‘Salve Jorge’ retorna à TV, revisita debate sobre tráfico humano e quando Brasil acreditou em pacificação nas favelas


Depois de tropeçar na estreia em 2012, ao suceder “Avenida Brasil”, Salve Jorge renasceu no Globoplay, onde figura entre os títulos mais vistos desde a pandemia. A novela de Glória Perez, sobre tráfico humano e fé popular, volta ao ar em dezembro no canal Globoplay Novelas. Nanda Costa revisita a trajetória de Morena, papel que marcou sua carreira e dividiu opiniões. A obra, antes alvo de memes e críticas, ganhou fôlego tardio e status de fenômeno digital

*por Vítor Antunes

Depois de anos entre os títulos mais assistidos do Globoplay — posição que ocupa pelo menos desde a pandemia — “Salve Jorge” volta à TV, agora em reprise no canal Globoplay Novelas (antigo Viva), dia 8. Quando foi exibida pela primeira vez, em 2012, a novela herdou o horário nobre de “Avenida Brasil” e tropeçou na audiência. Recebeu críticas duras, foi alvo de chacota nas redes, e só conquistou o reconhecimento quase uma década depois. Em 2020, ressurgiu como um dos 10 programas mais vistos da plataforma.

O site Heloisa Tolipan acompanha essa redescoberta há tempos. Em outubro de 2022, “Salve Jorge” ocupava o quinto lugar no ranking de audiência do streaming. Nanda Costa, que viveu a protagonista, relembra o impacto do papel: “Não foi fácil, mas tratou-se de uma experiência maravilhosa. Que bom que tive a Morena em minha vida e uma grande projeção nacional. Até hoje, as pessoas comentam e eu fiquei muito feliz com o tanto de gente que queria que a trama fosse reprisada durante a pandemia. As pessoas foram muito carinhosas com a Morena e eu sou grata à Glória [Perez] por ela por haver acreditado em mim”.

No ano seguinte, a novela permanecia entre as preferidas do público, em oitavo lugar — à frente de “Fuzuê”, então inédita, que nem figurava no top 10. Sem nunca ter sido reprisada no Viva ou no Vale a Pena Ver de Novo, “Salve Jorge” conseguiu o que poucas obras fazem: consolidou espaço próprio no catálogo do Globoplay, competindo com produções como a série “Os Outros” e o documentário sobre Xuxa Meneghel.

O tema, de fato, não era ficção pura. Em 1985, Heloisa Tolipan publicou no Jornal do Brasil uma reportagem sobre um grupo de espanhóis que aliciava brasileiras para trabalhar em uma boate em Palma de Mallorca. Vinte mulheres já estavam com passagem comprada quando a quadrilha foi descoberta. Dois anos depois, Tolipan e o repórter J. Paulo da Silva revelaram outro caso: o de um menino, Iaron, vendido por 7 mil dólares a um casal israelense. Entre as envolvidas estava Arlete Hilu, a mesma mencionada por Glória Perez. Segundo o JB, Hilu era “especializada em traficar bebês brancos para Israel”. O garoto ficou sob a guarda de um policial federal e rebatizado como Gustavo.

O pano de fundo da novela também envelheceu com o país. No fim de outubro de 2025, o Morro do Alemão voltou às manchetes, alvo de uma megaoperação contra o Comando Vermelho. O teleférico, símbolo da prometida pacificação, permanece parado desde 2016. As Unidades de Polícia Pacificadora foram oficialmente extintas em 2024. Glória Perez, no entanto, prefere guardar a imagem de um tempo de otimismo. Para ela, Salve Jorge capturou “a esperança de integração à cidade, e à cidadania, que foi gerada naquele momento e que, infelizmente, não se sustentou. Mas ‘Salve Jorge’ registra esse momento bonito e emocionante, em que seus moradores puderam mostrar sua comunidade como celeiro de talentos, e não apenas como local de crime”.  As Unidades de Polícia Pacificadora encerraram sua jornada em 2024.

