Tereza Seiblitz desabafa sobre mulheres reais e sexualmente ativas na maturidade: “As 60+ não estão mortas”


A atriz celebra a maturidade como espaço de desejo, potência e liberdade, recusando a invisibilidade imposta às mulheres mais velhas. Sua personagem em ‘Volta por Cima’, vivia uma sexualidade plena, o que a atriz defende como natural e urgente nas narrativas. Tereza reforça o impacto das redes sociais na conexão com o público e a exigência de foco diante da hiperexposição. Com longa trajetória, ela retornou à TV e está nos palcos com o monólogo “Carangueja”

*por Vítor Antunes

Por um movimento de emancipação da sexualidade feminina aos 60! A vilã da atual das 21h, Odete Roitman (Débora Bloch) vive essa energia com muito vigor. Doralice, personagem de Tereza Seiblitz em “Volta por Cima“, novela que acabou recentemente na faixa das 19h, tinha uma vida sexual ativa, algo atípico nas novelas, que costumam relegar às mulheres de 50+ o papel de matronas, sem parceiros e devotadas aos filhos. “A tendência, muitas vezes, é representar a mulher com mais de 50 anos – ou até menos – apenas como mãe. Tudo gira em torno de filhos ou netos. Ou então são personagens marcadas por doenças. É sempre essa mesma representação. Minha personagem era uma mulher que tem uma vida sexual ativa. Por isso considero tão importante o fato de ela ter se afirmado como mulher e não ficar sempre a reboque da história dos filhos ou do marido – ou da ausência dele – como se a mulher deixasse de ter vida própria.”

A maioria das mulheres que conheço dão conta da vida sozinhas. Conheço de perto as costureiras e baianas da Mangueira. Mulheres fortes, cheias de energia. Com 70 ou 80 anos, continuam saindo com as outras amigas têm relacionamentos, trocam de parceiros, ficam viúvas, casam de novo. São mulheres vivas, que não se reduzem apenas à figura da mãe ou da avó. Adoro meus filhos, adoro meus netos, sou uma mãe presente. Mas acho fundamental que se mostre que uma mulher de 60 anos não está morta. Ela continua ativa, com desejos, com vida própria – não à sombra de outras pessoas, ou reduzidas a quem cuida da casa, quem põe as coisas para funcionar. Esse trabalho invisível precisa ser representado de forma viva, com humor, com libido, com tesão de viver – Tereza Seiblitz

Tereza Seiblitz: “Mulheres 60+tem vida sexual ativa” (Foto: Acervo Pessoal)

Tereza aponta que as transformações no fazer novela são muito curiosas especialmente no que diz respeito à abordagem do público. Antigamente, a chegada era através de cartas, com algum distanciamento. Hoje, não. É direto e especialmente vinculado à abordagem através das redes sociais, algo que se mistura à vida dos personagens. “Recebi uma mensagem de uma mulher que sofria do mesmo problema cardíaco que a minha personagem. Ela me escreveu no Instagram, eu vi a mensagem, consegui responder, e depois ela me mandou um e-mail contando suas experiências com o marido. Para mim, foi muito bom perceber que foi possível estabelecer conversas tão interessantes com o público — do Brasil todo, e até de fora, como pessoas de Portugal que também escreviam. Achei isso muito interessante porque, na época da Dara (de Explode Coração, em 1995), esse contato acontecia por carta. Agora existe essa horizontalidade na conversa com o público, de forma muito rápida, por meio das respostas no Twitter, no Instagram… É curioso ver como as pessoas se expressam e como essas mensagens chegam até nós”.

Em contrapartida, a exigência de tempo que as redes sociais exigem traz consigo uma demanda. “Acredito que as redes sociais também aumentaram muito a carga de trabalho. É necessário ter disciplina para conseguir se concentrar e se desligar das redes. É quase como se houvesse uma espécie de “meta-ficção” em curso ali. Se não houver foco, corre-se o risco de ficar preso nisso e deixar de estudar o texto — que é a nossa principal ferramenta. E é o que sustenta tudo: decorar, compreender, interpretar”.

Tereza Seiblitz esteve recentemente em “Volta por Cima”, novela das 19h (Foto: Divulgação/Globo)

SEJA UM RAIO

A tradução literal do sobrenome de Tereza, vem do alemão, e significa “seja um raio”. Ela aplica isso na literalidade da questão. Tal como um raio ela não se inquietou. Ficou um tempo fora da TV, mas voltou e agora segue em frente com seu trabalho. “Foram 22 anos sem fazer televisão na TV Globo. E voltar neste momento, dos 60 anos dela e dos 30 dos Estúdios Globo é muito significativo. Durante esses 22 anos eu tentava, mas as oportunidades não se abriam. Não havia um chamado para personagens. Isso começou a mudar em 2023, com “Justiça”, e depois veio “Volta por Cima“. Acho mágico, bonito, emocionante. Me toca profundamente o fato de ter feito a primeira novela inteiramente gravada no Projac, há 30 anos, e agora a Rede Globo estar completando 60 anos — que é justamente a minha idade”, compara.

