muito descartável. Para desenvolver qualquer coisa é preciso ir além da superfície, cavar fundo, buscar as pedras preciosas escondidas. Nem todo mundo tem essa vontade ou essa capacidade. Hoje em dia, há a necessidade de criar conteúdo para as redes sociais. Agora, cada um tem sua própria TV, sua voz. Mas, ao mesmo tempo, corre-se o risco de se tornar prisioneiro disso e trabalhar apenas para conquistar um público que, em breve, pode se dissolver”.

Virgínia Cavendish pode ser vista no spin-off de “O Auto da Compadecida” (foto: Laura Campanella)

Diante das mudanças culturais e políticas, a atriz observa com preocupação o mundo ao seu redor. “Está muito perigoso. A corda está tensionada demais. Há uma onda de extrema-direita e os Estados Unidos pioraram ainda mais a situação. Não sei se é um fenômeno cíclico, mas vejo o impacto das mudanças climáticas, o número de mortes causadas por chuvas e a destruição ambiental. Mais do que uma profissão, precisamos tomar consciência do que estamos vivendo. Isso me angustia muito. As pessoas estão cada vez mais fechadas, impacientes e intolerantes com as diferenças. Vivemos em um mundo com diversas populações, religiões e culturas, e isso deveria ser motivo de respeito e aprendizado”.

ARMORIAL

Por fim, Virgínia ressalta a importância de conhecer a obra de Ariano Suassuna (1927-2014), que costurou muito de sua carreira. “Ariano foi um dos maiores dramaturgos da história do nosso país. Ele retratou o povo nordestino e o povo pobre com empatia e beleza. ‘O Auto da Compadecida’, por exemplo, fala sobre dois pobres, mas de forma lírica. O que vale na vida não é o dinheiro, mas a pessoa. Ele foi um retratista do Nordeste e da religiosidade brasileira. Para mim, ele é o nosso Shakespeare. Seu trabalho é único no Brasil, tanto em termos de linguagem quanto na forma como trouxe personagens nordestinos e pobres para o palco, algo inédito na época”.

O termo “armorial” é usado por Ariano Suassuna para se referir ao conjunto de brasões, insígnias, bandeiras e estandartes de um povo. O escritor paraibano utilizou esse termo para nomear o Movimento Armorial, que fundou em 1970 e que tinha como objetivo criar uma arte brasileira autêntica, baseada nas raízes populares.

Virgínia acredita que o tempo presente, em razão da ascensão da extrema direita, é de cautela (Foto: Laura Campanella)

Virginia Cavendish segue movida pelo encantamento do teatro, pela inquietação da arte e pelo compromisso de dar voz às histórias que resistem ao tempo. Sua trajetória, marcada por escolhas firmes e um olhar sensível, revela uma atriz que não apenas interpreta personagens, mas desenha caminhos, desafia estereótipos e transforma a cena com sua presença. Entre os palcos, as telas e a pesquisa acadêmica, ela se reinventa, costurando sua história com os fios da paixão, do conhecimento e da liberdade. Porque, para Virginia, a arte não é um destino – é um percurso em constante reinvenção.