Totia Meireles reflete sobre livre-arbítrio em filme espírita e nunca ter sido protagonista de novela


Atriz está em cartaz no filme “Sexo e Destino”, longa de temática espírita que discute livre-arbítrio, responsabilidade e evolução espiritual. Durante a divulgação do projeto, a atriz revelou que, apesar de mais de 40 anos de carreira e personagens marcantes na TV, nunca recebeu a oportunidade de protagonizar uma novela. Ela destacou que construiu sua trajetória gradualmente, consolidando-se em papéis de destaque como Wanda, de “Salve Jorge”, e Mercedes, de “Verão 90”. No cinema, Totia afirma que o novo filme dialoga com suas próprias convicções espirituais sobre escolhas e consequências. Entre teatro, televisão e audiovisual, segue ampliando sua carreira sem nunca ter ocupado oficialmente o posto de protagonista em uma trama novelística

*por Vítor Antunes

Ela é um rosto que está presente na televisão há muito tempo. O Brasil se acostumou a vê-la nas novelas e nos programas de show, e só há muito pouco tempo — em 2019, com “Verão 90” — Totia Meireles fez sua primeira personagem má com função de destaque desde o início da trama. Na novela, ela dava vida à vilã Mercedes, personagem intencionalmente central desde o início. Em outros trabalhos, muito em razão do talento da intérprete, ela roubava a cena — como ocorreu em “Salve Jorge”, quando a personagem ganhou a centralidade da trama, ainda que fosse coadjuvante. A atriz fala sobre o fato de, mesmo com mais de 40 anos de carreira, nunca ter feito uma protagonista.

Não foi uma escolha minha, nunca me ofereceram uma protagonista de novela. Em teatro eu já fiz várias, mas em novela, não. Mas eu agradeço por não ter sido escolhida, porque, com certeza, eu não ia negar uma protagonista. Mas é um grande desafio — trabalha-se muito, é muita responsabilidade, você carregar uma novela. Eu gosto de dividir minha carreira com a minha vida pessoal, e quando se é protagonista de novela, torna-se impossível conciliar. Não foi uma escolha, não foi uma ‘liberdade’, simplesmente eu tive sorte de nunca ter sido escolhida para isso, porque com certeza eu não ia negar.” — Totia Meireles

A carreira de Totia demorou a “acontecer” na TV. Os primeiros grandes personagens só começaram a chegar efetivamente no fim da década de 90, até se consolidarem já em meados dos anos 2000. Totia fala sobre as possíveis razões para isso. “Acho que ela demorou a acontecer porque eu nunca fiz um grande personagem logo quando eu comecei. Eu sempre fui coadjuvante. Então eu acho que a gente vai amadurecendo. Isso eu acho que é até mais interessante pra mim, pois fui pegando experiência para outro momento da carreira em que eu estivesse mais segura. É coisa de sorte ou da vida mesmo. Eu nunca fiz um grande personagem que estourasse. Sinto que fui galgando, eu fui subindo degrau por degrau. Eu acho que não tem uma razão específica. Acho que aconteceu.”

Totia Meireles foi a Wanda de “Salve Jorge” (Foto: Divulgação/Globo)

Salve Jorge“, inclusive, está sendo reapresentada desde dezembro de 2025 no Globoplay Novelas e ficou por longo período entre as tramas mais vistas no Globoplay. Na trama de Gloria Perez, ela deu vida à Wanda, traficante de mulheres. “A Wanda, realmente, pra mim, foi uma personagem muito marcante. Foi minha primeira vilã. Todos os meus personagens na TV eram de mocinha, de boa amiga, de boa mãe, ou de alguém alto astral, feliz e resolvendo os problemas de todos. Aí, quando me viram na Wanda, a personagem foi realmente odiada, mais que eu. Acredito que eu tinha crédito na praça por ter feito personagens boazinhas e o público nem conseguiu ficar com muita raiva de mim. Esse lado frio eu nunca tinha mostrado. Mas eu amei fazer a Wanda, que realmente, pra mim, é uma personagem que marcou a minha carreira. Eu sempre agradeço a Gloria Perez por ter me dado a minha primeira vilã.”

Para este ano, Totia seguirá fazendo montagens de teatro musical. “Estou estreando ‘Mamma Mia’, um musical em São Paulo. Depois eu estreio outro musical, a ‘Ópera do Malandro’, que a gente vai fazer em agosto no Rio de Janeiro. E depois eu volto, em setembro, com ‘Mamma Mia’, porque a ‘Ópera do Malandro’ é só um mês de agosto, no Rio. Eu continuo ‘Mamma Mia’ até início de outubro no Rio. E estou gravando uma minissérie na Netflix.”

