Cinema & TV

Tarcísio Meira e o beijo gay na TV: “Não é por alguns serem diferentes, que vão fazer outros se revoltarem. Absurdo. Tem que mostrar as pessoas como elas são”

Em entrevista ao HT, o ator explicou: "Eu me afastei por muitos anos dos palcos porque eu procurei fazer na televisão um teatro popular"

Publicado em 25/04/2016 | Por Lucas Rezende

Tarcísio Meira tem 80 anos e “é um ator que vai até as últimas consequências”. Ele é daqueles que acha “injusto que um pessoa usando uma carteirinha fajuta pratique violência contra profissionais de teatro” ao burlar a lei da meia entrada. Apaixonado pelo teatro – arte da qual atribui o adjetivo de “indispensável” -, Tarcísio sabe que falta muita gente ser alcançada por essa arte, mas também não faz discurso de crítico. Talvez porque já perdeu “muito dinheiro nessa vida levando peças para lugares absolutamente virgens de teatro”. E ao lado da mulher, Glória Menezes, com quem está casado desde 1962. “Era muito importante, para mim e para a Glória, conhecermos os brasileiros e nos mostrarmos para eles. Fomos sabendo que estávamos perdendo dinheiro. Mas fizemos questão de ir”. Deu certo.

Tarcísio Meira em cena de "O Camareiro" (Foto: Divulgação)

Tarcísio Meira em cena de “O Camareiro” (Foto: Divulgação)

O primeiro protagonista da primeira telenovela diária e facilmente disputando o título de melhor ator vivo da história da dramaturgia brasileira, Tarcísio é aspirante a Zeus do olimpo da atuação. Gripado e afônico, ele aceitou conversar com a reportagem de HT enquanto curte uma folga do Coronel Jacinto de “Velho Chico” e se prepara para integrar o elenco de “Sagrada Família”, próxima novela de Maria Adelaide Amaral. Ah, e paralelamente, protagoniza “O Camareiro”, peça que dá start na oitava edição do Circuito Banescard de Teatro, sob batuta da WB Produções, em Vitória (ES). De Ronald Harwood, com direção de Ulysses Cruz, o espetáculo se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando um ator de teatro à beira de um colapso nervoso luta no limite de suas forças para interpretar mais uma vez o “Rei Lear” de Shakespeare.

Com vocês, o senhor Tarcísio Meira.

HT: Em “O Camareiro”, apesar de todo o plano de fundo com a Segunda Guerra Mundial e do drama do seu personagem, o ator Sir, a beira de um colapso nervoso lutando no limite de suas forças para interpretar mais uma vez uma peça de Shakespeare, há todo um discurso sobre continuar ou desistir, cumprir sua missão ou desertar; mas, acima de tudo, uma homenagem ao teatro e ao ator. Ou seja: uma espécie de auto homenagem. Diante isso, qual reflexão o senhor quer provocar em que te assiste?

Tarcísio Meira: Como você bem disse, a peça mostra personagens profundamente humanos e vivendo situações limites. É muito bonito esse encontro do personagem com seus respectivos problemas. Não são questões que você encontra todos os dias, em todos os lugares. E, além disso, são profundamente sensíveis, mas igualmente sérias. Os personagens passam por um colapso, por um problema físico e existe uma vontade maior de cumprir o objetivo – que é encenar a peça. E ainda existe o público e o teatro como fatores. Quando você pergunta da reflexão, ache que o bonito é como o público vê e entende isso. Raramente o público tem a oportunidade de ver o que é uma coxia de teatro – e o espetáculo encena exatamente isso. Ah, e acrescento: além de uma homenagem ao teatro e ao ator, há, sobretudo, uma homenagem ao profissional de teatro em geral.

HT: Mas há tanto tempo vivendo da arte da ribalta, suponho que o senhor percebe uma disparidade em relação a importância do teatro e a realidade dentro da cultura do nosso país…

TM: O teatro sempre existiu e sempre vai existir. Ele é indispensável.

HT: É indispensável, mas o senhor ficou um bom tempo sem fazer peças.

TM: Eu me afastei por muitos anos dos palcos porque eu procurei fazer na televisão um teatro popular. Então, pensando dessa forma, eu não deixei de fazer. Eu queria, na verdade, era fazer, em novelas, algo para um público que jamais iria ou irá ao teatro. E eu sou feliz com a decisão que tomei. Nem sempre fiz bons textos, mas, em sua maioria, foram bons. Digamos que fantasiamos, eu e meus colegas, para o público algo que eles não podiam ter. Levamos histórias ao rincões mais distantes desse país.

HT: E isso é triste, né. Uma gama de pessoas não têm acesso a uma arte tão nobre.

TM: Isso. No teatro, as pessoas vão participar de uma brincadeira de faz de conta. É um exercício de sensibilidade. E a mesma coisa na televisão também. Mas no cinema isso não acontece. Porque, na novela, você tem começo, meio e fim de uma história. Você está vendo a história acontecer. E acabou o capítulo, mas amanhã ela vai continuar. E o personagem vai participar de modificações. Nós, atores, temos uma propriedade única no mundo que é a de viver personagens vivos e mostrá-los vivendo. Porque, bom citar, esses personagens não chegam nunca ao fim.

HT: Mas voltando a questão da disparidade no acesso ao teatro, ao o que ou a quem atribui essa situação em pleno 2016?

