Tarcísio Filho estreia em locução de audiobook, fala se volta à TV e diz que Glória Menezes vê “Rainha da Sucata”


O ator se afastou da televisão para assumir as fazendas, após a morte do pai, o ícone da dramaturgia Tarcísio Meira, e hoje não tem pressa de voltar às novelas. Encontrou nos audiolivros um novo território criativo, unindo literatura e teatro, e estreia com “Um Certo Capitão Rodrigo”, de Erico Verissimo. Sua relação com a obra vem de longa data, quando o pai interpretou o personagem. Inclusive, Tarcísio Filho tem, em audiovisual, um material inédito de making of gravado por ele nos bastidores da minissérie dos anos 1980. Em entrevista exclusiva, Tarcísio reelabora o próprio tempo – em movimento e revela que a mãe, Gloria Menezes vê a reprise de “Rainha da Sucata”

*por Vítor Antunes

Ele está na televisão há décadas; seus pais, praticamente desde a fundação. Segundo o próprio Tarcísio Filho, a imagem da família se cristalizou na tela — do tudo ao cristal líquido. Tarcísio Meira (1935-2021), Glória Menezes e ele mesmo atravessaram gerações: da transmissão em preto e branco ao vídeo em cores, das primeiras câmeras às telas de LED, como figuras indissociáveis da própria história da teledramaturgia brasileira. Mas, quase no mesmo período em que Glória se aposentou, e após o falecimento de Tarcísio Meira, o filho deixou a TV – e não pretende voltar tão cedo.

“Por agora não pretendo. Quando o Tarcisão faleceu, eu tive que rever os negócios de família. O pai lidava com fazenda já há muitos anos. Eu brincava que era um fazendeiro que ocasionalmente fazia trabalho como ator. Com o falecimento dele, eu tive que dar uma tomada de pé de coisas que eu andava bastante afastado, porque eu ia às fazendas passear, andar a cavalo, para me divertir, mas eu não tinha o pulso do negócio, por assim dizer. No início foi um pouco assustador. Então, por um, dois anos, eu fiquei centrado nisso e, agora, que deu para relaxar mais um pouco. Eu estou voltando aos pouquinhos [a trabalhar como ator], mas sem correria”.

A ausência da urgência, no entanto, abriu espaço para outra presença — discreta, mas marcante. O ator voltou-se para a leitura de audiolivros. O trabalho de estreia é “Um Certo Capitão Rodrigo”, de Erico Verissimo (1905-1975), com selo da Companhia das Letras. O pai, Tarcísio Meira, viveu o personagem na TV. “Eu comecei a me envolver com os audiolivros, que já era uma proposta que parece que é nova, mas eu estou de olho nesta empreitada já tem uns 30 anos. E agora que realmente eu acho que vai deslanchar. Então eu estou completamente envolvido e une duas paixões: literatura e o teatro”.

Obra de Erico Verissimo ganha novo formato inédito na voz do ator Tarcísio Filho (Foto: Divulgação)

A história entre pai, filho e obra tem ainda uma história inédita. Na época das gravações da minissérie, Tarcísio Filho registrou – em VHS – um pequeno documentário de bastidores. “Eu tinha uma câmera VHS e gravava muito. É um material fartíssimo das gravações. Esse material não está público ainda. Quando saiu o DVD de “O Tempo e o Vento”, eu falei: ‘Olha, também tem material aí’. A Globo não se interessou e eu falei: ‘Beleza, então ainda é meu’. É o backstage mesmo: meu pai se preparando, maquiando, vestindo o figurino, chegando às gravações, mostrando as danças cenográficas, algumas cenas. Eu tenho o Capitão Rodrigo caindo do cavalo – isso é maravilhoso. Pequenos acidentes, chuva, um troço que era para explodir e não explodiu, um que era para pegar fogo e não pegou fogo”.

O suposto ineditismo, porém, não é tão novo para ele. “Outro dia eu estava me dando conta: as pessoas falam como se fosse uma grande novidade. Eu sempre fiz locução. Mesmo porque eu abri uma produtora com a minha esposa em Porto Alegre. Já havia esse olhar meu para o audiolivro. As pessoas não sabem, mas tem um monte de filme que estou lá, fazendo a locução. E há pessoas me reconhecem pela voz”, revela.

