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Tragédia-gourmet em Cannes: com Michael Fassbender e Marion Cottilard, “Macbeth” confere sabor contemporâneo a Shakespeare

O arriscado projeto de filmar mais uma versão da mais sombria peça do bardo empreendido pelo diretor australiano Justin Kurzel é bem recebido no festival pelo tratamento cinematográfico e pelos atores excepcionais

Publicado em 24/05/2015 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola, diretamente de Cannes, e Alexandre Schnabl, do Rio

Durante duas semanas, a 68ª edição do Festival de Cannes provou que, se seus detratores reclamam da atual submissão ao star system hollywoodiano, por outro lado a diversidade de propostas contemplada pelo cinema mundial faz do evento, mesmo assim, uma realização plural. Da nova comédia de Woody Allen (“Irrational Man”) a “Carol”, drama homoerótico de época dirigido por Todd Haynes e estrelado por Cate Blanchett, crítica e público puderam se deparar com uma variedade de propostas, mesmo que nem todos conferissem a quantas anda, por exemplo, o emergente cinema africano, preferindo se concentrar no glacê de um bolo mais glamoroso. E, talvez por isso mesmo, o último dos competidores oficiais ao prêmio principal – a Palma de Ouro – tenha sido exibido apenas nesta noite de sábado (23/5). A nova versão da indigesta tragédia “Macbeth”, concebida pelo australiano Justin Kurzel (“Snowtown”, “The Turning”), revelou que a velha receita amarga de ambição desmedida, assassinatos e tramoias, no fundo, continua sendo um excelente acepipe para prender os espectadores pelo estômago, mesmo que este acabe embrulhado algumas vezes durante a projeção, em função das armações do ardiloso casal de protagonistas, agora vividos por Michael Fassbender e Marion Cottilard.

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A escritura de “Macbeth”, de William Shakespeare, é convencionalmente datada em 1606, um número esquisito e malfadado. Por essa e outras razões pouco claras que vão além das situações descritas na peça – traições, assassinatos, guerras e caos –, a obra já foi considerada maldita e portadora de má sorte por artistas do meio teatral britânico do passado, a ponto de a menção ao seu nome ser evitada e simplesmente trocada pela expressão “aquela peça escocesa”.

Fassbender e Cottilard: a química dos atores contribui para reforçar os ardis da dupla de protagonistas em "Macbeth", de Justin Kurzel (Foto: Divulgação)

Fassbender e Cottilard: a química dos atores contribui para reforçar os ardis da dupla de protagonistas em “Macbeth”, de Justin Kurzel (Foto: Divulgação)

Mesmo assim (e talvez por isso mesmo), diretores que também já foram qualificados de “malditos” em algum momento das suas carreiras como Orson Welles, Akira Kurosawa e Roman Polanski, não resistiram ao chamado do infeliz Rei da Escócia e da sua sinistra rainha e acabaram por se aventurar na tradução em imagens cinemáticas desse “monumento” da dramaturgia universal, mas que é – na verdade – uma das peças mais curtas e com intriga mais simples do repertório shakespeariano. Cada um desses cineastas saiu da empreitada com vitórias e derrotas nas costas, segundo avaliações que vão mudando conforme suas adaptações também vão sendo colocadas em perspectiva.

Hoje, dentre essas três célebres versões, o “Macbeth” (Idem, 1945) de Orson Welles é considerado apenas uma caricatura daquilo que poderia ter eventualmente resultado nas mãos desse mesmo diretor que em 1936 chocou Nova York quando colocou a tragédia em cena num teatro do Harlem só com atores negros, trocando a Escócia pelo Haiti e os vaticínios das três bruxas por rituais de magia vodu. Aparentemente “moderna”, essa visão foi considerada mais uma das fanfarronices de Welles e um uso caricatural e oportunista de aspectos da cultura negra.

A versão de Akira Kurosawa (1910-1998) para o drama do casal Macbeth – “Trono manchado de sangue” (Kumonosu-jô, 1957) – é aquela que menos envelheceu com o passar das décadas, mantendo inalterado o seu status de clássico do cinema japonês e mundial desde o momento do seu lançamento. Kurosawa conseguiu estabelecer similaridades perfeitas entre o caos da Escócia medieval e as disputas sanguinárias de poder entre os senhores feudais do Japão do ano 1400. Depois dessa obra-prima, o grande diretor nipônico continuaria buscando em William Shakespeare a inspiração para outras grandes sagas – mesmo sob o ataque de obtusos críticos nacionalistas do seu país –, como a superprodução “Ran” (Idem, 1985), transposição de “Rei Lear” no contexto das violentas guerras entre os clãs da nobreza japonesa.

