*por Vítor Antunes
Eles se encontraram num daqueles instantes únicos dos anos 1970 — e, desde então, a história parece empenhada em reuni-los, mesmo passadas mais de três décadas da morte dele. Sandra Pêra e Gonzaguinha (1945–1991) foram namorados em algum momento impreciso entre o fim dos anos 70 e o início dos 80 e, ao contrário do que costuma circular na memória afetiva da MPB, jamais chegaram a se casar. O primeiro sucesso gravado pelas Frenéticas, grupo do qual Sandra fazia parte, foi uma música de Gonzaguinha. E um dos primeiros — depois de “Dancin’ Days”, talvez o maior êxito do grupo — foi “O Preto que Satisfaz”, tema de abertura de “Feijão Maravilha” (1979), novela que agora retorna ao Globoplay no Projeto Resgate, quase completa. Estima-se que apenas alguns de seus 123 capítulos tenham se perdido.
A primeira música de Gonzaguinha gravada pelas Frenéticas foi “A Felicidade Bate à sua Porta”, que rapidamente estourou. A partir daí, veio a canção que serviria de abertura para a trama das 19h. “Depois da ‘Felicidade’, Gonzaguinha apareceu lá em casa. Chegou tímido e falou: ‘Como vocês me deram sorte, eu queria trazer outra música.’ Morávamos eu, Regina e Lidoca [cantoras do grupo], aqui no Leblon. Não tínhamos móveis, só almofadas no chão. Ele sentou na almofada, sem violão, sem nada, e disse: ‘Fiz uma música pensando em você.’ E cantou ‘Dez entre dez brasileiros preferem feijão’.”
Ela relembra como se conheceram e como o relacionamento começou. “Um dia, de tarde, eu ouvi uma música ao longe e me disseram que era o Gonzaguinha e que aquela música era dele. No último dia do Dancin’ Days — a discoteca — em novembro de 76, voltamos para a casa da Ângela Leal sem conseguir dormir. Dedicada em localizar num disco aquela música do Gonzaguinha, sentei no chão, na vitrola, ouvi todos os discos que ela tinha do Gonzaga, faixa por faixa, e achei a música. Coloquei numa fita cassete. Dias depois começamos a ensaiar, e eu levei a fita para o Ruban. Depois fomos para um estúdio, fizemos uma demo e essa música, ‘A Felicidade Bate à Sua Porta’, virou nosso primeiro sucesso. Depois, eu estava num voo indo para São Paulo e Gonzaga também estava no voo. Em certo momento, o avião começou a ter uma turbulência e eu comecei a chorar. Ele veio até a minha cadeira e falou: ‘Está chorando por quê? A gente só morre uma vez.’ Aquilo me marcou.”
Passamos a nos encontrar nos aviões, nas televisões, ele sempre muito gentil, dizendo palavras bonitas, e eu toda derretida. Aos poucos, fomos nos conhecendo. Não, não fomos casados. A gente namorou. Nós tivemos filhos, mas casados nunca fomos por vontade de ninguém. Nunca foi o noso desejo. Nossa filha, Amora, quando era pequena, falava: ‘Mãe, como é que foi o seu vestido de noiva?’ Eu dizia: ‘Não, minha filha, mamãe nunca teve vestido de noiva.’ Era delicioso, um pouco escondido, um pouco depois às claras, e com muita paixão, carinho e admiração. Eu sempre olhava para ele, mesmo ouvindo pessoas se queixando dele. Quando eu estava grávida, falavam: ‘Deus queira que saia com a sua cara.’ Eu achava aquilo absurdo. Eu achava ele lindo, ou melhor, eu não o achava feio. Ele era um encanto de pessoa. Um homem muito delicado. Muito família. Acho que o Gonzaga, em todas as relações extraconjugais, sempre manteve isso – Sandra Pêra

Sandra Pêra no Largo do Estácio. Cantora foi namorada de Gonzaguinha (Ana Alexandrino)
Ela prossegue: “Na verdade, fomos fora do padrão, sempre fora do padrão. Nós nos encontramos. Eu fui louca por ele. Tivemos momentos maravilhosos. A filha nasceu no meio de algumas confusões e ele sempre ali até o fim. Ele era muito lindo, como ouvi-lo falando dos filhos. A coisa que eu mais sonho, que eu adoraria sempre ver, são os meus filhos aprendendo a escrever um para o outro, uns para os outros. Um morava em São Paulo, outro em Belo Horizonte, os outros no Rio; cada um morava num lugar. Ele se virava para ver todo mundo. Eles sempre tiveram uma relação muito amorosa, mas cada um vivendo sua vida. Eles se gostam bastante. Quando ele aparecia, meu coração explodia. Eu queria muito estar perto dele, mas não queria ser esposa dele. Nunca tive vontade. Ele sempre foi um lugar encantado, pai da minha filha. Depois, nunca discutimos o que tínhamos. Às vezes eu dizia coisas, ele ficava irritado, ele dizia coisas normais. Quando ele morreu, foi inacreditável.””
Ela prossegue: “Na verdade, fomos fora do padrão, sempre fora do padrão. Nós nos encontramos. Eu fui louca por ele. Tivemos momentos maravilhosos. A filha nasceu no meio de algumas confusões e ele sempre ali até o fim. Ele era muito lindo, como ouvi-lo falando dos filhos. A coisa que eu mais sonho, que eu adoraria sempre ver, são os meus filhos aprendendo a escrever um para o outro, uns para os outros. Um morava em São Paulo, outro em Belo Horizonte, os outros no Rio; cada um num lugar. Ele se virava para ver todo mundo. Eles sempre tiveram uma relação muito amorosa, mas cada um vivendo sua vida. Eles se gostam bastante. Quando ele aparecia, meu coração explodia. Eu queria muito estar perto dele, mas não queria ser esposa dele. Nunca tive vontade. Ele sempre foi um lugar encantado, pai da minha filha. Depois, nunca discutimos o que tínhamos. Às vezes eu dizia coisas, ele ficava irritado, ele dizia coisas normais. Quando ele morreu, foi inacreditável”.

