Sem contrato fixo com a TV, Daniel Dantas fala da perda de complexidade na arte e critica a lógica dos realities


Ator formado nos palcos e não pela lógica da televisão, Daniel Dantas construiu uma trajetória marcada pela permanência do teatro como eixo central de seu trabalho. Em cartaz com “TOC TOC” e “Ilíada”, ele reflete sobre humor, ética, memória e os limites da representação. Filho de Nelson Dantas, herdou o ofício mais pela convivência do que pela orientação direta. Crítico da superficialidade contemporânea, observa com cautela a hiper digitalização e a cultura do “cada um por si”. Entre ditadura, televisão e presente fragmentado, sua obra insiste na complexidade, no tempo longo e no encontro com o público

*por Vítor Antunes

Ele está há décadas na televisão e, ainda assim, não é exatamente um ator moldado por ela. Embora seja um rosto familiar para quem acompanha novelas desde os anos 1980, sua formação, seu ritmo e sua lógica de trabalho vêm do teatro — dos tablados, do corpo em cena, da convivência com o público a poucos metros de distância. A televisão foi, ao longo do tempo, um território atravessado; o teatro, uma espécie de genética artística permanente. É justamente ali que ele pode ser visto na comédia “TOC TOC”, ao lado de André Gonçalves, Claudia Ohana e um elenco numeroso. A peça, encenada há anos em diferentes países, gira em torno de personagens diagnosticados com transtorno obsessivo-compulsivo — um tema delicado, frequentemente maltratado pelo humor fácil, mas que aqui é abordado com cuidado.

Ele diz: “Quando o espetáculo foi apresentado a um público que se reconhece como tendo TOC, a recepção foi extremamente positiva. As pessoas se identificaram, sentiram-se bem representadas, e não houve problemas. Não dá para ter certeza absoluta, mas as manifestações que chegam até nós são sempre muito boas. As pessoas dizem: ‘Eu me reconheci um pouco em cada personagem’. Inclusive pessoas que não são diagnosticadas com TOC. Elas dizem: ‘Eu me vi ali, vi meu pai, vi minha mãe’. No início da peça, quando estou mais próximo da plateia, às vezes alguém comenta com a sua companhia: ‘É igual a você’.”

A preocupação não é apenas do ator, mas atravessa todo o processo criativo e dialoga com um público contemporâneo cada vez mais atento aos limites entre humor e estereótipo. O receio de transformar uma condição psíquica em piada gratuita está sempre presente. A equipe, segundo ele, atua de forma vigilante para não reforçar caricaturas nem simplificações. “É curioso como, às vezes, temos essa sensação, inclusive em relação a termos usados pelas personagens, como ‘a minha doença’, ‘o meu problema’. Surge um certo receio de que esta não é uma linguagem 100% correta.”

Daniel Dantas em cena de “Toc Toc” (Foto: Carlos Costa)

Fora das novelas desde “Um Lugar ao Sol”, ele não demonstra ansiedade em relação a um eventual retorno ao gênero que consolidou sua imagem pública. A relação com a televisão, hoje, é pragmática, quase circunstancial. “Por enquanto, não há pretensão de televisão. A TV é algo que depende muito de convites das pessoas que estão produzindo. Eu não tenho mais contrato com a Globo e, pelo que sei, hoje são muito poucos os que têm.”

Paralelamente a “TOC TOC”, o ator também está em cena com “Ilíada”, espetáculo dividido com sua companheira, Letícia Sabatella, em um registro completamente distinto. Se em um trabalho o riso organiza a experiência coletiva, no outro é a palavra épica, fragmentada e ritualística que conduz o espectador. “A comunicação da Ilíada é incrível, mas ela acontece de outra forma. É outra proposta. A gente não pode ter um teatro que só provoque esse tipo de incômodo, mas também não pode viver sem um teatro que provoque esse tipo de reflexão. Precisamos de todas as linguagens e de todas as formas de diálogo com o público. Caso contrário, corremos o risco de empobrecer cada vez mais.”

A trajetória televisiva de Daniel começou em “Chega Mais”, em 1980, e logo em seguida integrou o elenco de “O Amor é Nosso” (1981), novela que, anos depois, seria praticamente apagada da memória oficial da emissora. O ator fala desse período sem ressentimento, mas com uma lucidez rara sobre os mecanismos de produção e descarte da televisão brasileira. “Eu me lembro que “O Amor é Nosso“, por exemplo, foi relativamente tranquilo. Já “Chega Mais” foi diferente: gravamos 15 capítulos, e eu fazia o Despertar ao mesmo tempo. O Boni viu os primeiros 15 capítulos e disse que estavam péssimos. Mandou regravar tudo. Tivemos que trabalhar intensamente para refazer 15 capítulos em cerca de 15 dias. Não lembro exatamente o prazo. Lembro de pensar como a gente reclama da televisão. Foi uma experiência intensa. Eu achava o nosso ambiente mais tranquilo, mas não sei como era o funcionamento geral, especialmente em relação aos níveis mais altos da produção e aos funcionários.”

