“Sensual ou pornô?”: bastidores explosivos revelam novas polêmicas do remake de ‘Selva de Pedra’ 40 anos depois


Quarenta anos após ir ao ar, o remake de “Selva de Pedra” ainda guarda bastidores explosivos que contamos aqui. A atriz Sylvia Bandeira, substituída por Maria Zilda no papel de Laura, comparou a situação a receber “um balde de sangue de porco na cara”, em referência ao filme “Carrie, a Estranha”. O diretor Walter Avancini apostou numa sensualidade que foi comparada a um “filme pornô” – e que gerou até uma insinuação de lesbianismo entre as personagens de Christiane Torloni e Beth Goulart. O filho de Janete Clair chegou a chamar a versão de “um desrespeito” à autora original. O resultado foi uma queda de audiência: de 85% para 65%

*Vítor Antunes (com pesquisa de Sebastião Uellington Pereira)

Há 40 anos, um clássico da teledramaturgia foi atualizado e deu origem a um dos remakes mais controversos do horário das 21h — até a decisão de se refazer “Vale Tudo“, em 2025. Entre fevereiro e agosto de 1986, a Globo levou ao ar o remake de “Selva de Pedra“, atualizado por Regina Braga (1941-1999) e Eloy Araújo (1937-2019). A trama, famosa também por ser a última novela completa de Fernanda Torres e por não ter alcançado a mesma audiência que a primeira versão, rendeu bastidores bastante polêmicos. Como a substituição de uma personagem de destaque da trama: Laura, inicialmente interpretada por Sylvia Bandeira e, posteriormente, por Maria Zilda. A substituição foi extremamente turbulenta.

A novela estreou numa segunda-feira, e até a quinta-feira a personagem era de Sylvia Bandeira. Maria Zilda entrou na trama numa sexta-feira — quando foi avisada de que seria remanejada de “Cambalacho“, que na época ainda era chamada de “Cambalache“, em francês. A produção teve apenas dois dias para refazer o figurino da personagem.

Maria Zilda e Walmor Chagas em “Selva de Pedra” (Foto: Reprodução/Bazilio Calazans/Globo)

A troca de Sylvia por Zilda ocorreu porque a primeira estaria com o tom errado para a personagem. “Era grã-fina demais para a personagem Laura, que era rica, porém vulgar”, era o que se dizia nos bastidores. Já a atriz substituída lamentou: “Deixei de fazer uma peça com o Fúlvio Stefanini por causa do convite do Walter Avancini.” A atriz, inclusive, aproveitou a oportunidade para alfinetar a substituta:

Eu acharia um barato fazer um papel vulgar e tenho certeza de que feio eu não faria”.
(…) Não consigo ver a situação da Maria Zilda, que está me substituindo, Vejo os personagens falando comigo, não com ela. No entanto, com Maria Zilda,  realçou-se claramente o aspecto vulgar do personagem. (…) Me senti como “Carrie, a Estranha”, no dia da formatura, recebendo um balde de sangue de porco na cara. Já estou vivendo a missa de sétimo dia, mas o Daniel [Filho] cometeu uma injustiça muito grande” –  Sylvia Bandeira ao Jornal do Brasil, em 1° março de 1986.

Walmor Chagas (1930-2013), que fazia par com Sylvia, lastimou à repórter Rose Esquenazi, também ao JB, em 23/2/1986, às raias da estreia da trama, que iria ao ar no dia seguinte: “Nessas horas a gente percebe que é uma migalha perto de uma engrenagem”. Alguns anos depois, talvez não intencionalmente, Maria Zilda reafirmou a fala de Walmor, por sentir-se pequena em meio à indústria. “Sabe quanto eles me pagaram por toda a novela ‘Selva de Pedra‘? Faço questão de dizer: R$ 237,40″

SENSUAL COMO UMA PORNÔ

O jornalista e escritor Artur Xexéo (1951-2021) dizia que a trama era “sensual como um filme pornô” e fez uma crítica dura sobre a fase inicial da novela, na qual todos os personagens estavam descalibrados e excessivamente sensuais, de acordo com o tratamento dado por Walter Avancini, responsável pelos primeiros 20 capítulos: “O tom foi exagerado. Por que motivo Beth Goulart precisa alisar as pernas ao falar ao telefone? E o que pretendeu insinuar com os olhares cobiçosos trocados por Christiane Torloni e Beth Goulart numa sensualíssima cena que envolvia as duas num banho de piscina? (…) O primeiro capítulo de Selva lembrou uma antologia de cinema (…) como aquelas de ‘As B… Molhadas no Presídio de Tarados Nazistas’.”

Essa sensualidade gerou críticas até mesmo dos filhos de Janete Clair. Sobre a insinuação sexual entre as personagens Fernanda e Cíntia, Alfredo Dias Gomes declarou ao Jornal do Brasil, em 11 de março de 1986: “Se minha mãe estivesse viva, estaria furiosa, tenho certeza. Isso não está no original (…) mas se esse tema não foi abordado pela autora, ninguém tinha o direito de abordá-lo numa obra dela. Acho essa nova versão da novela um desrespeito à minha mãe.”

A sensualidade acabou gerando, de fato, uma sugestão de lesbianismo entre Fernanda, vivida por Christiane Torloni, e Cíntia, interpretada por Beth Goulart — tanto que a canção “Perigo”, de Zizi Possi, foi escrita sob encomenda para as personagens. Porém, o público torceu o nariz.

Christiane Torloni e Beth Goulart em “Selva de Pedra”: “Se o clima é pra romance, eu vou deixar correr” (Foto: Reprodução/Globoplay)

Sobre o assunto, ao site HT, Christiane Torloni frisa: “A teledramaturgia é o espelho da sociedade, dos seus flagelos, riquezas e virtudes. Então, com toda a certeza, as personagens que eu fiz, que tinham essa liberdade já absolutamente assumida, são representativas.” Já Beth Goulart complementa: “O lesbianismo foi uma invenção do Walter Avancini (1935-2001). Ele falou assim: ‘Olha, eu tenho que começar com essa novela, eu tenho que trazer isso para aqui agora. Eu quero o seu personagem trabalhando a sensualidade em tudo”! Só que a primeira cena que eu fiz foi com a Christiane Torloni, e na novela nossas personagens eram super amigas. Avancini, muito provocador, instruiu que a minha personagem seduzisse a dela. Então, nós criamos uma aura de sensualidade que, na verdade, durou só os primeiros 10 capítulos, porque foi o tempo que ele dirigiu. Depois ele saiu da novela e deixou a situação nas mãos do Dennis Carvalho, que mudou a trajetória da personagem. Porém, isso ficou marcado na novela inteira.”

O diretor acreditava que a liberação do comportamento “insinuada em 72” explodiria na versão de 86. “As mulheres, hoje em dia, olham para outras mulheres, acham-nas belas, e isso não determina nenhuma relação homossexual.” Curiosamente, a maior dificuldade do diretor foi convencer o elenco da necessidade de exaltar essa “sensualidade” dos anos 80. “Quando coloquei ao elenco a necessidade de explicitar essa sensualidade, que hoje em dia é coisa comum, os atores se inibiram.” Denise Emmer disse que a novela “estava soturna.”

Na época, a audiência de “Roque Santeiro” era de 85%, e os primeiros 12 capítulos de “Selva” caíram para 65%. Vale lembrar que, no período, a audiência era medida em porcentagem, e não em pontos.