*Por Brunna Condini
(Com colaboração de Lucas Souza)
Com mais de cinco décadas de carreira, Stepan Nercessian vive um momento de intensa atividade profissional. Para o ator, trabalhar nunca foi apenas um meio de vida, é uma forma de existir. “É igual oxigênio. Sem trabalhar, a gente não é nada, não é ninguém”, afirma Stepan, que retorna às novelas para uma participação especial em ‘Coração Acelerado’, novo folhetim das 7 da Globo, depois de quatro anos longe da TV aberta. Ambientada no universo sertanejo, a trama o reconecta a um imaginário que ele conhece bem, mas que hoje observa com uma mistura de saudade e inquietação. “Já gostei muito de música caipira antigamente. Era o tempo da música caipira que a gente amava, da moda de viola. Hoje tudo se transformou tanto… escuto pagode que eu não identifico como pagode, escuto samba que eu não sei mais se é samba, escuto sertanejo que eu não sei mais se é sertanejo. Hoje tem sertanejo de tudo: sertanejo sexual, sertanejo universitário. Mas é um negócio que fala com o Brasil, esse Brasil do agro, agronegócio e tal”, observa.
Para o ator, essa guinada de parte do universo sertanejo provocou, sim, uma ruptura afetiva. Ele faz questão de frisar que respeita o direito de cada um pensar como quiser, mas estabelece um limite inegociável quando o assunto é cultura. “Isso me decepciona profundamente. E não falo de uma pessoa só. É toda uma turma que vive falando mal”, diz, referindo-se aos ataques recorrentes a artistas e políticas públicas de fomento. E não esconde sua indignação:
Falam da Lei Rouanet, criticam todo mundo, falam mal dos artistas que não estão alinhados a eles. Acho isso uma estupidez fora do comum – Stepan Nercessian

Aos 72 anos e com mais de 50 de carreira, Stepan Nercessian volta à Globo em ‘Coração Acelerado’ e segue ativo entre novelas, séries e teatro (Foto: Divulgação/Globo)
Isso muda a forma como você se relaciona com essas pessoas? “Lamento profundamente, porque são pessoas de quem eu sempre gostei muito, e vou continuar gostando. Mas acho que estão equivocadas. Eles acham que estão no caminho certo, eu acho que estão errados. E eles também têm o direito de achar que o errado sou eu. Mas isso tudo, por um instante, me afasta desse universo. Porque essas músicas falam de amor, de encontro, de poesia… são coisas tão lindas que não combinam com quem defende a morte, a repressão, a censura”.
À frente do Retiro dos Artistas por mais 20 anos, instituição que acolhe profissionais da cultura em situação de vulnerabilidade, Stepan acompanha de perto o impacto das políticas públicas, da valorização, ou do ataque, à arte. Por isso, fala sem rodeios: “Quando você é artista, não pode se bandear para o lado de quem é contra a arte, contra a cultura, a favor da censura, da repressão e da violência. isso hoje me afasta desse universo”.
No momento em que faz essas reflexões, o ator vive uma das fases mais produtivas da carreira. Além da novela da Globo, ele acaba de viver um bicheiro da alta cúpula em ‘Os Donos do Jogo’, série de sucesso da Netflix, participou de ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’, da HBO Max, e está na quarta temporada de ‘Arcanjo Renegado’, série do Globoplay.
“Trabalho o tempo todo. Não posso parar. Trabalhar significa reencontrar amigos, fazer novas amizades, continuar vivo”, avalia Stepan, que na trama das sete é Eliomar Sampaio, viúvo de Maria Cecília (Paula Fernandes), que, ao perseguir o sonho de ser cantora, morreu em um acidente na estrada. Ele criou sozinho as filhas Zilá (Leandra Leal) e Janete (Leticia Spiller).

Leticia Spiller e Stepan Nercessian são filha e pai em ‘Coração Acelerado’ (Foto: Divulgação/Globo)
Retorno e despedida
Na novela da sete o ator foi convidado para viver o patriarca da família Sampaio Garcia, um homem honesto, simples e trabalhador, dono de um cobiçado pedaço de terra às margens do rio Caturama. Pai de Janete (Letícia Spiller) e Zilá (Leandra Leal), ele sempre foi marcado pelo amor profundo pelas filhas, ainda que nunca tenha conseguido esconder o xodó pela primogênita, Janete, muito parecida com a mãe. Viúvo de Maria Cecília (Paula Fernandes), morta em um acidente de carro quando ia se apresentar em uma cidade vizinha, Eliomar passou a nutrir um ressentimento amargo pela chamada “vida de artista”.
Abalado pelo escândalo do noivado rompido por Janete e pelas mentiras que Zilá espalha sobre a irmã, ele acaba rompendo com a filha mais velha, um corte emocional que antecede sua despedida precoce. Eliomar tem sua despedida exibida logo no início da novela, em uma sequência que estabelece o tom dramático da trama. Seu velório está entre as cenas mais comoventes dos primeiros capítulos.

Stepan Nercessian volta às novelas após quatro anos para uma participação especial (Foto: Divulgação/Globo)
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