*Por Brunna Condini
Em um momento em que a saúde mental deixou de ocupar um espaço periférico para se tornar uma das discussões centrais da sociedade contemporânea, impulsionada pelos impactos emocionais duradouros da pandemia, pela exaustão da era digital, pela pressão constante por produtividade e pela quebra de tabus históricos em torno da terapia e do sofrimento psíquico, ‘Sessão de Terapia’ retorna ao Globoplay parecendo ainda mais conectada ao espírito do tempo. A partir desta sexta-feira (22), a série estreia sua sexta temporada sob direção de Selton Mello, que também volta a interpretar o psicanalista Caio Barone. Em um país que enfrenta índices alarmantes de estresse e adoecimento emocional, a produção amplia o olhar sobre ansiedade, depressão, solidão, maternidade, relações familiares e sobrecarga emocional em uma sociedade cada vez mais acelerada. “A saúde mental será sempre um tema fundamental”, destaca Selton.
Depois de atravessar perdas, lutos e silêncios nas temporadas anteriores, Caio Barone retorna ao consultório mais vulnerável, e talvez mais humano, do que nunca. O universo emocional da série se amplia com novos pacientes, novas feridas e uma inversão importante: agora, o terapeuta também precisará ser confrontado por suas próprias fragilidades. “Essa nova temporada mostra que o terapeuta também falha com a sua vida, com seus dramas e com a sua história. O personagem viverá seus dilemas pessoais, lembranças da filha e feridas do passado, para assim fechar seu ciclo de luto e buscar um novo começo”.
É incrível poder fazer algo tão sensível por meio da minha arte e perceber o quanto isso reverbera nas pessoas e o quanto consegue ajudar o público a olhar para a terapia com outros olhos – Selton Mello

Selton Mello retorna à sexta temporada de ‘Sessão de Terapia’ enquanto vive fase internacional inédita no cinema, com estreia em Cannes, novos idiomas e projetos fora do Brasil (Foto: André Cherri)
Relevância que permanece
Criada em 2012, ‘Sessão de Terapia’ construiu uma rara capacidade de acompanhar as transformações emocionais da sociedade brasileira quase em tempo real. Se nas temporadas anteriores o consultório de Caio Barone já funcionava como espaço para discutir as questões humanas e as relações, a nova fase da série chega ainda mais atravessada pelas angústias contemporâneas de um mundo em permanente estado de exaustão. Ansiedade, sobrecarga emocional, solidão, insegurança e sensação constante de insuficiência aparecem agora como sintomas coletivos que atravessam diferentes gerações, afetos e rotinas.
Para a autora Jaqueline Vargas, a permanência da série ao longo dos anos está diretamente ligada à capacidade humana de produzir novos conflitos emocionais continuamente. “Quando o ser humano acha que conseguiu resolver, novas questões surgem. Nessa nova fase, vemos pessoas ainda mais ansiosas, querendo correr atrás do tempo perdido”, afirma. Selton avalia ainda as próprias transformações ao longo de anos de projeto:
O que difere o Selton da primeira temporada e a minha versão agora é basicamente a maturidade. Ao longo da série, fui adquirindo uma confiança, que me foi permitindo trazer intensidade para as narrativa – Selton Mello

Selton Mello e o elenco principal da sexta temporada de ‘Sessão de Terapia’ (Foto: André Cherri)
Desta vez, o protagonista Caio amplia sua agenda e passa a lidar com temas especialmente urgentes da contemporaneidade: a pressão social em torno da maternidade e do relógio biológico, o envelhecimento em uma sociedade obcecada pela juventude, a autocobrança extrema no ambiente corporativo e a inversão emocional de papéis entre pais e filhos. Paralelamente aos conflitos dos pacientes, o próprio terapeuta também atravessa uma fase de mudanças pessoais. Mais atento ao autocuidado, o personagem retoma os estudos, busca atualização profissional e, pela primeira vez, aceita supervisionar colegas da área. Ao pensar sobre produção, Selton sintetiza a relevância da série:
Aquela sala é um mundo. E naquela sala acontece tudo. E aquilo ali acontece e isso exige a sensibilidade de quem está fazendo e a sensibilidade de quem está assistindo. Então, onde eu vou parar é que talvez seja a maior série de ação do audiovisual para perceber o sistema de terapia. Nenhuma série tem tanta coisa acontecendo quanto em uma série onde é dentro de uma sala e duas pessoas falando – Selton Mello

