Rita Batista estreia como atriz, conta conselho de Lázaro Ramos e diz que não vai escolher entre atuação e jornalismo


Aos 46 anos e depois de 22 dedicados ao jornalismo, Rita Batista estreia como atriz na novela de época ‘A Nobreza do Amor’, fala sobre a virada na carreira, o medo e o desejo de se reinventar, compartilha a transformação física e emocional para viver a personagem e conta o conselho recebido do amigo Lázaro Ramos nos bastidores. Diante dos últimos acontecimentos, reflete sobre o silêncio masculino frente à violência contra mulheres; e ao pensar no caminho profissional que se abre, afirma que não pretende escolher entre o jornalismo e sua nova versão atriz: “Não existe cisão enquanto houver vida. Você está apenas agregando talentos e conhecimentos. Quando você entra em uma nova profissão, ativa novas áreas do cérebro, amplia repertório, lê outras coisas”

*Por Brunna Condini

Rita Batista está vivendo, em 2026, uma virada que não cabe apenas no currículo, mas na coragem da profissional que se reinventa com liberdade. Aos 46 anos, e depois de 22 transitando por diferentes frentes do jornalismo, hard news ao entretenimento, a apresentadora estreia como atriz em ‘A Nobreza do Amor’, novela de época da Globo, que tem início hoje, dia 16. Na trama, Rita interpreta Ladisa, uma mulher atravessada por um drama pessoal profundo, que transforma a própria dor em força política e moral. Para construir a personagem, a apresentadora conta que precisou operar uma mudança radical no corpo, na voz, na postura e até na energia com que ocupa o espaço, já que Ladisa é seu oposto neste sentido. “Ela é uma mulher que não ri, é movimentada pela dor”, resume. “Estou tendo que mudar essa Rita risonha, que exibe todos os dentes assim, de canino a canino, o tempo todo, que gargalha, que é solar”.

Em conversa com o site, Rita falou sobre medo, desejo, reinvenção e sobre o impulso que a levou a bater à porta da dramaturgia da Globo: “Pedi para fazer um teste. Disse: ‘Vocês já me chamaram aqui pra fazer algumas coisas e agora eu queria fazer um teste mesmo, valendo, sabe? Com personagem e tal’”, conta. Antes, ela já fez participações nas novelas ‘Fuzuê’ e ‘Vai na Fé’ (ambas de 2023), e mais recentemente, ‘Dona de Mim’ (2025), como ela mesma.

Acho que essa possibilidade de comunicar é o que me move. No jornalismo temos a materialidade do fato, da notícia, da responsabilidade com o real. Já na dramaturgia, podemos brincar com as realidades. Nos transportamos para outros universos – Rita Batista

Após 22 anos no jornalismo, Rita Batista estreia como atriz em ‘A Nobreza do Amor’, vive virada na carreira e revela desafio para viver personagem (Foto: Carlos Salles)

Após 22 anos no jornalismo, Rita Batista estreia como atriz em ‘A Nobreza do Amor’, vive virada na carreira e revela desafio para viver personagem (Foto: Carlos Salles)

Ao comentar sobre mudanças de carreira, Rita afirma que não pretende escolher entre o jornalismo e sua nova versão atriz: “Não existe cisão enquanto houver vida. Você está apenas agregando talentos e conhecimentos”. Para ela, entrar em uma nova área significa ativar outras possibilidades criativas e intelectuais, ampliando o olhar sobre o mundo e também sobre si mesma: “Quando você entra em uma nova profissão, ativa novas áreas do cérebro, amplia repertório, lê outras coisas”. Quando questionada sobre sua permanência na dramaturgia, indica encarar essa nova fase com abertura, mas faz uma ressalva:

Isso só o público vai dizer. Na dramaturgia quem manda é ele. Se gostam, se não gostam, se percebem a personagem. Novela muda conforme a reação das pessoas. Então, agora é expectativa e ansiedade. Só quando a novela for ao ar é que vamos saber – Rita Batista

Rita Batista caracterizada com Ladisa para a novela ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/ Globo)

Rita Batista caracterizada com Ladisa para a novela ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/ Globo)

A decisão de atravessar essa nova fronteira profissional veio rápido, e com ela, inevitavelmente, o medo. Rita conta que o intervalo entre pedir o teste e receber a resposta foi curtíssimo, exigindo uma decisão quase imediata. “Pedi o teste em agosto, fiz em outubro e no início de novembro já veio a resposta. Foi tudo muito rápido”, relembra ela, que saiu do matinal ‘É de Casa’, onde ficou por cerca de três anos, para se dedicar ao folhetim. A notícia vinha acompanhada de um calendário que não deixava margem para hesitação: a novela estrearia em março e os trabalhos começariam em janeiro. “Tinha viagem marcada, férias planejadas… mas pensei: fui eu que procurei. Quem procura acha”, diz, rindo. “Era também um momento de muitas mudanças dentro da própria empresa, e eu senti que talvez tivesse que ser agora”.