Essa questão da memória é dura. Há um lado do ator que se acostuma a dizer que aquilo vai passar e que o registro será sempre muito inferior à experiência real. No teatro, salvo raríssimas exceções em que se cria algo especificamente para câmera, o registro de uma peça filmada é outra coisa, geralmente muito inferior, à peça em si. O teatro é, em grande medida, intraduzível para o cinema. Cabe a nós fazer o que precisa ser feito, embora muitas vezes a gente empurre coisas para debaixo do tapete e pague um preço por isso. Isso vale para novelas, filmes e peças. Há muitas coisas que não vale a pena guardar. Em muitas novelas, fora esses poucos capítulos, não acontece nada de realmente relevante. A redundância é estrutural da novela, e em alguns casos ela é levada ao extremo. Hoje, há novelas em que não existe nada absolutamente memorável ou digno de registro. O registro passa a ser mais importante do que a própria obra, como se o mapa fosse maior que o território. São essas inversões que acabam moldando nossa relação com o que produzimos – Daniel Dantas

Daniel Dantas em “Chega Mais” (Foto: Reprodução/Globo/Recuperada por iA)

TEMPO

Filho de um gigante das artes cênicas, Nelson Dantas (1927–2006), Daniel cresceu em meio a ensaios, conversas atravessadas por teatro e silêncio respeitoso sobre escolhas pessoais. A herança, no entanto, nunca se apresentou como imposição. Pelo contrário: foi uma presença constante e, ao mesmo tempo, cuidadosa, quase lateral — uma forma de transmissão que se dava mais pela convivência do que pelo aconselhamento direto.

Ao falar da contribuição do pai em sua trajetória, Daniel recorre a uma imagem precisa, emprestada de um amigo da família: “Meu pai tinha um amigo que dizia: ‘Tenho tanto medo de ensinar errado as coisas ao meu filho que a única coisa que consegui ensinar corretamente foi que (sinal) vermelho é parar e verde é seguir’. Meu pai fazia o máximo para não interferir na minha carreira. Conversávamos muito sobre arte, teatro e afins, mas nunca falávamos diretamente sobre isso”.

A ausência de interferência não significava distanciamento. O diálogo existia, mas se dava em camadas: nas referências compartilhadas, no repertório acumulado, no modo de observar o mundo. Daniel parece carregar essa herança com naturalidade, sem o peso do legado nem o esforço de superá-lo. Seu processo criativo reflete essa mesma simplicidade — quase um antimanual de atuação. “Meu processo é muito simples. Como dizia o ator Antônio Pedro (1940–2023): consiste em decorar o texto e não esbarrar no cenário. Eu sou o resultado dos atores que vi, das conversas que tive sobre atuação, do modo de falar das pessoas à minha volta, de atores que não conheci, dos atores que meu pai viu. Há muitos processos que são herdados.”

Essa postura atravessa também a forma como ele observa o presente. Daniel não romantiza o passado nem dramatiza o agora. Prefere olhar para as transformações do mercado artístico e para a hiper digitalização com um misto de curiosidade e cautela, sem nostalgia militante nem adesão automática às novidades. “Eu não posso dizer que entendo exatamente como essa mudança está funcionando. Acho que pode haver coisas muito boas, assim como coisas antigas que continuam válidas. Sempre existe o discurso de que uma novidade vai destruir a outra, e na maioria das vezes isso não acontece. Mas há muitos perigos. O principal deles, que atravessa vários níveis do pensamento e não apenas a arte, é o aumento da superficialidade e da velocidade de consumo das coisas. Isso me incomoda. Eu não tenho absolutamente nenhum problema com tecnologia. Uso programas básicos de computador, sou apaixonado por ficção científica, ciência e tecnologia.”

O problema não é a tecnologia em si, mas o modo como ela se torna vício, especialmente no uso de redes sociais e do celular. Há duas questões aí: a satisfação declarada das pessoas que se reconhecem viciadas, apesar de essa experiência ser insatisfatória, e o uso econômico e político que se faz disso. Quanto mais rasa e superficial se torna a linguagem, mais fácil é a manipulação. Trata-se de uma decisão política: escolher não seguir por esse caminho. – Daniel Dantas

Daniel Dantas interpreta um homem com Transtorno Obsessivo Compulsivo (Foto: Carlos Costa)

A crítica não é dirigida à tecnologia em si, mas ao modo como ela reorganiza valores, afetos e expectativas — sobretudo em um tempo em que a lógica do mercado parece privilegiar minutos de visibilidade em detrimento da construção de uma trajetória. Nesse contexto, Daniel vê nos realities um sintoma bastante claro.

