Vilã em ‘Dona de Mim’, Aline Borges exalta ancestralidade: ‘Não aceito mais trabalhos que diminuam a minha potência’


Aos 50 anos e no auge de sua carreira, Aline Borges vive sua primeira vilã na TV. e fala sobre o que pauta sua vida: “Não aceito mais que falem comigo de uma maneira que me violente. Não aceito mais ser tão cruel nas cobranças comigo mesma”, atesta ela. Em uma fase intensa e produtiva, com três produções em andamento, ela também rompe padrões fora das telas: vive uma relação não monogâmica com o ator Alex Nader, defende a liberdade no amor e na criação da filha.
Em “Juntas e Separadas”, nova série da Globoplay com estreia marcada para este ano, a atriz interpreta uma mulher em um relacionamento homoafetivo

*por Luísa Giraldo

Aos 50 anos e com três décadas de carreira, Aline Borges vive uma fase de afirmação e potência em todas as esferas da vida. No ar na novela “Dona de Mim”, da TV Globo, onde interpreta a primeira vilã, a atriz celebra a maturidade como um ponto de virada, marcado pela autoconfiança, liberdade afetiva e espiritualidade. Após o sucesso em “Pantanal” , Aline reafirma sua trajetória com orgulho e resiliência. Entre conquistas, desafios e afetos, ela se fortalece na ancestralidade e na certeza de que sua presença é, por si só, um ato político.

A minha grande virada foi aos 50. Entendi quem realmente sou, que não preciso me preocupar com a opinião alheia, que sou dona do meu nariz e da minha caminhada. Preciso honrar minha trajetória até aqui sendo dona de mim e do meu caminho. Essa maturidade me fez um pouco mais feliz por ser dona das escolhas. A maternidade, aos 36 anos, e a chegada dos meus 50 me potencializaram em grande escala. Me sinto maior, mais completa. Tenho orgulho do que fiz. Não tenho vergonha da minha trajetória — Aline Borges

Aline acrescenta: “Aprendi a me priorizar e dar importância ao que me faz bem e ao meu bem-estar. As minhas exigências nos afetos, na profissão e na minha relação comigo é colocar o que me faz bem à frente de tudo. Não aceito mais que falem comigo de uma maneira que me violente. Não aceito mais trabalhos que diminuam a minha potência. Não aceito mais ser tão cruel nas cobranças comigo mesma”.

A maturidade me trouxe a resiliência de saber o meu tamanho, aonde posso chegar e não permitir nenhum passo atrás. A ancestralidade e a negritude me ensinam que ninguém vai me dar nada e que tudo que conquisto é com a força do meu talento, da minha consciência e dos meus saberes — Aline Borges

Aline sacramentou essa potência artística em “Pantanal”, remake produzido pela Globo em 2022, com Zuleica. A personagem é a segunda esposa do fazendeiro Tenório (Murilo Benício). Com os pés no chão, a artista reflete sobre o desejo pelo reconhecimento profissional.

Aline Borges rebateu todas acusações de que não estaria com a documentação como atriz em dia (Divulgação)

“É uma ilusão achar que uma novela vai te reposicionar de modo a ser respeitada como merece. O que traz o respeito ao trabalho é a continuidade, muito difícil nesta profissão. Fiz ‘Pantanal’ que teve grande sucesso, e demorei dois anos para fazer a próxima novela. As pessoas que assistem novelas acham que não estou trabalhando por não me verem na TV”, desabafa.

A minha personagem atual é fruto de uma grande caminhada, mas gosto sempre de pontuar que não podemos nos iludir: nada está ganho. É só mais um degrauzinho que a gente bota os pés, mas a caminhada ainda é longa. É precisa ter resistência para não tombar — Aline Borges.