Ela analisa sobre como foi esse retorno à emissora. “Fui muito realizada nesses onze meses de preparação e gravação da novela. Gosto de televisão, gosto dessa dimensão ampla da novela. É possível perceber como as questões apresentadas na trama geram respostas imediatas — hoje em dia, isso aparece muito nas redes sociais, especialmente no X/Twitter. Acho que a novela tem algo parecido com o teatro da época de Shakespeare (1564-1616), em que as pessoas passavam, comiam, opinavam, se interessavam — ou não — pelo que estava sendo encenado. Há essa troca viva. Essa novela, em particular, foi uma delícia de fazer. Por ser uma obra aberta, por se comunicar com tanta gente, chegar ao Brasil inteiro. Algumas até conheciam de nome, mas foi com essa novela que passaram a se envolver mais com meu trabalho. Essa vivência reafirma algo que penso: a televisão é um produto cultural brasileiro — muito nosso. É uma tela que gera pensamento, reflexão. E isso a torna um ótimo lugar para o ator. Sempre gostei de atuar em TV, e fiquei muito feliz por ter voltado a fazê-lo”.

Tereza Seiblitz em “Carangueja”, solo estrelado por ela, que fica em cartaz até agosto no Poeirinha (Foto: Divulgação)

Com o fim da novela, Tereza poderá ser vista em “Carangueja”, monólogo que encenará em viagens pelo Brasil em razão de uma proposta do SESC. “O que eu quis com essa peça foi levar as pessoas ao manguezal. A minha primeira entrada num manguezal foi uma experiência muito forte. E há algumas questões que considero importantes. Primeiro, a relevância do bioma. A peça tem esse olhar voltado para o bioma, mas também propõe uma reflexão sobre o que a gente chama de perspectivismo de espécie. Essa é uma questão central na “Carangueja”. Ela traz a perspectiva do próprio animal. Minha vontade era que o público realmente entrasse no manguezal. Hoje, há uma experiência com argila durante a peça, destinada ao público. Mas carrega esse desejo de proporcionar uma experiência: estar em um lugar onde o chão não é firme. Minha meta para este segundo semestre é viajar com Carangueja”. A ideia da atriz é fazer uma turnê nacional. Enquanto isso, a peça estará em cartaz entre  julho e agosto no Teatro Poeirinha, em Botafogo.

Os tempos atuais são de pessoas intimamente ligadas ao celular. Inclusive, o texto dos atores nem chega mais impresso, mas em aplicativos e tablets. Tempos de transformação, inclusive no trato com artistas. “Os jovens já estão com o celular como se fosse mais um membro do corpo. Meus filhos são assim — muito mais rápidos, pegam e acham tudo. Para eles, é intuitivo; para mim, não é nem um pouco. Acho que há algo próprio do nosso tempo: uma dificuldade real de estar presente no lugar em que se está. Porque é você, o celular e o mundo. Vejo isso como uma prática: é preciso ter cuidado com essa presença dividida. Em relação à internet, procuro não me deixar atravessar demais. As pessoas não estão ali, de fato. No teatro, por exemplo, vemos que a pessoa está presente, recebe o que você entrega do jeito dela. Às vezes você oferece algo e ela acolhe de uma maneira completamente pessoal. Isso me fortalece. Já no meio virtual, eu filtro: pego apenas o que me faz bem, o que me alimenta de algum modo”.

Ela prossegue: “Ainda imprimo meus textos. Preciso da palavra escrita. Minha memória é visual. Tenho que saber onde está a letra, a página, a palavra — se está embaixo, em cima, se são várias frases ou uma só. O ritmo de um texto impresso é fundamental para eu decorar. Claro que, depois, no set, a gente também usa o celular, e isso ajuda. Mas estudar com a cena em cima da hora, rolando no celular, não me dá a mesma densidade que o impresso. Nunca fui assim. Quando fiz Explode Coração, por exemplo, eu sublinhava, escrevia, estudava com tempo. As cores, as anotações, tudo isso me dava uma sensação importante, uma base para dar mais complexidade à personagem — para não ficar só na fala, para não permanecer na primeira camada. Gosto de buscar nuances diferentes, criar detalhes. E, para isso, sempre li os capítulos inteiros, não apenas a minha parte. Sempre foi assim. A novela, afinal, também é sobre os outros, sobre o conjunto. Acho que esse tipo de trabalho — ainda mais quando é bom — exige comprometimento”.

