*por Vítor Antunes
“Figurante, não olha para a câmera!” A frase, recorrente nos bastidores da televisão e do cinema, costuma vir acompanhada de outra instrução ainda mais simbólica: ocupar o lugar certo — o da invisibilidade. A figuração, tradicionalmente associada a um papel silencioso e periférico, quase sempre aparece como sinônimo de passagem anônima pelo audiovisual. É justamente esse imaginário que a peça Os Figurantes… E Depois? se propõe a desmontar, colocando no centro da cena aqueles que, por convenção, deveriam permanecer no fundo. Entre as atrizes do elenco está Tati Infante, que faz da experiência pessoal matéria-prima para refletir sobre esse território pouco iluminado da indústria cultural.
A atriz observa que a figuração, longe de ser um beco sem saída, costuma ser o ponto de partida de muitas trajetórias consolidadas. “Existem muitos grandes atores que começaram como figurantes. Muitos nomes consagrados hoje iniciaram a carreira fazendo figuração. Acho que é preciso querer, estar naquele universo, entender como tudo funciona”, afirma. O aprendizado, segundo ela, nem sempre está no texto dito em cena, mas na observação atenta da engrenagem que sustenta o espetáculo.
Ela relembra o início da própria carreira: “No começo da minha carreira, muitas vezes eu era chamada para fazer pequenas participações, para dizer apenas ‘bom dia, doutor’. E eu ficava feliz só de estar ali, no set, observando como funcionavam as câmeras, a luz, a direção, toda a engrenagem da produção. Foi um grande aprendizado”. A peça marca, também, seu retorno aos palcos depois de três anos afastada do teatro. “Estou muito feliz por voltar ao palco e começar o ano já estreando. Fiquei três anos sem fazer teatro e esse convite veio da Carol Cezar, que é uma parceira minha. Fiz uma peça com ela há 14 anos”, conta.
Hoje em dia, com todo mundo usando celular e filmando tudo, acho que essas pessoas que maltratam os outros por conta de cargo ou hierarquia têm mais medo de serem expostas. Quem se sente acima e menospreza o figurante encontra mais resistência. Nesse sentido, acredito que a situação esteja bem melhor – Tati Infante

Tati Infante volta ao teatro para falar sobre os figurantes (Foto: Gabriel Farhat)
Segundo Tati, a montagem reúne quatro textos, escritos por quatro atores diferentes, todos voltados à figura do figurante. “Esses seres invisíveis que ficam no fundo da cena, mas que são absolutamente necessários. Não se conta uma boa história sem eles”, diz. A costura dramatúrgica ficou a cargo de Wendel Bendelack, que uniu textos originalmente dispersos e ainda acrescentou novos trechos. “Ele pegou quatro textos que não foram escritos juntos, textos aleatórios, e costurou tudo de uma forma brilhante. Está realmente muito especial. Nossa primeira semana foi de casa lotada, com ótima repercussão. Está sendo uma delícia.”
A atriz também rebate a ideia, bastante disseminada no meio artístico, de que quem entra pela porta da figuração não consegue sair dela. “Chega um momento em que você precisa decidir o que quer para a sua vida. Com o apoio da minha agência, fui orientada a não aceitar mais essas participações pequenas, a me colocar em outro lugar e assumir onde eu queria estar”, afirma. A mudança de postura, segundo ela, teve efeitos concretos: “A partir do momento em que deixei de aceitar esses papéis menores, as oportunidades foram crescendo e melhorando para mim. Existem muitos casos de pessoas que começaram assim e hoje são gigantes. É preciso correr atrás, estudar, se formar e se profissionalizar cada vez mais.”
Ao falar de bastidores, Tati não evita episódios mais duros. Antes mesmo de ser atriz, ela integrou o corpo de baile de um programa infantil. “Eu lembro que, na minha época, fui bailarina do corpo de baile do programa da Xuxa e presenciei situações de maus-tratos, coisas realmente horríveis”, relata. Situações semelhantes reapareceriam anos depois, já como atriz, durante uma gravação externa, em um dia de calor intenso. “A produção parou e colocou um guarda-sol para mim. Havia duas meninas figurantes na mesma cena, ao meu lado, e eu as chamei para ficarem debaixo do guarda-sol comigo”, conta. A reação foi imediata e hostil. “A assistente de produção ficou furiosa, perguntou o que eu estava fazendo. Eu expliquei que apenas as convidei para ficarem na sombra, porque estavam expostas ao sol. As meninas ficaram visivelmente constrangidas.”

