*por Vítor Antunes
Filha de Iemanjá na vida espiritual, ela dá vida, na televisão, a uma personagem orgulhosamente evangélica. Esse contraste atravessa a trajetória de Luiza Rosa, atriz cria de Olaria, que estreia em novelas no elenco de “Três Graças”, produção da TV Globo. Aos seus primeiros passos na teledramaturgia, Luiza carrega também uma vivência religiosa profunda, construída ao longo de quase uma década na umbanda — experiência que, segundo ela, ampliou seu olhar sobre fé, convivência e respeito às diferenças. “Eu sou umbandista. Sou da umbanda há nove anos. A umbanda me fez ser menos preconceituosa. Quando não se conhece a fé alheia, a gente acaba afirmando coisas sem base. Hoje, eu sou uma pessoa muito menos preconceituosa. Isso porque, quando não se conhece, existe essa tendência a criar pré-conceitos, conceitos que antecedem o conhecimento. Hoje em dia, estando mais inserida nesse universo, eu entendo muitas coisas e também vejo muitas similaridades. Eu sou uma pessoa de muita fé, sempre recorro aos meus orixás, mantenho minha velhinha acesa, uso minhas guias. Então, eu consegui relacionar a fé da Kellen com a minha fé, porque a fé é um sentimento só”.
Na novela, Luiza interpreta Kellen, uma mulher evangélica que vive em uma comunidade periférica. Para construir a personagem, a atriz optou por não elaborar uma preparação prévia extensa, preferindo se abrir ao processo coletivo conduzido pela direção e pela produção.
“Eu deixei para descobrir tudo durante a preparação. Não queria me precipitar construindo algo em casa, porque poderia ser completamente diferente do que a direção queria. Então, esperei as preparações junto com a direção. Foi feito um trabalho ótimo com cada um de nós, e isso me ajudou a entender melhor a personagem. Eu decidi focar mais na relação dela com as outras pessoas, na relação com a comunidade, mostrando mais o lado do dia a dia, o lado humano, do que apenas o lado religioso”.
Segundo a atriz, a recepção ao trabalho tem sido positiva tanto entre evangélicos quanto entre moradores de comunidades semelhantes àquela onde sua personagem vive. Em “Três Graças”, Kellen mora na Chacrinha, um território fictício que dialoga diretamente com realidades como a da Brasilândia, na zona norte de São Paulo. “Esse olhar para esse segmento da população, para essa religião e para essas pessoas enquanto comportamento e enquanto sociedade é muito importante. Eu acho incrível esse olhar mais decidido da dramaturgia para os evangélicos.”

Luiza Rosa vive personagem evangélica em “Três Graças” (foto: Divulgação)
Luiza destaca ainda a importância da representação, sobretudo para mulheres pretas, dentro e fora da narrativa religiosa. “A comunidade evangélica e a comunidade cristã parecem estar bem satisfeitas com o que têm visto na televisão. É muito bom se sentir representado. Falando como uma mulher preta, é muito bom olhar a TV e se sentir representada. Eu não faço parte da comunidade evangélica, mas tenho recebido muitos feedbacks e imagino que, em suas singularidades, dentro de casa, da família e da igreja, as pessoas estejam felizes com o que têm visto na televisão, que reflete como a vida delas segue de diversas maneiras. Tivemos boas representatividades cristãs em novelas como Vai na Fé, por exemplo, e em outras produções. A comunidade tem se mostrado bastante satisfeita, e eu acho incrível que consigam se sentir bem representados.”
Normalmente, a gente traz o personagem para perto da gente, encaixa ele no nosso corpo. Esse é um trabalho que fazemos em todos os projetos. Para ajudar a desconstruir esse estereótipo que recai sobre os evangélicos, eu procurei me informar bastante e conversar muito com meus amigos cristãos. As pessoas me param na rua, dão feedback, falam o que estão achando e o que não estão. A gente faz o que está escrito, mas existe essa possibilidade de criação. Isso não é só personagem – Luiza Rosa
A atriz também destaca o caráter extremamente naturalista da composição de sua personagem, sobretudo no trabalho de figurino e caracterização, que buscou referências diretas nas comunidades periféricas brasileiras. Segundo ela, o cuidado da equipe de pesquisa foi determinante para construir uma representação fiel e respeitosa.
“Eu acho que a equipe de pesquisa da novela fez um trabalho ótimo. Eles foram até São Paulo, à Brasilândia, e a outras comunidades também. Passaram um tempo analisando e pesquisando tudo. Quando cheguei para fazer a prova de figurino, havia várias fotos de meninas da própria comunidade da Brasilândia usadas como referência. A maioria eram meninas pretas, jovens como a Kellen, com a mesma vestimenta: sapatilhas, vestidos mais soltinhos. Foi um trabalho de pesquisa muito cuidadoso. Eu acho incrível estar representando uma personagem na novela das nove com o cabelo natural, crespo.”
Ouvi o relato de uma mãe dizendo que a filha dela, de cerca de cinco anos, ficou muito emocionada ao se ver representada na televisão, principalmente por conta do cabelo. Nem todas as personagens usam o cabelo natural; muitas personagens pretas acabam usando extensões ou tranças. O meu cabelo natural também se tornou uma fonte de poder muito grande, de representatividade para outras pessoas que assistem à novela – Luiza Rosa

