*por Rodrigo Otávio
Quando a RedeTV! surgiu, em 15 de novembro de 1999, apresentou-se como um projeto que pretendia ser diferente num cenário já saturado. A promessa era vaga, mas ambiciosa: originalidade, sofisticação e uma vaga herança simbólica da extinta TV Manchete, cujo sonho fora o de se afirmar como uma “televisão de primeira classe”. A Manchete, quando percebeu que não sobreviveria falando apenas com a classe A, fez concessões tardias — novelas, apelos populares, um diálogo mais direto com o chamado povo. A RedeTV!, por sua vez, nasceu dizendo não querer falar apenas com os ricos, mas apostando no bom gosto como princípio editorial. Era um discurso elegante — e, como tantos outros na televisão brasileira, provisório.
Nos primeiros anos, a emissora fez movimentos que sugeriam algum critério. Trouxe parte da equipe de jornalismo da Manchete, apostou em um nome improvável para a TV aberta brasileira como Rubens Ewald Filho (1945–2019), escalado para apresentar um quadro de cinema que antecedia a exibição de clássicos da sétima arte. Havia ali, ainda que timidamente, a ideia de curadoria. Também foi na RedeTV! que Adriane Galisteu se tornou apresentadora. À frente do SuperPop, programa de auditório com embalagem surpreendentemente sofisticada, Galisteu encontrou um formato que funcionava. O DJ Zé Pedro integrava a atração, o tom era mais livre, e a direção segura e criativa de Rogério Gallo garantia alguma coerência estética. Foi ali que Galisteu passou a ser reconhecida como comunicadora.

Adriane Galisteu na estreia do Superpop.Um dos poucos programas que permanece na grade desde a estreia, assim como o TV Fama (Foto: Reprodução/RedeTV!)
Mas, Galisteu acabou indo para a Record, onde apresentou o É Show, e o SuperPop mudou de mãos. Em 2001, o programa passou a ser comandado por Luciana Gimenez, então mais conhecida como ex-namorada de Mick Jagger, com quem tem um filho, do que por qualquer experiência prévia como apresentadora — ao menos no Brasil. Com Gimenez, o SuperPop não apenas mudou de rosto: mudou de vocação. A sofisticação inicial deu lugar ao populismo assumido. Saíram os shows e debates mais elaborados, entraram as pautas de apelo imediato, a polêmica como método, o constrangimento como linguagem e, mais tarde, os memes como termômetro editorial.
Sob a batuta de Luciana, o SuperPop, houve a exploração reiterada de mulheres trans em tom caricatural, a desastrosa “saída do armário” de Agnaldo Timóteo (1936-2021) conduzida pelo jornalista Felipe Campos, além dos debates com Jair Bolsonaro, quando ele ainda era uma figura folclórica do baixo clero parlamentar. Não é exagero afirmar que parte da popularização de Bolsonaro se deu ali, na vitrine do escândalo travestido de debate. O barraco virou política; a política, entretenimento de baixo custo.
Em 16 de janeiro de 2026, a RedeTV! anunciou o fim do contrato de Luciana Gimenez, encerrando um ciclo de 25 anos à frente do SuperPop. A decisão foi atribuída a uma política de “reestruturação” — palavra que, na televisão brasileira, costuma significar apenas mais do mesmo: orçamento menor e pouca ambição.
A saída de Luciana abriu espaço para uma aposta ainda mais explícita no popularesco. A escolhida foi Cariúcha, até então integrante do elenco do Fofocalizando, do SBT. Carismática, popular e sem qualquer verniz, sua contratação pretende dar não apenas nova cara ao programa, mas algum fôlego de audiência à própria emissora, que amarga índices irrelevantes no Ibope. Hoje, o programa que melhor performa na casa é o de Sonia Abrão. O novo programa de Cariúcha ainda não estreou, mas promete inaugurar uma fase marcada pela personalidade forte, pelo improviso e pela ausência de filtro.

Luciana Gimenez apresentou o “Luciana by Night” e o “Superpop” (Foto: Arquivo Site HT)
Mas Cariúcha não é um sinal. É um sintoma. Desde meados dos anos 2000, a RedeTV! flerta abertamente com o escracho, apostando que o caminho da sobrevivência estaria no barulho — sem jamais considerar que audiência alta em programas polêmicos costuma afastar anunciantes relevantes. O sucesso do Pânico na TV, das pegadinhas e dos Testes de Fidelidade de João Kleber funcionou para o Ibope, mas nunca para o mercado publicitário. Grandes marcas evitam associar sua imagem a conteúdos que vivem do constrangimento alheio. Hoje, a emissora tem como grandes apoiadores uma rede de farmácias ligada a Sidney Oliveira e o Governo Federal — este último por obrigação legal, não por afinidade.
A debandada foi progressiva. Restaram poucos nomes-âncora: Sonia Abrão e João Kleber. Convém lembrar que, por anos, Sonia transformou o A Tarde é Sua num programa policial, explorando crimes e tragédias com o mesmo apetite que dedica às fofocas. Agora, a RedeTV! deposita suas fichas em Cariúcha — candidata no concurso Garota da Laje, em 2009, e ex-A Fazenda — como nova comunicadora.

Sonia Abrão e a equipe do “A Tarde é Sua”. Sucesso na Rede TV! (Foto: Divulgação)
A pergunta que se impõe é simples e incômoda: com quem a RedeTV! quer falar? E para quem? A ideia de ser popular só faz sentido se houver, de fato, um público disposto a ouvir. Hoje, a média de audiência da emissora oscila na casa dos décimos. Entre as cinco grandes redes, a emissora de Osasco só supera a Band no Instagram: a Band tem cerca de 1,3 milhão de seguidores; a RedeTV!, 2,3 milhões. As demais ultrapassam com folga os 5 milhões.
O mistério, portanto, não está em apostar numa figura popularesca. Está em imaginar que ela possa devolver dignidade a uma emissora que a perdeu há muito tempo — e em depositar sobre seus ombros a esperança de recuperar uma relevância que escorreu pelos dedos há bons pares de anos.
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