Sidney Magal, cujo doc abre Brazilian Film Festival, em Miami, sobre preconceito: ‘Era chamado de bichona’


O cantor, que desde a década de 70 tem uma legião de fãs de suas músicas icônicas, teve sua trajetória retratada em ‘Me chama que eu vou’, dirigido por Joana Mariani, que vai abrir hoje em grande estilo a 25ª edição do Brazilian Film Festival, em Miami. A produção mostra o Sidney Magal, o eterno cigano sob os holofotes e, mais do que isso, revela curiosidades da vida de Sidney Magalhães, seu sobrenome de batismo. As mulheres iam ao delírio e o consideram um ‘sex symbol’, mas alvo também de muitas provocações de homens por preconceito. “Rolava ciúme, briga de casais, alianças jogadas no palco e os homens com muito preconceito. Eu dizia: ‘Gente, eu não quero provocar tudo isso’, mas acabei preferindo levar para o lado mais tranquilo e na brincadeira, porque eu era ‘uma bichona para muita gente’. A partir daí, os homens acabaram compreendendo o meu trabalho com o tempo, graças à minha vida, a minha forma de me expressar, ao comportamento profissional, que é aquele de respeito muito grande ao público fez passar pelas etapas de preconceitos”, recorda

Sidney Magal abre o coração no documentário “Me chama que eu vou” (Foto: Divulgação)

Um mergulho na vida de Sidney Magalhães. Sim, Sidney Magalhães. Conhece? É a essência, ou o âmago de Sidney Magal, o eterno amante latino. Ah – agora sim, né? -, o cantor que teve um sucesso construído com muita garra desde a década de 70, enfrentou preconceitos pelos seus gestos marcantes no palco, sapatos mega brilhantes, ternos coloridos, ou roupas tal qual um cigano, mas que foi capaz de até hoje cativar uma legião de fãs. Sidney, o Magal e o Magalhães, como o artista gosta de separar a persona pública, teve a vida do polêmico artista e a de pai de família, avô coruja, primo em segundo grau do Poetinha Vinicius de Moraes (1913-1980), registrada no documentário ‘Me chama que eu vou‘, direção de Joana Mariani, no qual alinhavou histórias e lembranças extremamente pessoais. E é o documentário que vai dar o start hoje na Première Internacional da 25ª edição do Brazilian Film Festival, no North Beach Bandshell, em Miami.

Durante live esta semana com Adriana Dutra, sócia da produtora Inffinito ao lado de Cláudia Dutra e Viviane Spinelli, responsáveis pelo mega incentivo ao cinema brasileiro com o Brazilian Film Festival, Magal lembra de histórias que aconteciam sempre em seus shows completamente lotados e ao som de ‘Meu sangue ferve por você‘, ‘Sandra Rosa Madalena‘ e que levavam as mulheres ao delírio o considerando um ‘sex symbol’, mas alvo também de muitas provocações de homens em uma época na qual o preconceito era fortíssimo no nosso país – até hoje, diga-se de passagem. “Rolava ciúme, briga de casais, alianças jogadas no palco e os homens com muito preconceito. Eu dizia: ‘Gente, eu não quero provocar tudo isso’, mas acabei preferindo levar para o lado mais tranquilo e na brincadeira, porque eu era ‘uma bichona para muita gente’. A partir daí, os homens acabaram compreendendo o meu trabalho com o tempo, graças à minha vida, a minha forma de me expressar, ao comportamento profissional, que é aquele de respeito muito grande ao público. Foi bom, porque o público masculino veio para o meu lado. Brinquei a vida inteira, acho que o meu bom humor fez passar pelas etapas de preconceitos”, recorda.

Relembrando um show onde foi alvo de insultos e ovadas por parte de um ‘marido enlouquecido por ciúmes’, o cantor detalhou a situação com bom humor. “Começaram a jogar algumas coisas no palco, as fãs tinham esse hábito e, de repente, jogaram ovos em cima de mim. E eu muito esperto olhando, desviei e deixei que batessem no palco, mas aí ficou aquele silêncio. Peguei o microfone, todo mundo achando que eu ia dar uma bronca e eu acabei disparando: ‘Não faça isso, meu amigo, você está matando um irmãozinho seu sem querer! Aí chamei a mãe do cara já sabe do quê e acrescentei: Não faça isso, pode ser um crime que você está cometendo, pelo amor de Deus! E os ovos estão tão caros, então não faça isso, por favor!”, conta aos risos.

“Me chama que eu vou”, título do documentário, é outra música que passou a ser eternizada na memória dos brasileiros com o embalo de Sidney Magal na década de 90 como tema de abertura da novela Rainha da Sucata, da Globo. “No documentário sou eu para ser visto pelo público, pela minha neta, pela minha família, pelos meus amigos… Um registro para todos do Sidney Magal, mas do Sidney Magalhães, que teve uma mãe cantora, que foi proibido de cantar pelo pai. Então, são lembranças que nunca contei muito, exatamente por que eu não tinha talvez a chance de me abrir tanto”, revela.

