*por Vítor Antunes
Desde o último dia 20, o Globoplay hospeda em sua plataforma a novela Vira Lata, de Carlos Lombardi. O autor, já conhecido por tratar a sensualidade com uma desenvoltura rara na teledramaturgia brasileira, mantém a tradição: pelo menos desde Bebê a Bordo (1988), há uma presença natural do corpo masculino despido em suas tramas. Em Vira Lata, já no primeiro capítulo há registros de vários atores à vontade com a própria pele. Mas foi no episódio 11 que a internet acendeu: um Marcello Novaes apareceu nu por alguns segundos. Outros, como Murilo Benício e Humberto Martins, também tiveram partes do corpo reveladas — o que, para os padrões da emissora, já constitui um acontecimento digno de nota.
A nudez feminina, em novelas, nunca foi exatamente uma raridade. Diversas obras a incorporaram sem maiores cerimônias. Na extinta Rede Manchete, em particular, as cenas de nudez eram quase um diferencial de programação. A primeira nudez frontal feminina da emissora é atribuída à novela Carmem, de 1987, com Lucélia Santos. Pesquisadores da área apontam que pode ter havido, em alguma novela da Manchete, um homem nu — mas não há consenso, e o arquivo da emissora hoje é inacessível, o que não permite grande avanço no levantamento.

Ofício da Rede Manchete sobre a exibição da nudez de Carmem/Lucélia Santos, no capítulo 8 da trama (Foto: Arquivo Nacional/Pesquisa: Vítor Antunes)
O fim da censura, no ocaso dos anos 1980, e o correr da década seguinte abriram uma janela de ousadia na Globo que incluiu, surpreendentemente, a nudez masculina em todos os horários. Na primeira semana de Barriga de Aluguel (1990), o personagem de Victor Fasano aparecia tomando banho às 18h. Três anos antes, em 1987, Vinícius Manne surgiu com bumbum de fora na abertura de Brega e Chique — e o episódio gerou discussão proporcional ao impacto. Mais atrás ainda, em 1977, em plena ditadura militar, Tony Ramos protagonizou o que é tido como a primeira aparição de um homem nu em uma novela da Globo, em “O Astro”. Relembre outros cinco atores nus em novelas da Globo:
MARCELLO NOVAES, EM “VIRA LATA”
A novela de Carlos Lombardi, disponível no Globoplay desde o último dia 20, mantém a tradição que consagrou seu autor: o corpo masculino despido não é tabu, é dado da narrativa. Entre os capítulos 1 e 11, os bumbuns de Marcello Novaes (Fidel), Humberto Martins (Lênin) e Murilo Benício (Bráulio) aparecem com uma regularidade que, para os padrões da casa, já seria suficiente para render uma nota de rodapé na história da emissora. Somam-se à paisagem os trocadilhos explicitamente eróticos que atravessam o texto — e que, numa novela das 19h exibida hoje, facilmente justificariam uma realocação de grade para depois das 21h.
Mas é no capítulo 11 que a régua sobe. Numa cena de fuga, o personagem de Marcello Novaes aparece totalmente nu — ainda que amparado pelas sombras, num recurso de direção que ao mesmo tempo revela e protege.

Marcello Novaes pelado em “Vira Lata”(Foto: Reprodução/Globoplay)
GABRIEL VIEIRA, EM “VERDADES SECRETAS 2”
Produzida originalmente para o Globoplay — o que, convenhamos, já sugere uma folga maior com o pudor —, a novela reservou ao ator Gabriel Vieira, no capítulo 48, uma cena em que seu personagem atravessa o apartamento como veio ao mundo, em passos tranquilos e por alguns segundos que superam, em duração e em clareza, a aparição de Marcello Novaes em Vira Lata.
Em 2021, Vieira falou ao Jornal Extra sobre a gravação: “Foi desafiador! Estava nervoso.” Ponderou, no entanto, que a equipe fez o que pôde para deixá-lo confortável — “todos super profissionais. Estou contente com o resultado e com a repercussão positiva”. A novela foi ao ar na televisão aberta em versão compacta, com número sensivelmente reduzido de capítulos — e esses episódios não estão mais disponíveis no Globoplay, que hoje oferece apenas a versão integral. Se a cena chegou à TV aberta, é impossível confirmar. Muito provavelmente, foi cortada.
VINÍCIUS MANNE, EM “BREGA E CHIQUE”
Há casos em que o ator, sem o escudo de um personagem, simplesmente fica pelado — e esse é um deles. Em 1987, a abertura de Brega e Chique, novela de Cassiano Gabus Mendes (1929–1993), encerrava sua sequência de títulos com um homem nu, de costas, ao som de “Pelado”, do grupo paulistano Ultraje a Rigor. O homem era Vinícius Manne. Sem ficção, sem motivação dramática, sem nada entre ele e o Brasil das nove da noite a não ser a própria pele.
A polêmica foi proporcional. Em alguns capítulos, o bumbum do ator chegou a reaparecer coberto por uma folhinha inserida digitalmente — solução que, com o benefício do tempo, parece mais escandalosa do que o original. Alguns episódios depois, a vegetação desapareceu e a bunda voltou. O episódio repercutiu tanto que a capa da trilha sonora internacional da novela foi estampada pelo próprio Vinícius — numa época em que esse espaço era reservado exclusivamente aos atores da trama. Na contracapa, ele aparece de frente, igualmente nu, protegendo a intimidade com as mãos, numa pose que oscila entre o desafio e a ironia. Desde então, o ator evita o assunto.

Capa da trilha internacional de “Brega e Chique” (Foto: Reprodução)
CLAUDIO HEINRICH, EM UGA UGA
Em boa parte de Uga Uga, novela de Lombardi exibida às 19h no ano 2000, Cláudio Heinrich circulava pela trama com uma tanga que cumpria apenas sua função legal mínima: cobrir o sexo, e nada além. O restante do elenco masculino não ficava muito atrás — o figurino de Marcos Pasquim e Humberto Martins consistia, em boa parte da trama, num short. Apenas.
A novela gerou forte reação do público e, em maio de 2000, rendeu à Globo uma advertência formal do Ministério da Justiça pelo excesso de cenas de violência para o horário — dois capítulos tiveram de ser reeditados antes da exibição. É de Uga Uga que nasce, ou ao menos se consolida, a reputação de Lombardi como o “autor dos descamisados”.

Claudio Heinrich em “Uga Uga” (Foto: Divulgação)
TONY RAMOS, EM “O ASTRO”
Talvez o caso mais antigo, e certamente o mais improvável dado o contexto. Em O Astro, novela de Janete Clair (1925–1983) exibida em 1977, o personagem de Tony Ramos — Márcio Hayalla — protagoniza uma cena em que abre mão de tudo o que o pai, o ricaço Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo, 1922–1994), lhe dera por meio da riqueza excessiva. A referência a São Francisco de Assis é explícita: Márcio se despoja de tudo, inclusive das roupas. A cena é sensível. A direção, operando sob os limites da ditadura, não recuou — e encontrou no contorno do corpo do ator uma forma poética de dizer que ele estava nu, sem comprometer nem vulnerabilizar o artista.

Tony Ramos em “O Astro” (Foto: Divulgação)
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