“O BBB é um reflexo do ‘cada um por si’. O mundo é BBB. Todas as relações são provisórias, porque, no final, o prêmio precisa ser meu. Esse é, para mim, o grande problema desses programas de competição. Tudo é temporário: alianças, relações, acordos, porque, no fim, todos traem todos para ficar com o prêmio. As provas são uma normalização da tortura: pessoas se submetem a sofrimento para ganhar um milhão, um carro. Ficam horas sendo jogadas de um lado para o outro, em pé, no frio, para disputar um prêmio. Isso funciona quase como uma metáfora: trabalhe como um condenado, faça tudo o que mandarem. De todas as maneiras — as diretamente econômicas e as mais sutis, psicológicas — fomos sendo levados a acreditar que não existe alternativa, que é cada um por si e que não há grupo.”

TEATRO HOJE E ONTEM 

Iniciando a carreira nos anos 1970, ainda sob a vigência da ditadura militar, Daniel aprendeu cedo que fazer teatro no Brasil não era apenas uma escolha estética, mas também um gesto político — mesmo quando não se pretendia assim. O ambiente era marcado por vigilância constante, insegurança e uma sensação difusa de risco que atravessava não só os palcos, mas a vida cotidiana. Trabalhar com arte, naquele contexto, implicava lidar com limites invisíveis e medos muito concretos.

“Era medo o tempo todo. Quando começamos com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, companhia de teatro nos anos 1970, e depois com o Pessoal do Despertar, nos anos 1980, fazíamos um teatro explicitamente político. É impossível dizer até que ponto nossas escolhas eram resultado da consciência de que não podíamos falar livremente, do medo, ou de algo mais natural. Mas o medo existia. Tinha-se medo até de andar na rua. Pessoas desapareceram, algumas voltaram, outras não. O que eu via naquele período era que as peças tinham como pano de fundo um inferno: o inferno da repetição e do medo. Era a repetição do medo. Hoje, vivemos o inferno da vigilância, uma vigilância diferente, autoimposta. Há uma mente cansada, desgastada, e somos obrigados o tempo todo a produzir imagens.”

A experiência coletiva, ainda que intensa, estava longe de ser simples. Havia um desejo genuíno de criar grupos estáveis, companhias permanentes e modos cooperativos de produção, mas essas tentativas esbarravam em diferenças de expectativas e projetos individuais. O ideal do coletivo coexistia com trajetórias pessoais em formação, muitas vezes incompatíveis entre si. O resultado era um campo fértil, mas instável, em que os grupos se formavam e se dissolviam com a mesma rapidez. “Dentro dos grupos, essa conversa sempre existiu. Vamos formar um grupo, uma companhia, ou vamos apenas fazer as peças e cada um se vira? No Despertar, por exemplo, cada um tinha um objetivo. Eu queria formar uma companhia; outras pessoas não queriam. Algumas queriam apenas fazer a peça.”

Daniel Dantas: “O Brasil sempre foi um país extraordinariamente difícil, desigual, racista e machista” (Foto: Flavio Rocha)

O Brasil sempre foi um país extraordinariamente difícil, desigual, racista e machista. Não é que fosse melhor antes, mas havia mais espaço para a esperança. Isso foi sendo perdido, e essa perda é planejada há muito tempo. Existe uma ideologia presente em tudo, que vai moldando uma mentalidade. Temos poucas escolas de teatro. O movimento necessário seria ampliar, multiplicar e democratizar essas escolas, em vez de concentrá-las em poucos bairros. No Brasil e no mundo, elegemos há muito tempo prefeitos e gestores culturais muito ruins. Estimula-se constantemente a lógica do ‘cada um por si’. Esse discurso está em todos os lugares, às vezes de forma sutil, outras de maneira explícita.”

Ao atravessar décadas, regimes, formatos e linguagens, Daniel Dantas parece ter feito uma escolha silenciosa, mas persistente: a de permanecer onde a experiência ainda resiste ao descarte rápido, onde o encontro importa mais do que o registro e onde o tempo não é apenas métrica de produtividade, mas matéria viva do trabalho. Entre o teatro que não se deixa filmar, a televisão que apaga a si mesma e um presente saturado de imagens e urgências, ele segue operando em outra cadência — menos visível, talvez, mas mais durável. Não como quem se opõe frontalmente ao mundo, mas como quem insiste em atravessá-lo sem abrir mão da complexidade. Em cena, no fim das contas, não está apenas um ator veterano, mas alguém que ainda aposta que o gesto artístico, quando levado a sério, pode ser um modo de permanecer lúcido em tempos de dispersão.