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Sucesso como o Sabiá de “A Força do Querer”, Jonathan Azevedo desconstrói imagem do traficante, mostra personalidade generosa e revela medo de arma: “Nem no paintball”

Na trama das 21h, o ator faria apenas algumas participações como o chefe do Morro do Beco, comunidade fictícia da trama. Porém, com a boa repercussão do Sabiá, Jonathan passou a integrar o elenco da novela e hoje se destaca na história de Gloria Perez. "A popularidade desse Sabiá fez eu voar tão alto que já ficou até difícil andar na rua"

Publicado em 21/09/2017 | Por Julia Pimentel

“Eu saio do estereótipo para criar um novo conceito”. De duas cenas como figurante em “A Força do Querer”, Jonathan Azevedo ganhou espaço, popularidade e destaque como o Sabiá na trama das 21h da Globo. O personagem, que teria uma pequena participação em uma das cenas no Morro do Beco, comunidade fictícia da novela, caiu no gosto do público e hoje o ator comemora o sucesso como revelação do horário nobre. Em “A Força do Querer”, Jonathan traduz o que sempre esteve presente em sua infância na comunidade Cruzada São Sebastião, no Rio de Janeiro, em um chefe do tráfico que, apesar da profissão ilegal, se revela um homem que ama e se preocupa com o próximo.

Desconstruindo rótulos na televisão, Jonathan contou que sua vida também ganhou nova rotina depois de o sucesso de Sabiá. Agora, de figurante a personagem de destaque, o ator brincou que convive com um assedio até então desconhecido nas ruas do Rio. “A popularidade desse Sabiá fez eu voar tão alto que já ficou até difícil andar na rua”, disse Jonathan que, apesar da rotina badalada, afirmou estar vivendo um sonho. “Foi algo que eu sempre quis. Eu estou ganhando tanto amor e carinho nas ruas que me emociono a cada pessoa que vem falar comigo. Isso não é só o sucesso do Sabiá como um personagem, é o meu, da minha família e da minha comunidade. É o resultado de um trabalho de união com o elenco e a equipe da novela e de uma conscientização muito importante”, apontou.

 

Com a boa repercussão do personagem, Jonathan passou de duas cenas iniciais para parte do elenco de “A Força do Querer” (Foto: Studio Faya)

No entanto, este não era para ser o destino do personagem no primeiro momento. Segundo Jonathan, quando foi gravar para “A Força do Querer”, a ideia inicial era que o ator fizesse duas ou três cenas que ilustrassem a chegada de Rubinho (Emílio Dantas) à comunidade da ficção. “Mas aí foi chegando uma cena, depois outra, mais uma… E acabou que o Sabiá entrou para o elenco”, disse o ator que confessou ter se surpreendido com a boa repercussão de seu personagem traficante. “Foi uma resposta bem curiosa do público. Eu já fiz outros trabalhos como ator em que eu fazia bandidos e falava sobre criminalidade. Mas, com o Sabiá, eu acho que eu consegui humanizar a figura daquele cara que era para ser o vilão da história. Nas minhas outras oportunidades como bandido, eu não sorria. Enquanto na novela, eu até amo”, comentou sobre a relação de amor de Sabiá e Alessia (Hylka Maria).

Com esta personalidade “humanizada” defendida por Jonathan Azevedo, o ator levou seu personagem para outra atmosfera. “Todo mundo da comunidade sabe que ele tem uma profissão ilegal e trabalha com coisa errada. Mas, mesmo assim, ele é um cara admirado. O Sabiá tem um amor, tem família, se preocupa com o bem-estar da comunidade e quer ajudar os outros. Isso não exclui o fato de ele ser um bandido, mas eu acho que minimiza. Então, eu acho que essas atitudes fazem com que o Sabiá deixe de ser um simples vilão para ser um conscientizador, um cara que faz de tudo para ser bom”, analisou o ator que, por isso, acredita que o personagem tenha conquistado a simpatia do público.

Só que, com a simpatia e o sucesso, Jonathan Azevedo passou a viver uma confusão entre a ficção e a realidade. Morador do Vidigal, no Rio de Janeiro, o ator disse que é visto como o chefe do morro de todas as comunidades cariocas quando está fora dos sets de “A Força do Querer”. Com bom-humor, Jonathan conta que as pessoas confundem o ator com o personagem e algumas até ficam com medo quando vão pedir uma foto. “Tem gente que acha que eu sou perigoso como na novela. Elas levam para o subconsciente o que veem na televisão e, quando me encontram no Rio, ainda mais em uma favela, acham que eu sou o Sabiá. Mas não. Aí, quando chegam para tirar uma selfie, se espantam com a minha personalidade. Eu sou muito calmo e super paz e amor”, defendeu.

“Tem gente que acha que eu sou perigoso como na novela” (Foto: Studio Faya)

E é verdade. Por trás de todas as gírias e os cordões de ouro do Sabiá, Jonathan Azevedo guarda um coração generoso que, a todo momento, quer levar mensagem de amor e esperança para o público que conquistou com a novela. Com os fuzis como figurino em “A Força do Querer”, o ator confessou ter medo de arma e que nem o brilho do ouro do personagem o atrai. De acordo com ele, apesar de os elementos externos que compõem seu personagem na novela fazerem parte de sua vida como morador de comunidade, nada ali o deixa confortável. “Eu tenho muito medo de arma. É um pânico mesmo. Assim que a acaba a cena, eu já tiro e não gosto nem de ficar perto. Eu não gosto da energia, me faz mal. Não vou nem a paintball”, disse Jonathan que, na vida, é defensor de uma arma diferente das usadas no crime. “Eu sou uma pessoa de energia e gosto de trazer sempre coisas boas por onde eu passo. Quando eu conheci a cultura rastafári, isso ficou ainda mais forte para mim. Na vida, eu sei que cada um tem uma forma de se defender. Porém, antes de irmos para uma arma palpável e bélica, eu acho que temos que olhar para uma ainda mais poderosa que todos temos em nosso coração, que é o amor. Eu prefiro estar em um mundo defendido pelo sentimento a um em que o poderio bélico é o mais importante. Então, sempre que eu puder evitar machucar um sentimento, eu vou estar ali. Minha função nesse mundo é apenas sarar”, afirmou.