Luiza Rosa: Representatividade é importante (Foto: Divulgação)
CRIA
Criada em Olaria, na região da Zona da Leopoldina, no Rio de Janeiro, a atriz afirma que sua vivência suburbana foi fundamental para a construção da personagem. Para ela, apesar das diferenças geográficas, há uma forte semelhança entre os territórios periféricos do Rio e de São Paulo, especialmente no modo de vida e nas relações comunitárias.
“Eu me considero de Olaria, na região da Leopoldina. É a rua onde morei a maior parte da minha vida, onde minha família cresceu. Muitas gerações da minha família são de Olaria, e é o lugar que guardo com mais carinho no coração. Já morei em dez bairros diferentes e agora estou na minha décima sexta casa. Já morei em praticamente todo o Rio de Janeiro, inclusive na zona sul, mas a maior parte da minha vida foi na zona norte. Pelo que observo, os personagens são muito plurais. Na Brasilândia, eu me senti em casa. As pessoas eram muito familiares, pareciam pessoas que eu já conhecia. Essa vivência suburbana e periférica é muito parecida, tudo dialoga muito.”
Mesmo em um momento em que se discute a perda de espaço da televisão aberta diante do streaming, a novela das 21h segue sendo um dos principais produtos de audiência do país — e Três Graças marca a estreia da atriz nesse formato. “Eu fiz uma participação em ‘Mar do Sertão’, uma participação sem fala, e fiz ‘Guerreiros do Sol’. Mas ‘Guerreiros do Sol’ até hoje não se enquadra 100% nessa configuração de novela por não ser uma obra aberta. Então, eu considero que essa é, sim, a minha primeira novela.”
Ela relata ter sentido de forma concreta o alcance da obra durante gravações externas, quando o contato direto com o público evidenciou a força da teledramaturgia brasileira.
“A gente foi gravar, por exemplo, uma externa em Guaratiba há mais de duas semanas, e o público inteiro ficou no sol esperando a gente acabar de gravar para falar conosco. Tinham mais de 100 pessoas, entre crianças, jovens, adultos e pessoas mais velhas. Ali a gente sentiu, na vida real, o impacto da novela no Brasil. Ela tem um alcance gigantesco.”

Luiza Rosa: “Três Graças” é a primeira novela da atriz (Foto: Divulgação)
O retorno do público também chega por meio de mensagens, inclusive de pessoas que vivem longe dos grandes centros. “Eu recebo muitas mensagens de pessoas. Minha irmã, por exemplo, manda recados dizendo que a filha de uma amiga da avó assistiu e mandou um beijo. Perceber que a gente alcança lugares tão distantes é muito especial. A televisão brasileira ainda ocupa um lugar muito importante.”
Nos bastidores de Três Graças, a atriz afirma estar em constante aprendizado, especialmente ao contracenar com nomes experientes da dramaturgia.
“A Dira Paes e o Enrique Diaz são dois mestres, pessoas que eu admiro muito profissionalmente e que hoje também são amigos. Conversamos no dia a dia, desabafamos e compartilhamos coisas das nossas vidas. Eles me ajudam muito na parte técnica, principalmente por ser a minha primeira novela. A novela tem uma estrutura totalmente diferente do cinema e das séries. Eles estão sempre me aconselhando, e eu peço muito a ajuda e os conselhos deles. São figuras mais experientes do que eu e que, graças a Deus e aos orixás, hoje são pessoas próximas, em quem eu confio.”
Para além da trajetória profissional, ela enxerga sua presença na televisão como uma forma de abrir caminhos para outras pessoas que se reconhecem em sua história.
“Além de me tornar uma profissional excelente, que eu acho que é o objetivo de qualquer pessoa em qualquer carreira, meu trabalho é voltado para abrir portas para outras pessoas. Eu acredito que, quando a gente tem alguma coisa e não compartilha, isso gera uma tristeza muito grande. Então, um dos meus maiores objetivos é ser uma referência para outras pessoas, uma referência que muitas vezes me faltou. É uma responsabilidade muito grande, mas também uma felicidade enorme poder ser algo para essas pessoas, poder estar andando no meu bairro e alguém olhar e dizer: ‘Caramba, ela está próxima de mim e está num lugar legal’. Pensar que eu posso ser algo como ela é muito importante e muito gratificante. Quando eu decidi fazer teatro profissionalmente, quando decidi que queria ser atriz de verdade, saí do ensino médio e fiz uma escola de teatro. Naquela época, eu estava em uma condição financeira melhor e consegui pagar a escola, o que foi muito gratificante para mim.”