Enquanto o ator reorganiza caminhos, sua mãe revive os próprios. Aposentada desde ao menos 2015, quando fez sua última participação em novelas, Glória Menezes pode ser vista novamente em um de seus papéis mais marcantes, a Laurinha Figueiroa de “Rainha da Sucata”. Segundo o filho, ela acompanha a reprise com entusiasmo. “Minha mãe está em casa. Ela sempre foi uma mulher muito elétrica e a idade deu uma acalmada nela, que virou uma vovozinha muito tranquila, que gosta de estar em casa, revendo trabalhos. Está adorando se ver em “Rainha da Sucata”, gostando de ver as bisnetas. Eu falei: ‘Mãe, agora você envelheceu e virou a dona Benta’”, brinca.

Gloria Menezes como a vilã Laurinha, madrasta de Edu Figueroa (Tony Ramos), e fazia de tudo para atrapalhar o romance dele com Maria do Carmo (Regina Duarte)

BUENAS E ME ESPALHO

“Buenas e me espalho; nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho” — a frase, orgulhosa e desafiadora, é do Capitão Rodrigo Cambará, personagem de “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo. A expressão resume um homem que recua quando a vida exige leveza, mas avança com força quando o conflito se impõe. Em 1985, Tarcísio Meira lhe deu corpo na minissérie da Globo. Quase quatro décadas depois, é o tempo — esse mesmo vento dos Cambará — que devolve o personagem à voz do filho, Tarcísio.

“Quando o pai interpretou o Capitão Rodrigo, ele tinha 51 anos. Isso. O Capitão Rodrigo tem 35. Ele ficou muito surpreso quando o Paulo José (e o Boni o convidaram para fazer o personagem. ‘Cara, eu estou velho para fazer o Capitão Rodrigo; e ele está saindo da juventude’.” O filho, ainda jovem, acompanhou a escolha com entusiasmo. “Quando eu soube que o pai ia fazer, eu fiquei contente — não apenas porque era meu pai, mas porque eu já havia lido “O Tempo e o Vento”  e sabia que viria uma produção cuidadosa, muito bacana. Eu fiquei contente demais”.

Tarcísio Meira e Louise Cardoso em “O tempo e o vento” (Foto: Divulgação)

A relação de Tarcísio Filho com Erico Verissimo se aprofundou ao longo dos anos. “Evidentemente que eu tenho a obra do Erico muito cristalizada, porque eu li inteira. Houve um dia em que eu acordei e disse: ‘Cara, eu estou deixando uma bola quicando; agora que o audiolivro está começando a deslanchar, eu quero fazer a leitura das obras do Erico’. Produzi um primeiro capítulo de Capitão e fiquei muito feliz porque o Luiz Fernando Verissimo (1936-2025) ainda estava vivo. Mas, ele  faleceu logo na sequência.” A escolha por “Um Certo Capitão Rodrigo” obedeceu a um critério pragmático: é uma obra mais curta que as demais da trilogia.

As 192 páginas da obra foram transformadas em 6h20 de áudio em um trabalho que levou mais de 40 horas para ser gravado, editado e finalizado. Foram dias de gravação em estúdios do Rio de Janeiro e Porto Alegre com produção técnica da Radioativa e supervisão de Carina Donida. A direção e produção é de Tarcísio Filho por Mythago Produções.

Tarcísio Filho narra “Capitão Rodrigo” (foto: Divulgação)

O ator faz questão de afirmar que o texto permanece intacto. “Não tem adaptação. O grande barato é que eu estou lendo a obra do Erico. E um ponto que me causou muito trabalho foi o seguinte: o corpo descritivo da fala é tão importante quanto a fala. É muito óbvio para o ator querer fazer as cenas exatamente como estão lá. Se você fizer, não vai ficar tão legal. Aquilo ali é literatura. Então, eu podia fazer a fala como o Erico acaba de descrever, mas eu só dou uma pista. Fico sempre entre o fazer completamente e não fazer. É um balanço bastante complicado. Eu não quero tirar do leitor ou do ouvinte o prazer de participar um pouco do obra. Eu faço uma pista das indicações. Tento modular um pouco a voz. Eu não faço a voz de diferentes personagens, mas modulo diferentemente. Isso deu muito trabalho”, revela.