Magal conta que a diretora Joana e toda a equipe acompanharam a rotina de sua família. “A Joana sempre teve uma grande sensibilidade devido a trabalhos anteriores que já tínhamos feitos, convivido um pouco, e sempre nos falando. Então, nos aproximamos muito. Você não tem ideia dos dias que ficaram na minha casa, olhando todos os recortes de jornal e revista que eu tenho desde 1976. Olha que loucura, porque eu guardo tudo mesmo! É o Magalhães fã do Magal. Sou fã do Sidney Magal e hoje estou com 71 anos, aí já olho no espelho e digo: ‘Este é um momento de transição. É claro que vou continuar cantando, mas o Magal vai ficar muito na lembrança e o Magalhães vai ser o marido, o avô da Madalena, o pai de Gabriela, Rodrigo e Nathália, e eu tenho o maior prazer nisso. Eu acho que tudo acontece no seu tempo e Joana conseguiu captar com seu olhar muitos aspectos. Me emocionou e chorei muito ao ver o resultado do documentário”, confessa.

E acrescenta: “É lógico que tenho muito do Sidney Magal, mas que não teria hoje essa coragem toda que eu tive nos anos 70, quando comecei a minha carreira, em churrascarias e boates no Rio de Janeiro. Depois fui para a Europa e fiquei quase um ano e meio na Itália, na França, um pouquinho na Áustria também, cantando em boates, teatros e pesquisando, vendo como é que eu gostaria de me apresentar. Toda a forma indumentária que eu comecei a usar, os gestos, a passionalidade, tudo isso, foi nascendo ali. Não sabiam quem era aquele cara maluco do Brasil no palco cantando rock, música italiana, americana, francesa e bossa nova. Então eu comecei a ousar, e vestir o Sidney Magalhães de Sidney Magal”.

Durante a live tivemos ainda o prazer de ouvir Sidney contado curiosidade sobre a origem do nome aartístico que o consagrou na carreira. “Tinha um dono de uma boate onde eu trabalhei que ele foi uma pessoa maravilhosa, me respeitou muito, mesmo eu não sendo conhecido, e quando eu disse que meu nome era Sidney de Magalhães, ele falou: ‘olha, na língua italiana esse ‘LH’ esquece, porque eles não vão pronunciar. Eles vão te chamar de  ‘Magalais’, então vamos cortar esse ‘ães’ e vamos deixar o ‘Magal’ porque é bastante internacional. Então, o nome surgiu na Itália, quando eu estava nessa temporada totalmente como desconhecido. Quando eu voltei pro Brasil, eu já voltei com os trejeitos, com as roupas assim berrantes e chamativas, e com aquela interpretação muito passional, porque sempre fui muito teatral na minha maneira de me apresentar”.

Ele ainda comenta a “relação” entre o Magal e o Magalhães: “Acho que isso eu demonstrei ao longo da minha carreira. Eu nunca consegui fazer com que as pessoas achassem que existia 100% o Sidney Magal. Eu sempre deixei os 30%, 40% pro Magalhães e sempre tratei o público fora do palco como Magalhães, acho isso muito importante, e sempre compreendi o público como Magalhães, e no palco eu deixava o Magal realmente brilhar e ficar bem à vontade. Então isso é muito legal você poder deixar as coisas acontecerem. Os filmes que eu participei, as novelas, os musicais, tudo foi muito assim, eu nunca corri atrás dessas oportunidades, não que eu não me achasse capaz, mas sim porque o artista tem que ser convidado para ser aplaudido”, pontua.

Sidney enfatiza não acreditar que o brasileiro tenha memória fraca, se emocionando ao falar de um vídeo bastante comovente entre uma avó e seus netos. “Eu sempre ouvi desde criança que o brasileiro nunca teve boa memória para falar do seu passado, e acabo não acreditando muito nesse pensamento exatamente por causa da minha carreira. Agora já são quase 60 anos de estrada e eu vi gerações e gerações nos meus shows. Hoje eu canto em formatura de faculdade para jovens, que me viram a partir da lambada, nos anos 90. E eu vejo nas escolas crianças fazendo festas do Dia das Mães cantando “Sandra Rosa Madalena” e vestidas como ciganos. Soube outro dia de algo que me deixou muito emocionado. Dois netos, crianças de seis ou sete anos, e a avó afastada deles por precaução à Covid. Ela estava morando no mesmo apartamento, mas ficava em um quarto isolada das crianças. Então, as crianças chegavam no corredor, chamavam a avó e ela ia até a porta e dava um tchau. Mas, as crianças gravaram um vídeo cantando: ‘Oh, eu te amo, meu amor“, trecho de ‘Meu sangue ferve por você‘. A avó chorava e eu choro toda vez que me lembro dessa história. É fantástico, porque senti que a memória do brasileiro existe, sim, e ela é muito emocionante. Quando a gente fala das memórias muitas passam mesmo, porque é o dia a dia, mas a emoção, o que a música traduz para as pessoas, isso o brasileiro vai ter memória eterna, porque graças a eles, eu tenho uma vida tão longa com carreira artística. A minha vida espero que seja mais longa ainda, quero viver muito. Mas, como Sidney Magal, eu tenho uma vida longa graças a essa memória muito afetiva do público brasileiro”, pontua emocionado.