Para Nanda Costa, a novela marcou um antes e depois na carreira. “A Morena é parte fundamental na minha história. Foi meu maior desafio profissional, minha personagem de maior projeção. Minha primeira protagonista em novelas. Eu tinha acabado de gravar Cordel Encantado, das 18h, onde eu vivi a Lilica, personagem pela qual eu tenho o maior carinho, mas que tinha pouco tempo de tela e um volume de trabalho cinco vezes menor do que tive em Salve Jorge. Dar conta de estudar, decorar e gravar já foi um grande desafio”.

Morena (Nanda Costa) e Lucimar (Dira Paes) tendo o Teleférico do Alemão no panorama. Novela marcou o processo de pacificação da comunidade de Bonsucesso (Foto: Divulgação/Globo)

Em 2013, a atriz estreava como protagonista vivendo uma moradora do Morro do Alemão que é traficada e escravizada sexualmente na Turquia. O meme “A Morena tá viva” — e o gif de Dira Paes, mãe da personagem, comemorando a sobrevivência da filha — permanecem em circulação nas redes, heranças de uma trama que dividiu opiniões. Entre os alvos de crítica estavam a vilã de Cláudia Raia, que assassinava vítimas com seringas envenenadas, e o penteado instável de Morena. A própria autora, Glória Perez, reagiu às críticas na época, dizendo no Twitter que o público “não sabia voar”, numa tentativa de explicar a rejeição inicial.

O tempo, porém, tratou de reescrever o destino da novela — e, aos olhos de Nanda, o impacto social da história é o que mais importa. “Para mim já teria valido a pena o fato de ter sabido que um cativeiro fora estourado em Madri, porque uma telespectadora desconfiou da viagem de sua filha que havia viajado para trabalhar no estrangeiro. A polícia encontrou um cativeiro em Madri onde havia seis meninas”.

Glória Perez vê o sucesso tardio como resultado da ousadia de sua proposta:

Uma protagonista favelada, traficada e prostituída. Há dez anos atrás, quando estreou a novela, o tráfico humano soou para muita gente como lenda urbana. É um dos crimes de maior rentabilidade ao lado do tráfico de drogas e do tráfico de armas. Salve Jorge deu voz a essas vítimas, e ao mostrar como se faz o aliciamento, evitou que muitas pessoas caíssem na cilada – Glória Perez

Rodrigo Lombardi e Nanda Costa em “Salve Jorge” (Foto: Divulgação/Globo)

É PRECISO VOAR – (E TER OS PÉS NO CHÃO!)

“Salve Jorge ” enfrentou críticas por cenas consideradas inverossímeis — entre elas, o uso de uma seringa letal com que Lívia Marini, personagem de Cláudia Raia, eliminava seus inimigos. O público achou exagero, embora a trama se baseasse em um caso real. Pouco escapou da impiedade dos comentários: nem o penteado de Morena (Nanda Costa), que mudava de forma a cada capítulo e acabou apelidado de “cabelo bipolar”.

Sucessora de Carminha na linhagem das grandes vilãs das nove, Cláudia Raia carregou o peso de suceder o maior sucesso da década. Foi cobrada, de forma velada e explícita, a despertar o mesmo fascínio popular de Adriana Esteves. “Lívia é sofisticada, rica, tem um lado sombrio, são personagens distintos, com tramas muito distintas, mas dou todos os meus aplausos à Adriana [Esteves]. Ela fez um trabalho espetacular”, disse a atriz à época, num misto de cortesia e alívio por não competir diretamente com o fantasma de Avenida Brasil.

A novela de Glória Perez abordava o tráfico humano, o sincretismo religioso e a devoção a São Jorge — o santo guerreiro que, no Rio de Janeiro, é tão onipresente quanto o calor. Mas nem o título escapou da controvérsia. Grupos evangélicos organizaram boicotes à obra por causa da menção ao santo. Um site religioso chegou a publicar que “‘São Jorge’ é um símbolo muito presente na cultura religiosa sincrética brasileira, que também o cultua na umbanda. No segmento [afro] religioso, o santo recebe o nome da entidade espiritual ogum [sic]”. O texto grafava “São Jorge” entre aspas e o nome do orixá em minúsculas — tentativa, consciente ou não, de rebaixar ambos.