Totia Meireles estará dedicando o segundo semestre a trabalhos com o teatro (Foto: Divulgação/Globo)

VIDA, CINEMA E ESPIRITISMO

Totia pode ser vista no longa “Sexo e Destino”, dirigido por Márcio Trigo. O filme discute como decisões aparentemente íntimas podem repercutir por toda uma existência. A atriz fala se, durante a preparação para o filme, houve alguma reflexão pessoal que a fez enxergar de forma diferente a relação entre liberdade e responsabilidade. “Sexo e o Destino é um filme espírita, sendo assim, ele é todo traçado no pensamento espírita, né? Então assim, eu sou espírita de criação, meus pais eram espíritas, kardecistas, então eu estudei muito o espiritismo, e realmente toda decisão e toda grande ação que você faz aqui nessa vida, ou vem de outras encarnações, ou é seu livre-arbítrio — você sabe o que é o bem e o que é o mal. Então eu acho que é uma liberdade, sim, mas que você deve arcar com essa responsabilidade, com os seus atos. Então eu acho que, pela visão espírita, realmente você tem liberdade, mas a conta vem — e alguma hora vem a conta. Então eu acredito, sim, na responsabilidade.”

A trama aborda famílias marcadas por paixões, traições e reencontros de destino. Totia destaca se o filme fala mais sobre punição pelos erros do passado ou sobre a possibilidade de transformação e perdão. “Bom, eu acho que a punição existe, mas eu acho que nós temos o nosso livre-arbítrio. Então você escolhe o que você quer seguir — o caminho do bem, o caminho do mal. Às vezes você é mau, às vezes você é bom. Ninguém é todo santo, mas a gente sabe — todo mundo tem consciência de que, pelo menos os espíritas sabem que as suas ações aqui refletem, vêm de outras vidas, as suas decisões também vêm de outras vidas e seguem para a sua evolução espiritual, para sua alma ser mais evoluída. Então a gente sabe — é difícil, é por isso que a gente está em provação. Então eu acho que não é só punição, eu acho que ela faz parte de uma evolução.”

Totia Meireles em “Sexo e Destino” (Foto; Divulgação/Paris Filmes)

A atriz começou a carreira como bailarina e professora de jazz antes de descobrir a atuação em uma audição para “A Chorus Line“, sucesso de 1985, no teatro. “Eu fui aos poucos percebendo que  a atriz começou a ocupar muito espaço, tanto em teatro, em televisão, e aí eu fui deixando. não tinha mais hora para dar aula, não tinha mais condições de dar aula, parei de dar aula, e aí eu parei de fazer aula também, fazia muito poucas aulas, porque eu não tinha tempo. Aí eu comecei a perceber que realmente a atriz ficou na frente da bailarina. Mas foi difícil perceber isso, porque mudar de profissão gera a insegurança de uma coisa que você sabe fazer, para outra coisa que você está aprendendo. Eu demorei para perceber isso. Mas graças a Deus que deu tudo certo, porque a bailarina me ajuda muito na atriz e hoje em dia eu faço nos musicais, dançando e cantando, então eu acho que me ajudou muito. Eu tive muita sorte, graças a Deus”.

Com anos de carreira consolidada, Totia aponta quais de seus personagens famosos gostaria de refazer, ou revisitar, com a experiência artística que acumulou com a vida. “Tem duas personagens que realmente eu gostaria de revisitar. Uma foi em ‘O Fim do Mundo’, a Cacilda. ‘O Fim do Mundo‘ era uma minissérie que passou no horário nobre, na faixa da novela das nove. Quando eu vejo hoje, eu falo: ah, eu queria tanto ter a experiência que eu tenho hoje para fazer… E no teatro seria a personagem que dei vida em ‘Gypsy’. Eu acho que eu fiz bem, foi um grande musical, mas eu acho que hoje eu faria diferente também.”

Cacilda de “O Fim do Mundo”, personagem que Totia gostaria de revisitar (Foto: Divulgação/Globo)

Como a própria trajetória de Totia Meireles demonstra, nem sempre os caminhos mais luminosos são aqueles traçados pela centralidade ou pelo protagonismo formal. Construída passo a passo, entre personagens marcantes, palcos, musicais, novelas e agora o cinema, sua carreira revela a força de quem transformou a constância em legado. Entre a disciplina da bailarina, a entrega da atriz e a reflexão espiritual que permeia sua visão de mundo, Totia segue provando que o verdadeiro destaque não está apenas no lugar ocupado em cena, mas na capacidade de permanecer relevante, reinventando-se a cada novo papel e deixando marcas duradouras na memória do público brasileiro.