*Por Brunna Condini
A estreia de Tainá Müller na direção de um longa-metragem soa menos como uma estreia e mais como um retorno natural à sua primeira forma de expressão. Antes de ocupar a frente das câmeras, ela já havia passado pelos bastidores do audiovisual — montadora, produtora, assistente de direção, repórter (ela foi VJ na MTV Brasil), que buscava costurar poesia às narrativas que contava. Era ali, e não apenas na atuação, que seu olhar se formava. “Eu trabalho com audiovisual desde os 17 anos”, lembra ela que tem 43 anos e 20 como atriz. “A pandemia reacendeu essa inquietação de criar com a minha própria voz”.
É desse reencontro que nasce ‘Apolo’, documentário codirigido por Tainá e Isis Broken já em cartaz nos cinemas, após uma trajetória consagradora no Festival do Rio e no MixBrasil. O filme acompanha a gestação de Apolo, filho de Isis e Lourenzo Gabriel — um casal de pessoas trans — e torna visível uma cena que ainda provoca desconforto em uma sociedade acostumada a estruturas fixas: a de um pai trans dando à luz. “A oportunidade de ver tão de perto a diversidade das manifestações da existência é estimulante, tira as pessoas do lugar comum”, afirma Tainá, que enxerga no filme não apenas um registro íntimo, mas um convite para expandir percepções. Mas ‘Apolo’ não se resume ao ineditismo do tema. Há nele um pacto de delicadeza, ética e colaboração, refletido tanto na construção das imagens quanto na decisão de envolver a família em todas as etapas do processo. “Não queria um frame que os deixasse desconfortáveis”. O resultado é um filme que atravessa a política pela via do afeto, e a intimidade pela via da dignidade, uma investigação do que significa existir, amar e criar um filho em meio ao preconceito cotidiano. Tainá reflete sobre o impacto do longa:
O que me move como artista é ir jogando essas sementes no mundo, sem saber ao certo como vão florescer. Fizemos o filme com o propósito de abrir percepções. Ele já é dado como um registro histórico, pelo ineditismo do tema. Então nossa esperança é de que, no futuro, as pessoas possam consultá-lo como um documento – Tainá Müller

Tainá Müller estreia na direção retratando a gravidez de um casal trans, e revela que a vontade de um segundo filho ainda a acompanha (Foto: Milena Seta)
Premiado por sua força narrativa e musicalidade, com trilha assinada por Plinio Profeta, o documentário chega ao público como um gesto de resistência e um convite ao entendimento. Entre as muitas camadas de ‘Apolo’, a imagem que se impõe com força simbólica, a de um pai, um homem, parindo, fez a história sair da esfera íntima e assumir contornos de provocação social. Tainá explica que essa percepção emergiu no contraste entre a experiência da família e o empobrecimento do debate público. “Vivemos em um tempo cada vez de pensamento mais raso, binário, guiado pelo algoritmo das redes, onde as pessoas querem resolver as questões mais complexas com respostas simples”, observa.
A proximidade com Isis e Lourenzo, abriu outra dimensão. “A oportunidade de expandir a consciência ao ver tão de perto a diversidade das manifestações da existência, através dessa família que se constituiu a partir de corpos dissidentes, é estimulante, tira as pessoas do lugar comum”. Ainda assim, o filme mira também em quem não está familiarizado com o tema:
Esse documentário também foi feito para as pessoas que temem o que não conhecem, por isso um álbum de bebê, ‘um presente de entendimento’, como é falado no início, que é para Apolo, mas também para todo mundo que não conhece nada sobre o tema – Tainá Müller

Isis Broken e Tainá Müller dirigem ‘Apolo’ (Foto: Milena Seta)
E é a própria chegada da criança que abre espaço para esse deslocamento. Como ela descreve, “A luz da chegada dessa criança preenche as lacunas do indecifrável, então mesmo quem é resistente ao tema acaba sendo enlaçado pelo afeto e pelo sagrado do que se manifesta ali, para além de qualquer questão política ou filosófica”. Mas a força de ‘Apolo’ não se dá apenas pelo impacto político ou pela potência simbólica das imagens. Ela também atravessa Tainá de maneira pessoal. A diretora conta que, ao acompanhar tão de perto a gestação de Apolo e a construção de uma família transcentrada, precisou rever conceitos profundamente enraizados, inclusive aqueles que acreditava já ter superado.
Eu, como tantas pessoas, fui ensinada que, para entender a questão trans, era preciso pensar em alguém com a mente funcionando como um gênero, mas no corpo de outro”, reflete. “Isso dá aquela ideia do ‘nasceu no corpo errado’, que a Ísis confronta lindamente no filme. Quando ela diz que nasceu no corpo certíssimo, entendi que o corpo trans é uma manifestação da natureza válida por si só, que não precisa se apoiar na normatividade cisgênera – Tainá Müller

“A oportunidade de ver tão de perto a diversidade das manifestações da existência é estimulante, tira as pessoas do lugar comum” (Foto: Milena Seta)
E pontua. “Por mais que eu tivesse estudado sobre o tema, percebi que ainda tinha esse pensamento binário enraizado. E quando o cérebro se reconfigura para uma ideia mais ampla e interessante, a sensação é a de que algo em nós ilumina”. Não à toa, o primeiro plano do filme é o de um sol que explode na tela: uma metáfora para Apolo, para a criança que chega e também para o pensamento que se abre. “Apolo significa o deus Sol, mas é também esse sol que vem aquecer corações que gelam em uma racionalidade obtusa”.
A diretora frisa que gênero e sexualidade humana carregam uma complexidade que escapa a qualquer manual explicativo. “Nenhuma ciência, religião ou filosofia dá conta disso por completo”, diz. Por isso, optou por imagens transcendentes, quase espirituais, que convidam o espectador a fazer as pazes com o mistério:
É um chamado para as pessoas pararem de questionar tanto e apenas respeitarem o próximo, como lhes é de direito. Respeitar custa bem menos do que buscar explicações – Tainá Müller

Lourenzo Gabriel a espera de Apolo, em cena de documentário de Tainá Müller (Foto: Divulgação)
Mãe de um menino, Martin, de 7 anos, fruto de seu casamento com o diretor Henrique Sauer, Tainá admite que dirigir ‘Apolo’ a fez revisitar o desejo de ter ouro filho. “Esse pensamento vai e volta”, revela. “Amo ser mãe, nada na vida é tão compensador quanto ver meu filho crescer. Mas, ao mesmo tempo, tenho muitas inseguranças com o tempo que vivemos. É muito duro criar filho em um mundo fragmentado, com tantas incertezas”. Mas a questão ainda não é uma porta fechada. “Penso muito sobre isso, é algo que logo vai chegar a uma resolução”.
E, enquanto essa resposta não chega, Tainá segue gestando outro tipo de futuro: o artístico. O rito de passagem por trás das câmeras reacendeu desejos antigos, caminhos interrompidos e novas possibilidades. “Quero seguir contando histórias que me movam, seja como atriz, diretora, roteirista ou produtora”, diz, ela, que também acaba de atuar em ‘Mariana’, novo longa de Paulo Fontenelle, atualmente em pós-produção. “Precisam ser histórias que façam sentido de serem contadas por mim, naquele exato momento em que chegam”. Tainá segue com o horizonte aberto, tão luminoso quanto o sol que dá nome ao filme que a guiou à direção.

“Quero seguir contando histórias que me movam, seja como atriz, diretora, roteirista ou produtora” (Foto: Milena Seta)
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