Tati Infante relembre que, nos bastidores, o clima nem sempre era agradável a quem trabalhava na figuração (Foto: Gabriel Farhat)
Apesar das assimetrias e dos abusos, ela reconhece que a figuração abriga motivações diversas. “Muita gente faz pela grana, de fato. Mas, na maioria das vezes, sempre que vou fazer um filme ou algum outro trabalho, eu converso com as pessoas e me interesso pela história de vida delas”, afirma. As respostas, quase sempre, se repetem: “‘Estou estudando teatro’, ou ‘sou fã’, ou simplesmente gostam de estar ali, naquele universo, perto dos artistas’”. Para Tati, esse dado não é menor. “Acho que são pessoas encantadas pelo meio artístico ou que desejam se tornar artistas. Claro que há quem esteja ali apenas pelo dinheiro, mas esse encantamento pelo universo artístico existe, sim.”
Além da temporada teatral, Tati Infante deve reaparecer em breve também no audiovisual. “Vou gravar, na semana que vem, a segunda temporada de ‘O Drible Perfeito’”, diz, referindo-se à série juvenil que ainda será lançada pela Amazon. No elenco estão Nando Cunha, Isadora Ribeiro e o humorista Ronaldo Reis. “Eu interpreto a diretora de uma escola e começamos as gravações da segunda temporada na próxima semana.” Em paralelo, ela aguarda a estreia de um novo longa-metragem. “Também será lançado o novo filme de Heloisa Périssé, “Amigos em Fuga”, estrelado por Ary Fontoura e Luis Miranda, com estreia prevista para 25 de junho de 2026. O filme tem direção de Mauro Farias, já foi gravado e deve ser lançado nos cinemas em abril ou maio.”
Mas é fora do circuito tradicional que Tati diz investir, agora, sua energia mais autoral. Pela primeira vez, ela leva ao palco um monólogo construído a partir dos textos e vídeos que publica nas redes sociais. “Depois de muito me boicotar, lidando com a síndrome do impostor, este ano finalmente vai sair o meu show, o meu monólogo”, conta. A estrutura do espetáculo dialoga diretamente com o material digital. “Ele tem a mesma pegada do que faço na internet. O ponto de partida são os meus vídeos mais viralizados: o espetáculo começa a partir de um deles e se constrói como um stand-up misturado com biografia e um pouco de ficção. São histórias que eu conto na internet, baseadas diretamente nos meus vídeos.”

Atriz antecipa de que fará em monólogo em 2026 (Foto: Gabriel Fahrat)
A rotina, segundo ela, não é exatamente leve — sobretudo em período de férias escolares. “É uma loucura”, admite. Ainda assim, Tati diz contar com uma rede de apoio sólida. “Eu tenho um apoio enorme do meu marido, o político Pedro Paulo, que me dá uma força gigantesca. Ele é meu fã número um.” O filho pequeno também participa da maratona. “O meu pequenininho também: é uma coisa linda. Fizemos três dias de peça, e ele já foi a dois; semana que vem vai de novo. Ele ama.”
Entre um compromisso e outro, ela administra a própria empresa de óculos, uma companhia de teatro, projetos no audiovisual e a maternidade. “Acho que dá para fazer tudo. Quando a gente faz o que ama, sempre dá um jeito”, afirma. O discurso ganha um contorno assumidamente feminista. “A mulher consegue. Para o homem, às vezes, duas tarefas ao mesmo tempo já são difíceis; sete, então, parecem impossíveis. A gente dá conta.” A cena cotidiana que descreve é quase um manifesto. “Vou dirigindo para o teatro, fazendo maquiagem, decorando texto, aquecendo a voz. A gente consegue fazer tudo quando ama o que faz.”
Como síntese desse momento, Tati adotou uma espécie de lema pessoal para atravessar 2026. “Hoje eu escrevi no fundo de tela do meu celular: ‘Tudo é possível’”, revela. A frase funciona como guia e promessa. “Estou nessa fase, nesse pensamento. Lei da atração, mentalizar, ir com tudo e acreditar que dá certo.” Para ela, ao menos por ora, essa convicção basta.
Artigos relacionados
Lázaro Ramos fala da chegada de seu vilão africano ao Brasil em "A Nobreza do Amor" e sobre autores negros na TV
Gabriel Braga Nunes comemora sucesso no teatro e nega volta à TV: "Fiz 25 novelas em 25 anos"
GloboPop erra no conceito, falha na execução e revela dificuldades da Globo para competir com TikTok e Kwai