Grace Passô e Selton Mello estão nova temporada de ‘Sessão de Terapia’, que estreia nesta sexta-feira no Globoplay (Foto: André Cherri)
É justamente nesse processo que surge Érica, personagem de Olivia Torres, cuja aproximação desperta em Caio sentimentos que extrapolam o campo profissional e acabam abalando seu equilíbrio emocional. O envolvimento o força a confrontar vulnerabilidades antigas e buscar novas formas de lidar consigo mesmo. “Todas as aflições do Caio Barone vêm à tona nessa temporada, e mostramos como isso afeta a maneira como ele atende seus pacientes e encara seus dilemas pessoais”, explica Roberto d’Avila, produtor criativo da série. “Conheço a Olivia há muitos anos e queria muito trabalhar com ela. Ainda estou encantado por seu talento. A personagem era perfeita para ela, por isso, estou muito contente em tê-la conosco”, diz Selton.
Grace Passô vive a enigmática Rosa Gabriel na nova temporada, uma psicanalista que assume o papel de nova supervisora do protagonista Caio Barone. “A Grace é uma atriz extraordinária. Ela é dramaturga, diretora, escritora, é uma potência. Para assumir esse papel de imponência, tinha que ser ela”. Grace, por sua vez, ressalta a dedicação de Selton: “É um projeto de ele abraça com muita força e muito conhecimento, então é muito bom atuar em obras assim”.

“Quero ter a chance de entrar em outros projetos e viver novas experiências, conhecer outras formas de trabalhar” (Foto: Reprodução Instagram)
A nova leva de pacientes também reforça o mergulho da produção em questões humanas complexas e atuais. Entre os nomes inéditos que passam a integrar a trama estão Alice Carvalho, Paulo Gorgulho e Bella Camero, intérpretes de Morena, Ulisses e Ingrid, respectivamente. Sobre a participação de Alice na série, em um registro diferente do que costuma ser visto, o ator vibra: “É uma honra ter Alice com a gente. O público tem visto ela à frente de papéis mais brutos. E fiquei muito encantado com a ideia de trazer a Alice para fazer uma personagem que traz uma certa doçura, vivendo um drama”.
Primeira vez em Cannes, novos idiomas e personagens desafiadores
Enquanto mergulha novamente nas dores e fragilidades de Caio Barone em ‘Sessão de Terapia’, Selton Mello também atravessa um dos momentos mais internacionais e desafiadores de sua carreira no cinema. Depois da repercussão global de ‘Ainda Estou Aqui’, o ator vive uma sequência inédita de estreias: seu primeiro filme hollywoodiano, seu primeiro trabalho em espanhol e, agora, sua primeira participação no Festival de Cannes, tudo praticamente ao mesmo tempo. Selton integra o elenco de ‘La Perra’, da diretora chilena Dominga Sotomayor, selecionado para a Quinzena dos Cineastas no Festival de Cannes 2026. No longa, adaptação do romance de Pilar Quintana, ele interpreta um personagem decisivo para a trama, descrito pelo ator como “uma espécie de pivô” emocional na história da protagonista. “Participar da prestigiosa Quinzena dos Realizadores é a cereja no bolo de um trabalho encantador”, afirmou Selton, sobre sua estreia no festival francês.

Selton Mello em ‘La Perra’, que está no Festival de Cannes (Foto: Divulgação/Reprodução Instagram)
Em entrevista recente, o ator revelou que decidiu não aceitar imediatamente diversos projetos brasileiros após o sucesso internacional de ‘Ainda Estou Aqui’, justamente para explorar novas experiências criativas fora do país. “Quero ter a chance de entrar em outros projetos e viver novas experiências, conhecer outras formas de trabalhar”, declarou.
Além de ‘La Perra’, ele também foi confirmado no elenco de ‘Zero K’, adaptação do romance de Don DeLillo dirigida pelo americano Michael Almereyda, ampliando ainda mais sua presença em produções internacionais. Segundo Selton, o momento atual tem sido marcado justamente pela busca de personagens que o tirem de zonas de conforto e provoquem novas inquietações artísticas. “Sigo trilhando um caminho novo na minha trajetória, experimentando meu ofício em outras línguas e culturas. Isto tudo tem sido bastante estimulante”, resumiu.
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