Luiza Rosa fala do alcance da Tv (Foto: Divulgação)
A atriz relata então que a dificuldade de ser atriz se impôs em algum momento da careira, no qual ela chegou a pensar lançar mão de outros mecanismos para trabalhar:
Só estudar já é um privilégio para muitos de nós, porque, na maioria das vezes, a gente precisa sair da escola e começar a trabalhar. Depois, a vida foi acontecendo e eu precisei me virar. Trabalhei por anos com eventos, inclusive até o início da preparação da novela.
Como eu falo inglês e espanhol, conseguia fazer eventos melhores, que pagavam um pouco mais, mas ainda assim era muito difícil me manter. Eu precisava pagar contas e ter uma estabilidade que os eventos não me davam todos os meses. Muitas vezes pensei em desistir da carreira, praticamente dia sim, dia não. Teve um período, por volta de setembro do ano passado, em que eu tive certeza de que não daria mais para ser atriz, pelo menos não naquele momento. Pensei que precisava arrumar um emprego de carteira assinada, porque não estava dando. Fiquei um tempo sem trabalho, mas, em comparação com outros amigos atores ou pessoas que vieram do mesmo lugar que eu, até trabalhava bastante. Eu pegava cerca de quatro trabalhos por ano, mas isso ainda não era suficiente para me sustentar o ano inteiro” – Luiza Rosa
Ela prossegue relatando o período de incertezas que antecedeu o convite para a novela, quando precisou estabelecer limites concretos entre o sonho artístico e a necessidade de estabilidade financeira. Segundo Luiza, o apoio de amigos próximos foi decisivo para que ela não desistisse da carreira naquele momento.
“Com a ajuda de alguns amigos e pessoas em quem confio, que me aconselharam a tentar mais um pouco, eu me dei um prazo de um ano. Pensei: até setembro do ano que vem, se eu não conseguir nada que me deixe mais estabilizada, eu arrumo um emprego CLT. Alguns meses depois, recebi o convite para a novela.”
A atriz destaca que a oportunidade não surgiu de forma repentina ou desconectada de sua trajetória, mas como resultado de anos de esforço, trabalhos paralelos e dedicação constante à formação profissional. “Tudo foi fruto de muito esforço e muita batalha. Muitos atores fazem eventos, trabalham como recepcionistas, vendedores de loja e em outras atividades paralelas para conseguir estudar e, de vez em quando, trabalhar com o que amam. Sempre existe esse plano B caminhando junto com a gente.”
Ela também esclarece que o convite para integrar o elenco não seguiu o modelo tradicional de testes abertos ou envio de material, mas partiu de um histórico já construído dentro da própria emissora. “O convite para a novela não veio por teste naquele formato tradicional de enviar material para a Globo. Foi por convite, mas porque, no final do ano passado, eu tinha feito um filme na Globo com a Susana Vieira, chamado Coisa de Novela, um especial da emissora. Esse material foi apresentado à direção da novela, eles gostaram e acharam que eu tinha muito a ver com a personagem. Foi assim que surgiu o convite. Não foi algo aleatório. Eu não enviei material específico para a novela, mas eles já tinham muito material meu registrado.”

Luiza Rosa: A boa repercussão em outros trabalhos valeu sua indicação para “Três Graças” (foto: Divulgação)
Ao final da conversa, Luiza reflete sobre o futuro e sobre como se imagina profissionalmente nas próximas décadas, revelando uma postura cautelosa diante de projeções de longo prazo, mas sem abrir mão do desejo de realização e reconhecimento.
“Eu não sou uma pessoa que costuma fazer planos anotados no papel e sair atrás deles, porque tenho muito medo da frustração. Mas eu imagino e projeto as coisas que quero que aconteçam. Espero estar 100% estabilizada na profissão, porque ainda não estou. É sempre uma correria, nunca sabemos quando será o próximo trabalho ou como estaremos no ano seguinte. Mas, daqui a dez anos, espero estar estabilizada, fazendo coisas de que eu goste, feliz na carreira e, de preferência, rica.”
Entre o sagrado que a guia e o ofício que a projeta, Luiza Rosa segue atravessando caminhos com a mesma inteireza que aprendeu nas ruas de Olaria e nas comunidades que hoje se veem na tela. Sua estreia em Três Graças não é apenas a chegada a um novo espaço profissional, mas a confirmação de uma travessia marcada por fé, insistência e pertencimento. Ao ocupar a novela das nove com um corpo, um cabelo e uma história que dialogam com milhões de brasileiros, a atriz reafirma a força da televisão como espelho social e reafirma, sobretudo, que representação não é concessão — é conquista. Entre orixás, câmeras e plateias improváveis, Luiza constrói, passo a passo, um lugar onde o sonho deixa de ser exceção e passa a ser horizonte possível.
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