Samuel Godois fala sobre personagens polêmicos no teatro e como se reinventou depois de expulso de casa por ser gay


Ator da Baixada Fluminense, celebra sua primeira turnê nacional com a peça Marginal Genet, inspirada na vida do dramaturgo francês Jean Genet. A montagem aborda poder, marginalidade e identidade. Na vida real, rejeitado pela família ao se assumir gay, Samuel encontrou no palco um lugar de resistência e renascimento. Hoje, ele divide seu tempo entre a arte, a barbearia e a convicção de que o improvável também acontece

*por Vítor Antunes

Um mundo de fronteiras a desvendar – de quem não se perdeu, mas precisou recalcular a rota. Agora, cidades que ele jamais havia conhecido o acolhem com calor e curiosidade. Samuel Godois é um ator da Baixada Fluminense que, para manter-se fiel à sua arte, precisou se reinventar mais de uma vez. Morador de São João de Meriti, ele celebra sua primeira turnê teatral nacional, um passo decisivo em sua trajetória. Nesta semana, a montagem “Marginal Genet”, peça encenada por  Francis Mayer, que mergulha na conturbada e fascinante biografia do dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), encerra sua temporada em São Paulo – com casa cheia e repercussão positiva. A peça, que passou pelo Rio de Janeiro, já está em tratativas para ser levada a uma terceira capital do Sudeste. A produção segue em cartaz no Teatro Ruth Escobar, espaço simbólico onde o próprio Genet assistiu, décadas atrás, a uma encenação de um de seus textos.

“A gente foi abraçado mesmo pelo público de São Paulo” – Samuel Godois

Esse abraço, no entanto, não se assemelha ao que recebeu da família. Samuel enfrentou o abandono doméstico ao se assumir homossexual. “Fui criado num lar evangélico e, ainda criança, ouvi, sentado ao lado da minha mãe num culto de domingo, que eu era uma abominação. No momento em que me assumi, fui posto para fora de casa. Não tinha móveis, não tinha nada. Saí com cinco sacolas de supermercado na mão e fui enfrentar a vida, morando de favor de casa em casa. Sem saber como seria o dia seguinte”.

É nesse cenário que sua arte se entrelaça com a obra de Genet, autor que também escreveu a partir das margens da sociedade. “Acredito que gosto desses personagens porque, através dessas margens, fui sobrevivendo. Sempre gostei de dialogar, de entender como o outro se relaciona com o mundo. E foi assim que minha vida se encontrou com a dos personagens do Genet”. Enquanto consolida sua carreira artística, Samuel também trabalha como barbeiro – uma virada que veio após pedir demissão de um supermercado, onde atuou por seis anos.

Além da peça, o ator poderá ser visto em breve também na internet. “Acabei de gravar uma websérie independente que estreia agora no segundo semestre, Castelo de Areia. Eu apareço no último episódio da primeira temporada, mas na segunda viro personagem fixo: um advogado viciado em jogos. A série vai estrear no YouTube do Grupo Fundição”.

Samuel Godois é um dos atores de “Marginal Genet”, em cartaz em São Paulo (Foto: Divulgação)

MALDITOS

Um dos nomes mais instigantes e transgressores da dramaturgia moderna, Jean Genet é o ponto de partida para a montagem que levou Samuel Godois e seus colegas de elenco ao palco paulistano – uma estreia não apenas teatral, mas geográfica. São Paulo, até então, era uma cidade desconhecida para ele. “Por incrível que pareça, o Ruth Escobar foi um dos lugares onde foi apresentada uma peça de Jean Genet para o próprio Genet, quando ele esteve no Brasil. Eu percebi que é uma cidade muito, muito ligada à cultura. Não só ao teatro em si, mas tudo… é centro cultural para todo lado, cinema para todo lado, teatro para todo lado… e as pessoas procuram mesmo.”

A descoberta da cidade se entrelaça ao mergulho na obra de Genet, que fez da marginalidade uma estética e uma política. Os personagens do bas-fond, que transitam entre o abandono e o desejo, entre a violência e a beleza, sempre seduziram Samuel. “Esses personagens marginais sempre foram malvistos. Sempre foram vistos na tentativa de serem apagados da nossa história. E eu acho que falar de Jean Genet nesse momento é falar de tudo aquilo que a sociedade varre para debaixo do tapete, de alguma forma”.