Embora mantenha uma visão sensível do mundo e da profissão, Aline está ciente dos desafios do meio artístico. “Nunca pensei em desistir da televisão por falta de oportunidade. Talvez, se eu estivesse fora (sem trabalho), estaria à vontade para dizer que “desisti” da profissão. É desesperador não conseguir emprego na área de formação e de dedicação. Ao longo da minha trajetória, muitos amigos desistiram por falta de oportunidade”, lamenta ela.

EmDona de Mim”, novela das 19h da TV Globo, ela interpreta a sua primeira vilã na televisão aberta. “Me vejo pouco na Tânia. Os limites dela são alargados de acordo com seus interesses. Uma vez que decidiu priorizar seus desejos e sonhos, doa a quem doer! Não julgo! Bato palmas e aprendo também”, comenta.

A personagem, ambiciosa e estrategista, vive uma relação extraconjugal com o personagem de Marcos Pasquim, Ricardo, e tem dado o que falar. Fora das telas, Aline vive um amor não monogâmico há 16 anos com o ator Alex Nader. “Construímos esse relacionamento com muito diálogo, respeito e liberdade. É claro, uma relação fora do comum e que alimenta nosso amor”, define a atriz.

Aline Borges comemora 50 anos de vida e três décadas de carreira vivendo a primeira vilã na TV (Divulgação)

Aline Borges comemora 50 anos de vida e três décadas de carreira vivendo a primeira vilã na TV (Divulgação)

A vida junto de alguém que respeita suas escolhas, te admira e torce por você é gostosa demais. A gente é a construção e materialização desse encontro, que tem dado bons frutos. Assim seguiremos, enquanto o amor perdurar! — Aline Borges.

A liberdade de ser e amar, inclusive, atravessa também sua arte. Em Juntas e Separadas”, nova série da Globoplay com estreia marcada para este ano, a atriz interpreta uma mulher em um relacionamento homoafetivo. “Sou a favor da liberdade, não só no amor, mas em todas as instâncias da vida. Então, dar vida a uma personagem livre, que sabe amar sem restrições, conversa muito com quem tento ser nessa travessia”.

 

Terapia, ego e espiritualidade

Aline Borges relembra ter feito acompanhamento psicológico várias vezes ao longo da vida, porém não deu continuidade ao tratamento. A atriz entende a saúde mental como pilar essencial para o bem-estar.

“Hoje, cuido da minha saúde mental me conectando com a minha espiritualidade. Ela me mantém sã e me traz resiliência. Acendo velas, coloco músicas de axé e pontos de macumba para me ajudar a lidar com os desafios da profissão e do meio artístico. Somos atravessados pelo ego e pela ilusão. A gente enlouquece sem se manter ligado à espiritualidade e ao cuidado da saúde mental”, reconhece.

Segundo a artista, a saúde é um aspecto essencial na vida contemporânea. “É o mínimo que precisamos fazer para nós mesmos. Tudo já é tão cruel e difícil que, se deixarmos de cuidar da saúde mental, não daremos conta de sobreviver em um mundo que nega oportunidades, insiste em invisibilizar e não enxergar a sua potência. Estou falando de pessoas negras”, atesta.

Radiante com a fase de empoderamento e crescimento pessoal, Aline exalta as origens. “O meu entendimento como mulher negra trouxe uma potência que vai além do entendimento externo. Só eu sei o quanto me potencializei e conectei com as minhas raizes de mulher preta. Preciso sempre olhar para trás e honrar as minhas origens. É sempre o que faço como artista, como mulher e como mãe: passar adiante ensinamentos que me fortaleceram e que me mantiveram de pé até aqui”, comenta.

Relação mãe e filha

Parceira e amiga da filha, Nina, Aline Borges celebra também as múltiplas possibilidades da maternidade. A menina de 14 anos é fruto da relação com Nader, quem descreveu como amor de sua vida: “A maternidade me trouxe mais presença na vida e responsabilidades. Fui invadida por um amor gigantesco quando virei mãe. Me vi mais responsável com a minha trajetória para poder amparar esse serzinho”.