Vera Fischer. reclamou de papel em “Salve Jorge”: “Foi “humilhante” (Foto: Alex Carvalho/TV Globo)

No exterior, o título Salve Jorge tampouco fazia sentido. Faltava um “Jorge” no enredo, e a ironia do trocadilho se perdia na tradução. A emissora rebatizou a obra de A Guerreira, simplificando o espírito da novela à figura de Morena, sua protagonista.

A produção marcou o retorno de Lisandra Souto às novelas da Globo, após quase duas décadas de afastamento. “Foi bastante difícil para mim e eu admiro muito as mães que trabalham fora, porque ter que deixar os filhos em casa, realmente era difícil, especialmente quando eles estavam doentes. Foi um aprendizado para mim e para os meus filhos. Na ocasião, o meu filho Yan estava com nove anos, era pequenininho, uma criança, e eu ainda tinha que lidar com a função-mãe de sentar para estudar com ele, estar presente, e me senti culpada quando ele repetiu de ano. Mas no fim das contas tudo deu certo”, relembra.

Mais de 10 anos depois, Nanda Costa ainda se surpreende com a resistência do público. “Fico super feliz em saber que meu maior desafio profissional está entre os mais vistos no Globoplay. Tantas novelas maravilhosas disponíveis na plataforma, novelas que acompanhei durante toda minha vida, protagonizadas por grandes ídolos… Estar entre as mais vistas por dois anos consecutivos é motivo de orgulho e alegria. Eu recebi e recebo até hoje muito carinho por ter vivido a Morena. A novela foi ao ar há mais de 10 anos. Eu fico impressionada com a quantidade de gente que me para na rua pra dizer que está revendo a novela, muita gente termina e volta a assistir pela 3ª, 4ª vez. Eu confesso que não revi ainda. Foi tudo muito intenso na época. Mas sou super grata à Glória Perez por confiar em mim e me presentear com sua Morena”.

Giovanna Antonelli foi a delegada Helo, em “Salve Jorge” (Foto: Divulgação/Globo)

Para a atriz, o valor da trama ultrapassa o entretenimento. “Salvar vidas é sempre urgente. Eu lembro de um caso de desmonte de um esquema de tráfico de mulheres na Espanha. A mãe de uma das traficadas estranhou o comportamento da filha. Ela, que estava acompanhando a novela, percebeu que o comportamento da filha estava muito parecido com o da Morena. Acionou a polícia federal e salvaram seis brasileiras que haviam sido traficadas para exploração sexual. Esse foi só um caso, são muitos. É fundamental falarmos sobre isso”.

Glória Perez, autora da novela, também insiste no peso documental da história. Para ela, o tráfico humano é um dos “crimes de maior rentabilidade, ao lado do tráfico de drogas e do de armas. E, apesar disso, parecia invisível. Fiz uma pesquisa intensa e detalhada, entrevistando vítimas: mulheres resgatadas da escravidão sexual, brasileiros traficados quando bebês que buscavam conhecer sua origem. E de igual maneira localizei e conversei longamente com Arlete Hilu, conhecida como a maior traficante de crianças do Brasil. Tudo o que aparece em ‘Salve Jorge’ sobre tráfico de pessoas, por mais surpreendente que pareça, é absolutamente real e me foi contado em detalhes por quem viveu”.

Paloma Bernardi em “Salve Jorge”. Novela polemizou ao falar de tráfico humano (Foto: Acervo/Globo)

No fim, Salve Jorge sobreviveu ao tempo como suas próprias personagens: ferida, mas de pé. A novela que tropeçou na estreia e renasceu no streaming é, hoje, mais do que um produto televisivo — é um retrato de um Brasil que tentou se pacificar, acreditou por um instante que podia voar e, ao cair, descobriu que ainda precisava aprender a pousar. Entre críticas ao “cabelo bipolar” e aplausos à coragem de falar de tráfico humano em horário nobre, o folhetim se fez documento e metáfora: o país do improviso, da fé e das segundas chances. No alto do morro, São Jorge continua de espada em riste. E, como diria Glória Perez, é preciso voar — mas sem tirar os pés do chão.