Tarcísio Filho (em primeiro plano) em sua primeira participação no cinema, no longa “Independência ou Morte”: “Foi minha primeira remuneração. Ganhei uma bicicleta” (Foto: Reprodução)

Com carreira que passou por quase todas as emissoras de TV aberta — só não trabalhou na Record — ele vê diferenças pontuais entre elas, mas uma mesma espinha dorsal. “Todas essas emissoras beberam de um caldo comum de profissionais, que eram os fundadores. Se você começar a olhar, vai ver que está tudo misturado com a nova geração que estava vindo, assim como na época da direção do Jayme Monjardim ou do Luiz Fernando Carvalho, mas o substrato técnico, de produção e pré-produção, era todo formado pela primeira leva de pioneiros da TV. O modo de produção, p

Tarcísio Filho durante a gravação do audiolivro “Um Certo Capitão Rodrigo”

ara mim, é muito parecido. O que não era parecido, evidentemente, era a liberdade que os diretores e autores tinham em horários e emissoras diferentes, com interesses específicos”.

A maturidade diante das câmeras, um tema que aflige parte da classe artística, não tira o sono do ator. “Eu sempre fui muito velho, mesmo quando jovem. Eu era aquele nerd esquisito. Ou seja, fui vestir a minha pele depois dos 30 e poucos. E de lá para cá só melhora. Eu tive um pouco de crise aos 30, tá? Mas depois, não mais”. A televisão, sempre pronta a reprisá-lo — e a reprisar os pais —, reforça essa relação tranquila com a passagem do tempo. “Está acontecendo uma coisa engraçada, por exemplo, de me ver — porque hoje em dia a gente tem um espectro de ver com muito tempo atrás. E continuo vendo meus pais com muito tempo atrás. Está sendo reprisados “Rainha da Sucata”, “O Beijo do Vampiro”, o que me faz ter uma relação amistosa com a maturidade.”

O que está acontecendo com relação ao meu pai é o seguinte: ele faleceu, mas sua imagem parou no tempo. Eu continuo. os meninos aqui na praia, quando eu paro no sinal ali, falam assim: “Olha lá o vampirão, é aquele, olha É o Boris. Não. Esse era o meu pai, ele morava aqui no Rio e morreu – Tarcísio Filho

A saudade que Tarcísio Filho sente do pai se confunde com a intimidade que o público manteve durante décadas com Tarcísio Meira. “Várias gerações sempre souberam como meu pai respirava em cena, como ficava triste, como ele ria, que entonação dava, quando ele estava não sei o quê, como é que ele ficava bravo.” Essa familiaridade, diz o ator, também se estende a ele. “E comigo também, porque já estou nesse jogo há muitos anos. A gente é parecido, mas fica muito fácil, de qualquer coisinha, se estabelecer uma ligação de um com o outro, porque nós somos figuras cênicas muito presentes na cabeça das pessoas”.

Tarcísio Meira e Glória Menezes, pais de Tarcísio Filho (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Tarcísio Filho quem continua em movimento – voz que amadurece, ecoando sobre as mesmas paisagens onde o pai ficou para sempre jovem, bravo, heróico. Entre audiolivros, memórias em VHS e a rotina das fazendas, ele parece negociar diariamente com o tempo: deixa que o vento leve o que precisa ir, mas mantém ao alcance das mãos o que insiste em ficar. A cada nova aparição — mesmo quando só a voz emerge —, reativa no público a lembrança de uma linhagem que atravessou a história da TV brasileira como quem atravessa um pampa: firme, sem pressa, com o horizonte sempre aberto. E talvez esteja aí a chave silenciosa de sua trajetória recente — seguir adiante, mas carregando consigo, como farol ou sombra, a respiração ainda presente de pais que o Brasil inteiro aprendeu a reconhecer.