TM: Porque é caro, é difícil e demanda uma série de dificuldades. Imagina você levar uma peça para Três Lagoas, lá no interior do Mato Grosso do Sul. É difícil, de um esforço muito grade.  O único teatro, há não muito tempo, que aquelas pessoas tinham, era o teatro do circo. E a maioria das peças são enormes. Eu e minha mulher (Tarcísio é casado com a também atriz Glória Menezes desde 1962) perdemos muito dinheiro nessa vida levando peças para lugares absolutamente virgens de teatro. Mas isso é uma coisa diferente porque eram montagens menores, menos comprometidas com cenário e equipe grade. Fizemos, por exemplo, muitos teatros em cinema porque era muito importante, para mim e para a Glória, conhecermos os brasileiros e nos mostrarmos para eles. Fomos sabendo que estávamos perdendo dinheiro. Mas fizemos questão de ir.

HT: Há dois meses, uma determinação aprovada pelo Tribunal de Contas da União deu conta de que o Ministério da Cultura não poderá aprovar subsídios para projetos com “forte potencial lucrativo” pela Lei Rouanet. O senhor acha a medida positiva ou negativa?

TM: Eu quero que todos os meios possíveis sejam oferecidos para fortalecer esse contato do teatro com o povo em sua maioria. Eu não produzo há um tempo, mas eu sei, por exemplo, que o Kiko (Mascarenhas, que comprou os direitos de “O Camareiro”, produziu a peça e convidou Tarcísio para protagonizar), que é um produtor corajoso, tem tido dificuldades. Não é tão fácil montar uma peça. Tem a questão da falta de teatros apropriados. Eu desejo que todos os meios sejam oferecidos aos profissionais de teatro para que eles vã ao maior número possível de teatros do Brasil.

HT: Certa vez, conversando com o Antônio Fagundes, ele me disse existe “a farra da meia-entrada”, que nada mais é que “um jogo político de vereadorzinho qualquer, ou deputadozinho qualquer que está faturando com o chapéu alheio”. O senhor corrobora?

TM: Eu concordo que existe um abuso dos usos das meias entradas. Acho que isso não pode haver. Os produtores, os artistas e os técnicos que viajam pelo Brasil têm que ter uma remuneração justa e digna. Eu acho injusto que um pessoa usando uma carteirinha fajuta pratique o que eu chamo de violência contra esses profissionais. Mas agora, o cidadão que está estudando e por isso não trabalha e tem que, sim, frequentar o teatro, acho que ter uma facilidade.

HT: Vamos falar de televisão. Depois de “Velho Chico”, o que vem por aí?

TM: Estarei na próxima novela que vai substituir “Velho Chico”. Será da Maria Adelaide Amaral. Está tudo ainda no começo, mas é uma historia moderna, que se passa na atualidade e haverá uma volta no tempo, rápida, só para posicionar os fatos. Os personagens da Maria Adelaide são muito fortes, né.

HT: Se existe um temor para as emissoras de televisão é o controle remoto…

TM: (Tarcísio gargalha).

HT: …qual a linha tênue entre ser fiel uma história e ceder às pressões do público em nome da audiência?

TM: Não se pode perder o público de vista, mas também não podemos andar a reboque do público. Não devemos andar tão à frente de forma que ele não possa nos acompanhar. Não é só uma história de propor isso ou aquilo. O público tem que nos entender e nós a eles. Nós temos que fazer um trabalho para o público. E temos que nos fazer entender, temos que ser convincentes do nosso trabalho. Temos que acreditar na veracidade desses fatos que apresentamos.

HT: Esse público que o senhor fala, por exemplo, não aguentou ver a Fernanda Montenegro beijando a Nathalia Timberg…

TM: Há momento para tudo. De repente, é uma questão que está longe do público. Você quer que o público compreenda seus personagens. Se as personagens de Nathalia e Fernanda são pessoas como eram (em “Babilônia”, ambas interpretavam um casal de lésbicas que, volta e meia, trocavam singelos selinhos. Houve um boicote, de setores conservadores, à época), as pessoas têm que entender. Há pessoa que são como elas são. E com as quais tem que conviver da melhor maneira possível. Não é porque alguns são diferentes, que vão fazer com que outros se revoltem, que não aceitem essas diferenças. É um absurdo. Você tem que mostrar as pessoas com ela são.

HT: Duas questões para encerrar: qual personagem da carreira que o senhor mais gosta?

TM: Olha, o Sir, de “O Camareiro”, é um personagem muito lindo, me comove, me emociona. Me motiva internamente. É muito perto de mim, é um ator que vai até as ultimas consequências.

HT: E o que te move, aos 80 anos, sair de casa, decorar uma pilha de textos e gravar diariamente?

TM: O que me moveu sempre: meu trabalho exige dedicação e não encaro como um emprego. Ser ator me instiga. Se eu não fosse ator profissional, eu seria amador.

Serviço

8ª Edição do Circuito Banescard de Teatro com a peça “O Camareiro”, com Tarcísio Meira, Kiko Mascarenhas e grande elenco

Direção: Ulysses Cruz

Texto: Ronald Harwood

Data: 6, 7 e 8 de Maio

Horários: sexta e sábado às 21h, domingo às 18h

Local: Teatro Universitário – UFES

Endereço: Av. Fernando Ferrari, 514, campus da UFES – Goiabeiras – Vitória – ES

Preço: Térreo – Setor A e B : ​R$100 (inteira), R$50 (meia-entrada)

Mezanino: R$ 60,00 ( inteira) , R$ 30,00 ( meia entrada)

Bilheteria: de terça-feira a sexta, das 15h às 20h, e sábado e domingos do evento, ou pelo site www.ingresso.com.br

Informações: 27 3335 2953 / 27 3029 2765 / www.wbproducoes.com

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