Em “Eu Apenas Queria Que Você Soubesse”, Sandra Pêra revisita clássicos de Gonzaguinha (Foto: Ana Alexandrino)
Sandra Pêra está em turnê com o show “Eu Apenas Queria Que Você Soubesse”, uma homenagem emocional ao ex-companheiro e pai de sua filha, o compositor Gonzaguinha, revisitando seu cancioneiro com delicadeza e inteligência, alternando clássicos e canções mais íntimas. Ela se apresenta na próxima semana, dia 9, no Teatro Ipanema. “Estou esfuziante ainda com o show, estou vivendo isso, a coisa de cada vez. Foi um trabalho muito emocional que eu levei para o palco. Eu também dirigi o show e colaborei em absolutamente tudo. A escolha por Gonzaga, a escolha por essas histórias, por rememorar essas histórias… Acho que algo aconteceu junto à Amora e vi nela essa mudança. Era nós duas; se o Gonzaga estivesse vivo, talvez fosse nós três. Ela me trazendo ele, e eu levando ele para ela. É muito bonito.”
Para a atriz, falar de Gonzaga no ano em que ele completaria 80 é “chover no molhado. Acho que ele vai fazer 100 anos, 120 anos. Ele é sempre moderno, sempre precioso, sempre com as palavras corretas. É bom para mim. É bom para todo mundo ouvir de novo, ouvir de outra forma. É sempre muito lindo ter o Gonzaga, exatamente por isso, porque sempre há um jeito de olhar.”
A morte dele foi uma estupidez. Eu sabia que não era assim, mas mesmo sabendo, eu pensava: ele morreu errado. Alguém se enganou. Eu não sou religiosa, não consigo ser religiosa. Durante bastante tempo depois que ele morreu, eu dizia: ‘Se aparecer aqui, apareça, quero ver.’ Mas eu não conseguia acreditar nisso. Na época eu achava que alguém tinha se enganado, que não era a hora dele. Nós não estávamos mais juntos. Éramos grandes amigos. Às vezes penso que o Gonzaga vivo hoje estaria como o mesmo Gonzaga, com 80 anos, assim como Caetano, como Gil. Acho que ele estaria bem de saúde. Ele era muito atento à saúde. Passou muitos anos fumando, teve tuberculose duas vezes, depois passou por um excesso de cuidado com saúde, bicicleta, alimentação, vitaminas. Era muito ligado à saúde. Acho que o Gonzaga estaria bem, mais saudável do que já foi. O Gonzaga nunca soube o que é um telefone celular. As músicas todas tocam ainda hoje o tempo inteiro… isso ele não viu – Sandra Pêra

Sandra Pêra; “As músicas todas tocam ainda hoje o tempo inteiro… isso ele não viu” (Foto: Ana Alexandrino)
ENTRE A PÊRA E O MANDACARU
A primeira novela inteira de Sandra Pêra foi gravada em 1998: “Mandacaru”, na TV Manchete. Muito por causa da presença de Walter Avancini (1935–2001), o trabalho acabou se tornando um dos poucos encontros de Sandra com Marília Pêra (1943-2015) na televisão. Neste ano, Marília completa dez anos de morte. “Recebi um convite do produtor de elenco para conversar sobre o personagem da novela. Eu me lembro de que sempre ligava para minha irmã. Ela também ligava para mim. ‘Não vai chegar fumando cigarro.’ Mãe, né? Ela era muito linda. ‘Não vai ficar fumando, vai lá, conversa, faz, acontece’.” Sandra acabou contratada. “Um dia ele me perguntou se minha irmã faria uma participação. Eu disse que ele teria que conversar com ela. E ela fez. A primeira cena dela era comigo.”
Ainda que tenha boas memórias da Manchete, a passagem por lá veio com seus reveses. “Eu gosto muito, adoro lembrar porque foi um momento muito feliz da minha vida. Foi sensacional. Mas o Bemvindo Sequeira dizia que o Avancini era uma pessoa cruel — no sentido de cru, de tortas e diretas — e ele disse para mim: ‘Você sabe que eu quase te troquei por um cavalo’. Eu falei: ‘Que coisa horrorosa’. Ele respondeu: ‘Quase’. Depois completou dizendo. ‘Está tudo uma merda, Sandra. A direção está uma merda, os atores estão uma merda’.” Ela frisa: ele não falava especificamente dela, mas do todo. Mandacaru terminou em agosto de 1998, a última novela completa da emissora, que fecharia no ano seguinte. “Quanto à pobreza da Manchete, vivi um pouco sim. Mandacaru foi até o fim, mas a novela seguinte, Brida, não. Fiquei sem receber parte do pagamento.”