Sanuel Godois em cena (Foto: Divulgação)

A montagem, que bebe da autobiografia do autor francês, vai além do relato de vida. Desvenda relações de poder, jogos tóxicos, as fronteiras imprecisas entre submissão e domínio. “O espetáculo fala sobre isso: sobre relações de controle. O Jean Genet, pra alguns, gosta dessa sensação de ser dominado. E, ao mesmo tempo, em alguns outros momentos, ele pode dominar. Mas ele ainda gosta da posição de ser dominado”. Para Samuel, esse tipo de dramaturgia opera como um desnudamento do próprio social. “O espetáculo fala sobre tirar essas máscaras que a gente coloca dentro da sociedade. Todo o conceito da sociedade… nós decidimos retirar isso e dizer: ‘é isso aqui, e ponto’.”

Os personagens do submundo, ele diz, o atraem não apenas pelo interdito que carregam, mas pela licença poética que oferecem ao ator. “Eles sempre me chamaram atenção. Eu acho que eles têm uma licença poética de pegar a força, em si, do ator – ou da nossa interpretação. A gente consegue desaguar de uma forma muito aberta sobre aquilo que outras pessoas, talvez, nunca tenham coragem de tocar”.

Personagens perfumados não me dizem muita coisa – Samuel Godois

Descobrir a própria profissão pode ser, para o artista, como provar uma fruta que nunca se havia experimentado. A surpresa do sabor, o estranhamento doce, o susto bom de algo que parece novo, mas já morava no corpo. Para Samuel, essa descoberta vem acompanhada de um entusiasmo que transborda. “Pra mim é um mundo muito novo. Te confesso que a felicidade… eu tô explodindo de felicidade. Então, não tem como dizer que eu tô bem, reagindo normalmente, porque eu não tô. Eu tô explodindo mesmo”.

Samuel Godois em cena de “Marginal Genet” (Foto: Divulgação)

A experiência de viver a arte como ofício, de ocupar o palco com verdade, não é apenas um ato pessoal – é também coletivo, quase pedagógico. “Essa caminhada é também uma forma de dizer pros outros, pras gerações que estão vindo agora, que também são da Baixada Fluminense, que moram na periferia, em lugares de difícil acesso como eu… que é possível. Que a arte é possível, que a cultura é possível. Que se a gente se dedicar, se a gente quiser de verdade, a gente vai alcançar.”

Se o calendário acabar, o artista dá um jeito de fazer o tempo voltar. Reencena, reinventa, revive. Porque a arte, quando pulsa, desafia os relógios. A multidão, às vezes perdida, precisa de alguém mais alto – não em estatura, mas em visão – para apontar o caminho. E é ele quem guia: Samuel Godois, é um corpo no palco e um peito aberto que carrega memórias, recusas, esperanças e reinícios. Para sua família, sua arte ainda é uma sombra que se recusa a se projetar. “Minha mãe decidiu não ir ao teatro, meu pai também não. Ela disse que a temática é muito forte para ela, que seria difícil assistir. E disse isso de uma forma harmônica, não houve truculência até então. Já o meu irmão… eu gostaria que ele fosse também, mas com ele é mais por falta de oportunidade”.

Samuel fala com uma serenidade que carrega dor e maturidade, como quem já aprendeu a não esperar aplausos de onde só houve silêncio. Mas é nas esquinas do acaso que a arte encontra abrigo. Numa tarde qualquer, enquanto esperava o ônibus, um desconhecido se virou para ele e disse: “Nunca duvide. O improvável também acontece.” E Samuel não duvidou. Porque o improvável, de fato, é matéria-prima da arte – que só consegue florescer no peito de outra pessoa quando, antes, nasce inteira no peito do artista. A de Samuel é pétala. Delicada, mas resistente ao tempo e ao vento. Se o mundo duvida, ele insiste. E recria o tempo – para que o que não coube antes, agora floresça.