*por Vítor Antunes
O ator português Ricardo Pereira volta às novelas com um personagem de destaque em ‘Coração Acelerado’. Jean Carlos, um vilão de grandes proporções, desses que se impõem pela inteligência e pelo desconforto que provocam. O ator prefere, no entanto, fugir das caricaturas. “As expectativas são altíssimas. “Coração Acelerado” é uma novela com ritmo, emoção e personagens muito bem construídos. O Jean Carlos é um vilão, sim, mas não gosto de pensar em vilões rasos. O que me interessa são as contradições, os conflitos internos, aquilo que humaniza mesmo os personagens mais sombrios. Já fiz outros vilões no Brasil, mas cada um surge num momento diferente da minha vida e da minha maturidade como ator – e isso muda tudo”.
Em 1977, Portugal e Brasil viviam momentos distintos. Por aqui, a ditadura militar ensaiava a sua flexão para a abertura lenta, gradual e segura. Pelas bandas de lá, Portugal tentava reaprender a liberdade depois da Revolução dos Cravos. Em ambos os casos, os dois países acabaram unidos em torno de uma mesma figura feminina, fictícia e ardente, que ambicionava viver sem amarras: Gabriela, a mulata de cravo e canela criada por Jorge Amado (1912-2001). A personagem estreou naquela época em Portugal e abriu caminho para uma temporada consistente de obras brasileiras em terras lusitanas, num movimento de mão única que duraria décadas.
O percurso inverso foi mais tímido. Ainda que, episodicamente, atores portugueses atravessassem o Atlântico para trabalhar no Brasil, essa presença só se consolidou de forma definitiva na teledramaturgia da Globo em 2004/2005, quando o português Ricardo Pereira foi escalado como protagonista de “Como uma Onda”. Um marco que o ator celebra até hoje. “É um saldo profundamente positivo e transformador. Essas duas décadas de ponte aérea moldaram quem eu sou como artista e como pessoa. O Brasil passou também a ser a minha casa. Aprendi outras cadências, outras formas de contar histórias, de me relacionar com o público. Hoje, me sinto um ator que pertence a mais de um lugar – e isso é um privilégio”.

Ricardo Pereira em “Como Uma Onda” (foto: Divulgação/Globo/Renato Rocha Miranda)
Além da televisão, 2026 se anuncia como um ano de travessias múltiplas. Ricardo enumera os projetos com a naturalidade de quem já fez da circulação entre países uma rotina profissional. “2026 chega como um ano muito simbólico para mim. Voltar às novelas brasileiras com ‘Coração Acelerado’ é algo que me entusiasma muito, mas isso vem acompanhado de outros projetos importantes. Em Portugal, sigo em turnê com a peça ‘Uma Brancura Luminosa’, a primeira adaptação nacional de uma obra do Jon Fosse, e a ideia é trazer esse espetáculo para o Brasil em breve. Também tenho projetos no cinema e em séries no Brasil, como a série da Netflix, ‘Fúria’, que ainda vai estrear. Tenho também o filme da Monica Martelli e da Ingrid Guimarães, entre outros trabalhos que reforçam esse trânsito entre países, línguas e formatos, algo que se tornou uma marca natural da minha carreira”.
CORAÇÃO NAVEGADOR
Cada vez mais brasileiros desembarcam em Portugal. Cresce também, na mesma proporção, o número de relatos de intolerância dirigidos a essa comunidade, hoje numerosa e visível em diferentes regiões do país. O fenômeno não passa despercebido e tampouco é indiferente para quem vive entre as duas margens do Atlântico. Ricardo Pereira acompanha esse movimento com inquietação e lamento. “Portugal sempre foi um país de emigração e imigração, de partidas e chegadas, de busca por outros mundos. Receber pessoas de outros lugares acabou se tornando algo natural, quase um reencontro histórico e cultural. Infelizmente existem casos de tensões que refletem questões sociais, econômicas e identitárias. A cultura, a arte e o diálogo são caminhos fundamentais para desmontar esses preconceitos e lembrar que somos mais próximos do que diferentes, e que o respeito deve sempre prevalecer”.

“Ainda que diferentes, o respeito deve prevalecer” (Foto: fernando Young)
A circulação cultural entre os dois países, no entanto, segue desigual. Muito do Brasil, sobretudo no campo da cultura e do entretenimento, chega com facilidade a Portugal. O caminho inverso ainda é restrito. Há quem veja nisso um movimento simbólico de colonização às avessas. Para Ricardo, trata-se menos de disputa e mais de desconhecimento. Ele sustenta que há um Portugal criativo que o Brasil ainda precisa descobrir. “Portugal vive um momento muito interessante no audiovisual e nas artes cênicas, com uma produção autoral forte, diversa e contemporânea. Há séries, filmes, dramaturgias e uma cena teatral extremamente viva, que ainda circulam pouco no Brasil. Acho que o intercâmbio precisa ser maior, porque quando essas obras chegam, elas encontram público, curiosidade e identificação”.
A formação de Ricardo como ator ocorreu majoritariamente em Portugal, e essa experiência moldou seu olhar sobre o ofício. Ao transitar profissionalmente pelo Brasil, ele passou a perceber diferenças claras entre as pedagogias praticadas nos dois países, sem hierarquizá-las. “Em Portugal, a formação costuma ser muito rigorosa do ponto de vista técnico, muito ligada ao teatro, à palavra, ao silêncio, à escuta. No Brasil, encontrei uma pedagogia mais intuitiva, mais corporal, muito conectada à emoção e ao ritmo. São abordagens diferentes, mas absolutamente complementares. Ter vivido as duas me deu uma caixa de ferramentas muito mais ampla”.

Ricardo Pereira acha que há coisas de Portugal que o Brasil precisa conhecer e vice-versa (Foto: Fernando Young)
Num mundo globalizado, em que o artista tende a ser percebido menos por sua nacionalidade e mais por sua capacidade de transitar entre linguagens, Ricardo reflete sobre o lugar do ator europeu no mercado audiovisual latino-americano, especialmente num momento em que se discute decolonialidade e representação. “Vejo esse espaço se ampliando, especialmente com o crescimento das coproduções e das plataformas globais. O ator europeu deixou de ser visto como algo distante e passou a integrar narrativas mais complexas e plurais. O desafio agora é seguir construindo personagens que façam sentido dentro dessas histórias, sem estereótipos, com verdade e profundidade”.
Entre cravos que ainda ecoam, novelas que atravessaram décadas e um ator que fez do Atlântico uma linha de respiração, a travessia segue aberta. Gabriela ensinou, um dia, que a liberdade também podia ser narrada em português do Brasil, sob o sol de Portugal. Ricardo Pereira responde a esse gesto com um caminho inverso e contínuo, feito menos de chegadas definitivas do que de permanências móveis. Seu trabalho não pertence a um território específico, mas ao intervalo entre eles, onde a escuta afina a palavra, o corpo aprende novos tempos e a identidade deixa de ser âncora para se tornar correnteza. A arte, ali, não resolve fronteiras, mas as dissolve, lembrando que o oceano, quando atravessado muitas vezes, deixa de separar e passa a ligar.
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