Marília Pera e Agildo Ribeiro em cena de “Mandacaru” (Foto: Reprodução/Manchete/Foto tratada e melhorada por iA)
SOMOS AS TAIS FRENÉTICAS
No ano que vem, 2026, completam-se 50 anos do surgimento da discoteca Dancin’ Days, que acabaria dando origem ao grupo As Frenéticas, banda que entraria no imaginário pop brasileiro. “Na época nós não tínhamos noção. Éramos um bando de meninas começando carreira, vida. Aquilo era só mais um trabalho. Vivemos aqueles três meses de dança, ensaios e experiência com a discoteca. Na época as drogas passavam pela minha mão; eu não tinha ideia. Jogavam na minha mão e eu nem sabia o que era. Eu não fazia uso. Trabalhávamos sem parar. No último dia do Dancin’, o Serginho dos Mutantes me disse: ‘Vocês não podem parar. Vocês são muito importantes para a MPB’. Eu não tinha noção do que ele dizia. Era estranho: gente declarando amor, paixão. Nasceu a banda e minha irmã dizia: ‘Fiquem atentas, vocês vão começar a ganhar dinheiro’. Não ficamos atentas. Aos poucos, com o sucesso frenético, percebemos. Mas aquilo, assim como veio, foi embora. Foi uma febre. E foi murchando.”
Ela mesma também foi murchando dentro do grupo. “O Babando Lamartine, um dos nossos últimos discos juntas, já marcava o declínio. Não vendeu muito, não foi ideia nossa. Estávamos começando a ensaiar um show dirigido pela minha irmã, com direção musical do Gonzaga. Então engravidei. Os shows eu fazia grávida. Lembro de um show em Minas: afastei um pouco para trás, as cinco ficaram na frente. Vi o público e percebi que não havia mais animação. Alguns assistiam com simpatia, mas não era mais aquilo. Percebi que não éramos mais as mesmas. Eu grávida, depois a mudança de gravadora. Na reunião, eu disse: ‘Eu não quero’. Saí, e a Regina saiu comigo. Gravei um disco solo, com letras minhas e parceiros: Ruban, Joyce, Rosa Passos, Guilherme Lamounier.”

Frenéticas. Seis meninas que revolucionáram a cena pop nos 70’s (Foto: Bilioteca Nacional/Revista Manchete)
Depois disso, houve um retorno malfadado, em 1992, que não deu muito certo, mas serviu para colocar uma música na abertura de Perigosas Peruas. “Tinha 300 autores que fizeram a música de Perigosas Peruas. Todo mundo era autor. Acho que todos estavam apostando: Perigosas Peruas, Frenéticas. Mas não bateu no coração de nenhuma de nós. Estávamos meio à toa, sem nada para fazer. Fizemos alguns programas, fomos para Buenos Aires cantar Perigosas Peruas. Fizemos shows. Era muito ruim. Uma bobagem. Uma tolice. Mas está escrito no nosso histórico.”
A atriz encerra lembrando que, entre as músicas que canta de Gonzaguinha, a mais simbólica é “Feliz”: “Para quem bem viveu o amor, duas vidas que abrem não acabam com a luz… Eu adoro essa vida. A música é linda”. Quarenta anos depois daquele namoro que nunca virou casamento e daquela fita cassete ouvida no chão da sala, Sandra Pêra ainda circula pelas memórias de Gonzaguinha como quem ajeita móveis de uma casa que continua habitada. No palco, no show que dedica ao compositor, ela desfaz o tempo: costura a juventude das Frenéticas, o susto da turbulência no voo para São Paulo, a paixão clandestina que nunca pediu um vestido de noiva, os encontros e desencontros nos bastidores da MPB. Fala dele como quem conviveu ontem — e talvez, para ela, tenha mesmo convivido. Aos 80 anos, caso estivesse vivo, Gonzaga seria apenas mais um velho moderno entre Caetano e Gil; mas, morto, permanece jovem para sempre, como se ainda entrasse tímido pela porta do apartamento sem móveis no Leblon, trazendo mais uma música “pensada em você”. Para Sandra, cantar Gonzaguinha hoje é uma forma de desobedecer à lógica do desaparecimento: continuar chamando alguém que morreu “errado”, na esperança secreta de que um dia o equívoco se corrija.
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