Em que pese as qualidades evidentes do “Macbeth” (Idem, 1971) de Roman Polanski num momento que a peça clamava por uma atualização digamos “pop-contracultural” e intérpretes mais jovens, essa versão entrou para os anais da história do cinema em grande parte devido a um aspecto trágico da vida particular do diretor polonês: foi o primeiro filme de Polanski realizado logo após o assassinato da sua mulher grávida, a linda atriz Sharon Tate (1943-1969), por integrantes de uma confraria de hippies e executado com ímpetos de violência comparáveis àqueles descritos pelo próprio William Shakespeare e cuidadosamente encenados no longa do diretor. Será que ele usou seu Macbeth para se exorcizar da desgraça pessoal? Por outro lado, não podemos esquecer que essa versão cinematográfica é típica dos anos 1970 em que o cinema procurava testar a tolerância do público em relação às cenas de sexo, violência e nudez. Tanto que as famosas passagens da peça em que Lady Macbeth sofre de sonambulismo foram representadas pela atriz Francesca Annis completamente nua. Apelação?

“Macbeth” teve inumeras adaptações para o cinema. Boas ou mas, algumas delas são sempre lembradas como as realizadas pelo trio Orson Welles-Akira Kurosawa-Roman Polanski (Fotos: Reprodução):

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Eis que chegamos a esta mais nova adaptação cinematográfica de “Macbeth”, derradeiro concorrente a se apresentar para a conquista da Palma de Ouro do Festival de Cannes. A assinatura de Justin Kurzel, diretor de cinema e videoclipes, e também cenógrafo de teatro, imprime modernidade e agilidade à trama. De fato, esta versão da peça do bardo inglês parece ter agradado não só aos críticos como também aos jovens cinéfilos que se debatem por um lugar nas seções abertas ao público em geral no Palácio dos Festivais.

Festival de Cannes 2015 Macbeth 11 final

Foto (Divulgação)

Assista abaixo à cena da coração de “Macbeth” nesta versão estrelada por Michael Fassbender (Divulgação):

As credencias citadas acima de Kurzel ajudam a explicar a fluidez cinematográfica e visual com que a tremenda sucessão de atos de violência, traição e vilania de “Macbeth” é tratada. Talvez a aproximação empregada pelo diretor em relação à obra de Shakespeare tenha sido simplesmente a de tentar encontrar nela o que já existia de cinematográfico e de apelo visual.

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Nesse sentido, o 1º ato da peça é um prato cheio de possibilidades, pois narra o turbilhão de guerras e disputas em que estava imerso o reinado de Duncan e a emergência de Macbeth como o campeão do Rei da Escócia. Além disso, Kurzel tratou essa tragédia como se deve: com objetividade, crueza e vitalidade, tal como foram erigidos os grandes westerns transcendentais da história do cinema, como “Os brutos também amam” (Shane, 1953, de George Stevens) ou “Rastros de ódio” (The searchers, 1956, de John Ford).

Confira abaixo um trecho da batalha de “Macbeth” sob o olhar videoclipesco do diretor Justin Kurzel (Divulgação):

Roteiro ágil e direto, câmera nervosa na mão, fotografia suja e soturna; cenários, figurinos e maquiagem de uma incômoda plasticidade rústica, paisagens áridas que parecem, às vezes, o vestíbulo enevoado do inferno; pesada música de inspiração escocesa ancestral que sufoca o espaço cênico com uma sensação opressiva de fatalidade, um desenho de som que traduz criativamente em ruídos o banho de sangue que é sonegado nas imagens e – é claro – um elenco de war lords da arte da interpretação que contempla talentos como David Thewlis e Sean Harris, ancorado pelas atuações de Michael Fassbender e Marion Cotillard, Os dois simplesmente entregam as vísceras para representar as forças da ambição e do desejo desenfreado que resulta na mais desgraçada autodestruição.

Será que todo esse conjunto de qualidades vai garantir ao “Macbeth” de Justin Kurzel um lugar definitivo na galeria das grandes adaptações shakespearianas para o cinema? Bem, não temos as três bruxas para nos ajudar nesse vaticínio, mas o tempo certamente se incumbirá de dar a resposta.

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