Com este pensamento, Jonathan Azevedo provou que não é de responder na mesma moeda quando, recentemente, sofreu um ataque racista na internet. Em uma rede social, um perfil comentou que teria medo se encontrasse o ator na rua e que o papel de traficante havia lhe servido muito bem. No episódio, Jonathan preferiu não denunciar e apenas desejou mais amor para o autor do ataque. “Eu não quero rebater nada com ódio e pressão. O Brasil faz isso há 500 anos e não deu certo até hoje. Na minha vida, eu quero poder estudar e ajudar a levar apenas sentimentos bons para as pessoas. Para mim, a guerra entre o amor e o ódio tem que ser interna, minha comigo mesmo. Quando eu vou para o panorama externo, em que me relaciono com as pessoas, tenho que ser o mais compreensivo possível”, explicou o ator que, desta experiência, apenas deseja o melhor para o a pessoa responsável pelo comentário racista. “Eu não me preocupo com o preconceito em si. Para mim, o mais importante é que ela cure seus sentimentos e não se permita mais agir assim. Uma pessoa que usa seu tempo para falar isso é porque não ganhou amor e carinho suficiente na vida”, completou.

“Eu não quero rebater nada com ódio e pressão. O Brasil faz isso há 500 anos e não deu certo até hoje” (Foto: Studio Faya)

E esse temperamento positivo, gentil e generoso de Jonathan é algo que ele aprendeu com a cultura black e rastafári em sua vida. Mais do que um visual moderno e singular, os dreads do ator dizem muito sobre sua personalidade. Inclusive, com a novela, o cabelo de Jonathan Azevedo também agregou um novo sentido à personalidade do Sabiá. “No começo da novela, eu lembro que um cara comentou que a Globo estava pegando pesado em colocar um traficante com dread na cabeça. Na época, eu respondi que não era isso. O nome daquilo era arte. Através dela, nós podemos ser quem quisermos, desde que a gente faça aquilo com verdade. A cultura black me ensinou a ser quem eu sou hoje e, independente da figura que eu me coloque, ela vai me acompanhar nos meus princípios. E esse é um recado que o Sabiá está me permitindo levar às pessoas”, defendeu o ator que, com o estilo, o cabelo vem conquistando novos espaços na telinha e quebrando estereótipos.

Porém, na contramão destes novos conceitos apontados por Jonathan Azevedo, tem também aqueles velhos padrões que ainda existem nas relações pessoais e profissionais. Como ele lembrou, o Sabiá não é o primeiro bandido de sua carreira de dez anos dedicados à atuação. Para ele, ainda há uma estereotipação do ator negro que, frequentemente, é visto na posição de bandido, pobre e escravo. Mas, mesmo assim, são em oportunidades como essas de estar na telinha que Jonathan afirma ser importante aceitar os convites. “É uma situação delicada, mas que precisa ser conversada. Para mim, o Sabiá não é só um reflexo do estereótipo, mas do próprio ser humano. Porém, eu acho que se eu abrisse mão desse trabalho por estar vivendo mais um bandido por ser negro, eu estaria perdendo a oportunidade de levar a minha mensagem como consequência. Na vida, nós precisamos saber identificar o que é uma oportunidade e o que é algo que devemos fechar a porta. Ou seja, eu defendo que a gente não se prenda a estereótipos e, sim, a objetivos”, analisou Jonathan que enxerga este trabalho como “positivo em um ambiente negativo”.

“Na vida, nós precisamos saber identificar o que é uma oportunidade e o que é algo que devemos fechar a porta” (Foto: Studio Faya)

E assim, aproveitando as oportunidades para levar uma mensagem de amor através de fuzis e cordões de ouro na ficção, o ator afirmou viver um momento especial na carreira. Antes garoto propaganda de pizzaria, agora, ele potencializa o sonho de viver da arte e da moda. Sim, Jonathan Azevedo é mais que a revelação de “A Força do Querer”. Em sua carreira, ele também divide o tempo com a música como integrante do grupo Melanina Carioca e ainda alimenta o sonho de ser modelo internacional. “Eu tenho muitos espaços para conquistar. Como ator, eu quero muito fazer um galã. Mas também quero ter oportunidades como apresentador porque me acho um cara muito curioso. Na moda, ainda tenho o sonho de fazer trabalhos como modelo fora do Brasil”, listou sobre os desejos que vão além da vida profissional. “Eu tenho um sonho que é muito especial e consequência disso tudo. Um dia, eu ainda quero abrir uma biblioteca na minha comunidade, a Cruzada São Sebastião, onde eu cresci. Eu quero que as crianças tenham a literatura como salvadora, que nem foi comigo. Para mim, um livro é muito mais poderoso do que uma arma”, disse Jonathan Azevedo que, desde a juventude, reconhece sua posição de referência em relação aos meninos que o cercam. Voa, Jonathan!

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