Esse negócio de deformar imagens, colocar gente toda cheia de efeitos, toda “craquelada” na internet — olho e penso: “Alguém está se divertindo com isso.” O lado bom disso tudo, se é que há, é que a internet opera um pouco nesse regime do “fale bem, fale mal, mas fale de mim”. E eu, particularmente, não estimulo isso – Tereza Seiblitz

“O lado bom disso tudo, se é que há, é que a internet opera um pouco nesse regime do “fale bem, fale mal, mas fale de mim”. Eu, particularmente, não estimulo isso” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Ela prossegue: “Uma câmera, antigamente — acho que por não serem digitais — tinha uma profundidade, uma beleza de luz diferente. Hoje, essas câmeras digitais mostram poros da pele e detalhes que o olho humano não vê. Isso gera uma certa deformação, no sentido estético, no senso de beleza. E acaba que isso pode acontecer também com o texto: tudo fica meio chapado. Os personagens, por exemplo, acabam sendo monocórdios: “Ah, eu sou a periguete, então sou a periguete o tempo todo.” Não há nuance. A linguagem mais imediata empobrece a construção.

Tereza Seiblitz celebra o fato de que das três novelas principais hoje no ar , no horário das 18h, 19, e 21h, todas as autoras são mulheres. E observa uma questão estilística entre elas.  “Acho interessante quando se vê uma mulher escrevendo. Normalmente – ainda que não sempre – ela traz uma outra perspectiva. Eu fiz Letras, e há um momento em que percebemos: ‘Esse é um homem escrevendo como mulher’. Em outros casos, é evidente que a escrita é feminina, porque há um corpo diferente na escrita. Isso é inevitável e acho ótimo que hoje estejamos mais atentas a esses espaços. São perspectivas diferentes. Os autores têm olhares diferentes. A mulher tende a ser mais derramada, e o homem, mais conciso — até na forma de escrever. Acho o máximo como as personagens da Glória [Perez] são profundas emocionalmente, não fazem concessão a nada nem a ninguém”. Adoro os clássicos — Shakespeare, por exemplo. Mas quando você observa os papéis femininos, há falhas. Eles podem ser maravilhosos, mas as mulheres aparecem pouco, de forma superficial. Quando você quer estudar, quer fazer um clássico, percebe que os papéis das mulheres são limitados”.

Fico pensando em próximos passos, em algo que ainda não experimentei profundamente. Gostaria de fazer uma vilã. Acho interessante pensar numa vilã em 3D — tridimensional.  – Tereza Seiblitz

MULHER, MÃE, PROFESSORA

Tereza, enquanto esteve fora da televisão, dedicou-se à carreira acadêmica, pós-graduou-se, mas não pensa em se dedicar exclusivamente à academia. “Eu fiz mestrado. Pensando agora, não tracei uma estratégia clara. Cogitei fazer doutorado, que são quatro anos, mas é uma dedicação intensa. A peça que escrevi, por exemplo, nasceu na graduação. E dentro da minha dissertação de mestrado há textos que já apontam para outras peças. Isso me estimulou muito a escrever, algo que sempre gostei. Por outro lado, sinto falta da cena, de colocar aquilo em prática. Gostei muito do meio acadêmico, porque é um lugar de aprofundamento. E acredito que uma coisa alimenta a outra. Ter cursado Letras por quatro anos e feito mais dois de mestrado me deu camadas, mesmo para a televisão — que é um meio mais imediato. Isso enriqueceu meu trabalho. Gosto muito e fui muito feliz na vida acadêmica até agora. Fiz seis anos e pensei: ‘Gente, nasci para isso!'”

“Gosto muito e fui muito feliz na vida acadêmica até agora” (Foto: Acervo/Globo)

A artista diz que na atual fase da vida observa o passar do tempo através das conquistas dos filhos. “Manuela se formou em Cinema e agora está retomando os estudos em atuação, que é algo de que ela gosta muito. Ela é atriz desde pequena — sempre foi fácil perceber isso nela. O Vittório está estudando Música. Já o Juliano não, ele está cursando Economia, mas todos foram bastante influenciados pelo ambiente artístico da família. A Rosa, por exemplo, é professora, mas também canta — inclusive fará um show na próxima semana. Todos estão ligados à arte, de alguma forma”.

Aos 60, ela encarna a beleza de uma sexualidade que não se rende ao rótulo nem à invisibilidade — ela ama, deseja, provoca, inspira. Como sua personagem, ela não vive à sombra de ninguém: acende a própria luz. A frase que a move é “Eu não descanso depois da missão cumprida. O meu destino é recomeçar”, do samba da Unidos da Tijuca em 2025. Há potência na maturidade, desejo na experiência, e liberdade na escuta do próprio corpo. Tereza é mãe, atriz, professora, raio e maré — inteira em cada fase. Ao atravessar o tempo, carrega o brilho daquelas que não pedem licença para continuar. E seguem. Porque sabem que viver — verdadeiramente viver — é verbo que não se aposenta.