O mergulho na dramaturgia e conselhos de Lázaro

Uma vez dentro do projeto, Rita começou um processo intenso de preparação. Ainda que o elenco principal já estivesse trabalhando desde dezembro, ela iniciou em janeiro uma imersão na construção da personagem, que envolveu estudo de prosódia, trabalho corporal e leituras coletivas do texto: “Gravei minha primeira cena no final de janeiro. Foi tudo muito intenso.”

E diz que Ladisa exigiu uma transformação completa. “Ela é uma mulher profundamente marcada pela dor. Isso muda tudo: postura, olhar, voz”. O figurino também ajuda a desenhar essa dureza: tons terrosos, cinza e preto, ausência de maquiagem, tatuagens cobertas, unhas curtas e quase nenhum adorno. “A voz também ficou mais grave, monocórdica. É uma mulher que fala pouco e carrega muita coisa dentro”, descreve.

Sobre a versão atriz: “Não existe cisão enquanto houver vida. Você está apenas agregando talentos e conhecimentos” (Foto: Carlos Salles)

Sobre a versão atriz: “Não existe cisão enquanto houver vida. Você está apenas agregando talentos e conhecimentos” (Foto: Carlos Salles)

Nesse percurso, a apresentadora conta que encontrou acolhimento no elenco, especialmente de atores com quem já tinha uma relação anterior. Um deles é Lázaro Ramos, que a conhece há duas décadas:

Lázaro (Ramos) foi muito generoso comigo. Brincou, dizendo: ‘A atriz, ela goza’, no sentido de que atuar dá prazer – Rita Batista

Mas o conselho que mais a marcou veio em seguida: “Lázaro disse algo muito importante: que eu precisava pensar como a personagem. Não é Rita pensando por Ladisa. É Rita emprestando corpo, voz e pensamento para ela”.

Rita Batista e Lázaro Ramos na festa de lançamento da novela ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Reprodução/Instagram)

Rita Batista e Lázaro Ramos na festa de lançamento da novela ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Reprodução/Instagram)

Ela recorda que a transformação começou a se tornar concreta quando viu a caracterização final. “Quando me caracterizei e vi a foto pronta da personagem, percebi: não sou mais eu. É ela”. Apesar das diferenças evidentes entre a apresentadora expansiva e a personagem austera, Rita identifica um ponto de interseção fundamental entre as duas: a busca por justiça. “Se Ladisa tivesse uma profissão, seria jornalista. Ela não suporta injustiça. Vai direto na fonte, não manda recado”.

Contra o silêncio dos homens

Essa inquietação ética, aliás, ultrapassa a ficção e aparece também nas reflexões que Rita faz sobre o presente. Recentemente, ela se manifestou nas redes sociais sobre o caso de estupro coletivo que chocou o país, envolvendo uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro, um episódio que a mobilizou profundamente. “É um horror inacreditável”, lamenta. “Quando vejo um jovem dessa idade planejando um crime desses com outros rapazes, a pergunta que me vem é: de onde eles aprenderam isso?”. Para Rita, o problema não se limita ao crime em si, mas ao silêncio que frequentemente o cerca:

O que me incomoda muito é o silêncio dos homens. Não basta dizer que é absurdo. É preciso agir, conversar, confrontar amigos, colegas, irmãos. Esse pacto de silêncio precisa acabar – Rita Batista

“Se minha personagem tivesse uma profissão, seria jornalista. Ela não suporta injustiça. Vai direto na fonte, não manda recado” (Foto: Carlos Salles)

“Se minha personagem tivesse uma profissão, seria jornalista. Ela não suporta injustiça. Vai direto na fonte, não manda recado” (Foto: Carlos Salles)

Mãe de Martim, um menino de oito anos, ela reconhece que essa discussão também atravessa sua vida pessoal. “Meu filho hoje é pequeno, mas daqui a pouco terá 17 anos. Isso faz a gente pensar muito sobre educação, sobre o que ensinamos aos meninos desde cedo”.

Confiança

Autora de ‘A Vida é um Presente’, livro de mantras e reflexões cotidianas que ganhou continuação a convite da editora Planeta, Rita não descarta que a história se transforme em trilogia. “Material existe”, anuncia. Enquanto isso, ela se dedica inteiramente à novela, e compartilha o conselho que hoje guia sua trajetória, resumindo bem o momento de reinvenção que atravessa. “Se você quer fazer algo novo, calcule minimamente se aquilo é possível, mas não se violente. Desafie-se, mas não sofra. Se enxergar a possiblidade, vá, confie”. E compartilha, para inspirar essa confiança, um dos mantras que está no seu livro e repete para si mesma diariamente: “Tudo na minha vida vem a mim com facilidade, alegria e glória”.

“Para fazer a novela estou tendo que mudar essa Rita risonha, que exibe todos os dentes assim (risos), de canino a canino, o tempo todo, que gargalha, que é solar” (Foto: Carlos Salles)

“Para fazer a novela estou tendo que mudar essa Rita risonha, que exibe todos os dentes assim (risos), de canino a canino, o tempo todo, que gargalha, que é solar” (Foto: Carlos Salles)